Antônio vive em "Casa de Boneca" e mantém cor por amor à esposa
Imóvel de madeira rosa foi construído pelo casal e segue do jeito que Cirene queria, mesmo após a despedida
Há mais de duas décadas, Antônio Belarmino dos Santos, de 62 anos, mora no que os vizinhos chamam de “casa de boneca". No bairro Center Park, a estrutura de madeira pintada toda de rosa, com detalhes em azul, chama atenção de quem passa pela Rua Maria Nagib Budib. O imóvel é o sonho, a realização e a lembrança de uma vida ao lado da esposa, Cirene Maciel Fernandes, de 63 anos.
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Com zero masculinidade frágil, Antônio mantém viva a cor preferida da pessoa com quem dividiu 40 anos de histórias e adianta: não vai trocar nunca! Depois de tantos anos juntos, um problema no coração levou Cirene dele. Tudo aconteceu em janeiro deste ano.
As palavras ainda custam a sair quando ele fala sobre ela, mas o marido não poupa elogios à companheira, que viveu cada etapa do sonho de ter a casa própria e, melhor ainda, do jeito deles.
“Sempre o pessoal fala que parece casa de boneca por ser pintada de cor-de-rosa, e eu tenho uma paixão muito grande por ela. Isso foi o começo da minha vida e eu consegui ela na luta. Eu me sinto muito feliz aqui dentro. Essa casa é uma lenda, uma relíquia. Pretendo ter ela até o resto da minha vida”, afirma.
A estrutura, segundo ele, tem mais de 40 anos de existência e Antônio é o terceiro dono. A cor rosa, que virou marca registrada da residência, também carrega afeto. Antônio diz que sempre gostou do tom, mas que Cirene amava rosa. “Quando ela era viva, a gente decidiu por sempre pintar ela dessa cor. Eu não pretendo trocar nunca”.
De acordo com Antônio, a esposa já havia passado por uma cirurgia para trocar a válvula cardíaca, mas precisaria fazer um novo procedimento. A perda, segundo ele, foi rápida e dolorosa. “A gente era muito unido. Onde um estava, o outro também estava. A minha vida foi toda com ela”, relembra.
Mas nem sempre a casinha foi toda cor-de-rosa. Antes, a parte de dentro era azul, assim como os detalhes da parte de fora. A cor, inclusive, foi um erro do qual o casal gostou no fim das contas.
“Comprei essa tinta e era pra ser vermelho cereja. Minha esposa queria, mas deu esse rosa bonito. Eu pintei ela assim em novembro de 2025. Minha esposa chegou a ver. Quando troquei esse telhado, ela ajudou a pintar”.
Antônio relembra a história da casa, que começou antes mesmo de ela chegar ao terreno onde está hoje. O imóvel pertencia a um conhecido, que vendeu para um colega dele. Foi então que surgiu a ideia de comprar parte da estrutura e remontá-la em seu próprio terreno.
“Passei um ano montando a casa. Era algo pré-montado”, explica. Sem condições financeiras para fazer tudo sozinho, Antônio contou com a ajuda de amigos. Cada um ajudou como pôde. Por isso, ele chama o imóvel de “casa do tiquinho”.
“Cada amigo meu me deu uma mão. Todo domingo a gente vinha pra cá. Eu e minha esposa acreditávamos”, lembra. De novo, Antônio se esforça para completar a frase e conseguir dizer mais sobre Cirene.
“Ela era uma guerreira. Onde eu tava ela tava junto. Eu ia tirar a cor, mas minha esposa gostou muito e a palavra dela era a que ficava. A gente conversava sobre tudo o que a gente ia fazer. Se era bom pra ela, era bom pra mim. Se era bom pra mim, era bom pra ela”.
Antes de conquistar o próprio canto, Antônio morava com o pai. Ele conta que chegou a pensar que nunca conseguiria sair de lá. Por isso, o dia da mudança para a casa rosa ficou marcado. “Quando juntei a mudança pra vir pra cá foi um sonho”, diz.
Nem todo mundo acreditou no projeto. O vendedor aposentado lembra que, na época, ouviu críticas por construir uma casa de madeira em uma região onde muitos defendiam apenas imóveis de alvenaria. Mesmo assim, seguiu em frente.
Confira a galeria de imagens:
“Quando comprei aqui só podia fazer casa de alvenaria. Todo mundo falava que eu iria estragar o bairro, por ser de madeira. Era a que Deus me deu. Eu não ligo para o que o pessoal fala. Isso foi uma luta e barreiras muito grandes. Lutei para realizar meu sonho”.
Antônio trabalhou por muitos anos como promotor de vendas e em mercado, até conseguir se aposentar. Cirene era dona de casa. Juntos, tiveram quatro filhos e 10 netos. Alguns moram com ele na casa de boneca.
Na garagem, outro personagem também guarda histórias: um Fusca antigo, chamado por Antônio de “guerreiro”. O carro, mesmo com pneu furado, ainda funciona, segundo ele. Há mais de 10 anos, ele chegou a ser usado até para levar um corpo ao cemitério, depois que o transporte funerário ficou caro demais para a família.
Hoje, entre a casa rosa, o Fusca e as lembranças de Cirene, Antônio segue vivendo no lugar que ajudou a construir com as próprias mãos. Enquanto depender de Antônio, o rosa continua. E não é só por estética, é amor “pintado” na madeira.
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