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Campo Grande, Domingo, 17 de Dezembro de 2017

16/06/2015 08:47

O dia em que a diferença entre os iguais virou “batom na cueca”

Paulo Nonato de Souza
O atacante Lima, eu e a Mercedes com as faixas laterais pintadas de branco em frente ao prédio onde ele morava em Cascais (Foto: Arquivo pessoal)O atacante Lima, eu e a Mercedes com as faixas laterais pintadas de branco em frente ao prédio onde ele morava em Cascais (Foto: Arquivo pessoal)

Tenho tantas histórias do atacante Lima, jogador revelado no Operário de Campo Grande na década de 1980, que um único livro seria insuficiente para que todas fossem contadas. Em 1990 ele estava em sua melhor fase desde que chegara ao Benfica de Portugal, apesar de viver em pé de guerra com seu empresário, o português Manoel Barbosa, e o treinador benfiquista, o suéco Sven-Göran Eriksson.

Com Barbosa, a bronca do atacante era por conta de acertos financeiros referentes à sua transferência do Grêmio de Porto Alegre para o Benfica, sobre os quais não concordava. Já com Eriksson, Lima vivia às turras pela visível preferencia do treinador pelo seu compatriota, o também atacante Mats Magnusson. Mesmo fazendo gols decisivos, como o que levou o time português para a final da Champions League, na época chamada de Taça de Clubes Campeões da Europa, ele continuava preterido e, quando entrava jogando, sempre acabava substituído no início do segundo tempo. Magnusson, ao contrário, nunca saia do time, mesmo que jogasse mal.

Pessoa de natureza fria, fazendo jus à fama de quem nasce nos países nórdicos, Sven-Göran Eriksson não dava ouvidos aos apelos de Lima, e contava com o apoio de parte da imprensa portuguesa, que escancaradamente não nutria qualquer simpatia pelo atacante sul-mato-grossense e ainda fazia uma espécie de vigilância permanente no seu comportamento, dentro e fora de campo.

Até mesmo o fato de Lima ter comprado uma Mercedes, trazida da Alemanha, foi motivo de críticas. Diziam que no lugar de carrões de luxo deveria se preocupar em jogar futebol. Era um carro branco, realmente imponente, e Lima, talvez para afrontar os críticos ou para ser diferente, mandou pintar de branco as faixas laterais das portas, originalmente na cor preta. Quando vi o carro inteiramente branco disse a ele que aquela não tinha sido uma boa ideia, levando em conta a tese da diferença entre os iguais. “Assim você vai ser facilmente identificado no trânsito, onde quer que esteja”, comentei. E o irmão dele, o Liminha, respondeu filosoficamente: “Não tem graça nenhuma ser igual a todo mundo”.

Aquele era um ano de Copa do Mundo, a Copa da Itália, e o português Manoel Barbosa, morto em março de 2014, aos 69 anos, simplesmente um dos mais influentes empresários de futebol da Europa nas décadas de 1980 e 1990, primeiro agente reconhecido pela Fifa, gerenciava as carreiras dos zagueiros Ricardo Gomes e Aldair, e do atacante Valdo, todos companheiros de Lima no Benfica, que haviam sido convocados para defender a Seleção Brasileira no Mundial. Como o Benfica estava na fase decisiva da Champions League e logo depois da competição europeia os jogadores teriam que se apresentar para a disputa da Copa, Barbosa resolveu fazer um jantar de confraternização em sua casa, em Cascais, para homenagear e desejar boa sorte aos seus três pupilos na dupla jornada. Diferente do suéco Ericksson, ele fazia de tudo para manter um mínimo de civilidade na relação profissional com Lima, e pelo que pude perceber, a despeito de todas as desavenças, ataques verbais e críticas recíprocas, sua preocupação era quase que de pai para filho, tanto que o convidou para o jantar, embora não estivesse na lista para a Copa do Mundo.

TEM HORA QUE O DIABO ATENTA - Lima recebeu o convite com bastante antecedência, não o descartou, mas também não garantiu que iria. Foi gentil ao gesto de Barbosa e manteve o suspense até as últimas consequências. Quando o dia do evento chegou, ainda fazia segredo se iria ou não. Ao cair da noite voltei a perguntar: Você vai ao jantar? E aí ele respondeu de primeira: Não. É que a essa altura já havia optado por uma “puladinha de cerca” com uma jovem francesa chamada por nós apenas de “Pachê”, que vivia em uma casa a menos de cem metros do prédio onde ele morava com a esposa Sandra, uma pernambucana tão bela quanto brava, e o filho mais novo ainda bebezinho. Insisti que deveria ligar e avisar o Barbosa sobre a decisão de não ir ao jantar e Lima respondeu já com uma estratégia que se revelaria numa grande roubada: “Não, não vou ligar. Você e o Liminha (o irmão) vão lá me representar”.

Então, já que os amigos são para todas as horas, lá fomos nós em um carro emprestado pelo zagueiro Ricardo Gomes, e como justificativa deveríamos dizer que o Lima iria com a esposa Sandra ao hipermercado Pão de Açúcar. No caminho, debatemos sobre quem apresentaria a desculpa ao Barbosa. Liminha considerou que a missão caberia a mim, que eu teria mais argumentos, mas devolvi a gentileza, afinal, ele era o irmão e daria mais autenticidade à mentira. Chegando lá, o Barbosa veio nos receber na porta e sem fazer qualquer saudação foi logo perguntando: “Cadê meu jogador...Cadê meu jogador?”

A objetividade foi tanta que ficamos atônitos. Pior que isso: Nem eu nem Liminha levamos em conta a existência de um aparelho chamado telefone. Pois é! Ao ouvir a lorota do Liminha, o Barbosa de imediato telefonou para a casa de Lima. Queria falar com o atacante, mas quem atendeu foi Sandra. Na nossa frente ele disparou: “Oh Sandra, tu já não me ligas nenhuma ô pá. Por que tu resolves ir ao Pão de Açúcar com o Lima na noite do meu jantar?”. E como nessas horas o diabo atenta, do outro lado da linha Sandra ouviu a bronca do empresário português, desmentiu a nossa famigerada justificativa, encerrou a conversa e foi até a janela do apartamento respirar ar puro para se recuperar. Lá do alto do nono andar, ela viu uma Mercedes branca com faixas laterais igualmente brancas saindo do portão da casa da francesinha Pachê. Era o “batom na cueca”. Pelo menos se o Lima não tivesse mandado pintar de branco as faixas pretas da Mercedes...

NOTA – Na semifinal da Champions League de 1990, o Benfica perdeu de 2 a 1 para o Olympique de Marseille, no jogo de ida, em Marseille, na França. Lima fez 1 a 0, Franck Sauzée empatou e Jean-Pierre Papin virou o placar. No jogo de volta, em Lisboa, o Benfica venceu por 1 a 0, gol marcado por Vata, que substituiu Lima no segundo tempo. Graças ao gol fora de casa, o time português foi para a final e perdeu o título para o Milan da Itália, em Viena, na Áustria, com derrota de 1 a 0, gol do holandês Frank Rijkaard.



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