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Arquitetura

Depois de ver despacho, Passarinho criou placa para mandar recado

Na casa, pintor coleciona móveis antigos, assim como as histórias que conta

Por Jéssica Fernandes | 06/12/2021 08:59
Placa de papelão fixada no portão da residência. (Foto: Jéssica Fernandes)
Placa de papelão fixada no portão da residência. (Foto: Jéssica Fernandes)

O Passarinho é uma figura simpática, falante e com um repertório de piadas peculiares. O nome de nascimento dele é Aluísio Pereira da Silva, 57 anos, mas ele prefere ser chamado somente pelo apelido que ganhou na infância. No Bairro Jardim TV Morena, Passarinho vive na casa que traz no portão, uma placa de papelão com os dizeres “Deus habita aqui”.

Ao Lado B, o homem contou que a placa foi colada há algum tempo, depois que ele viu um despacho na esquina da rua. Desde então, fez questão de mostrar para as pessoas da região que não vive sozinho e está bem protegido.

Além da figura celestial, o Passarinho vive com o vira-lata Jão, que chegou no endereço há 20 dias. “Ele que me escolheu”, enfatiza sobre a amizade dos dois. Ambos são bons companheiros e dividem o espaço da residência que, assim como o dono, tem muita personalidade própria.

Passarinho comenta que não gosta do nome e prefere o apelido de infância. (Foto: Jéssica Fernandes)
Passarinho comenta que não gosta do nome e prefere o apelido de infância. (Foto: Jéssica Fernandes)

Réplicas de quadros famosos de pintores como Michelangelo e Pablo Picasso, móveis rústicos de madeira e um tapete de couro decoram a sala, que divide o mesmo ambiente com a cozinha. A maioria dos itens do imóvel são fruto de presentes que ganhou de clientes e amigos que conheceu ao longo da vida.

Na sala, o Passarinho aponta para o jogo de cadeiras e mesa de madeira, fazendo questão de explicar a origem. “Isso aqui é uma relíquia, é um engenho de cana e isso na cadeira é uma canga de boi”, diz. Para cada objeto, o homem tem uma história diferente para contar. “Eu trouxe esse baú de ônibus de uma viagem que fiz para Natal. Quando chegou na Paraíba, o cara disse que tinha que pagar, falei que não iria pagar nada para descer do ônibus”, conta.

Depois de falar do baú, ele olha para as poltronas e revela que conquistou de um dos trabalhos que fez. “Fui pintar para uma japonês, ele disse que não queria mais elas, eu disse que pintaria a parede e fizemos a troca”, afirma. Neste momento, ele também revela mais uma curiosidade sobre si. “Eu gosto de coisa velha, eu me dou bem só com gente velha, criança e animais”, expõe.

Jogo de cadeiras e mesa de madeira. (Foto: Jéssica Fernandes)
Jogo de cadeiras e mesa de madeira. (Foto: Jéssica Fernandes)

Questionado se era um artista, o morador enfatiza que não. “Eu não me considero artista, sou um pintor que sobrevive da pintura. Sou pintor de parede e decorador. Saio todo dia para trabalhar e pinto em todo lugar”, fala. Embora não se considere um pintor de telas, Passarinho é uma pessoa talentosa com o pincel. A parede da oficina e a porta do banheiro entregam a habilidade que tem com os instrumentos e tintas acrílicas.

Pai de cinco filhos, o Passarinho tem contato somente com quatro deles, mas guarda a fotografia da filha com quem já não conversa mais. Antes de fixar moradia em Campo Grande, ele morou no Amazonas, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul.

Passarinho gosta muito de jogar conversa fora e os 57 anos de vida renderam diversos assuntos durante a entrevista. O pintor demorou um bom tempo para falar sobre a placa que confeccionou e o motivo. Quando finalmente disse, mudou o tom bem-humorado e assumiu uma postura séria pela primeira vez.

Na casa, fotos revelam recordações do pintor. (Foto: Jéssica Fernandes)
Na casa, fotos revelam recordações do pintor. (Foto: Jéssica Fernandes)

De acordo com ele, o objetivo da placa é trazer proteção. “Eu coloquei essa placa, porque vi um despacho na rua, então, fiz questão de escrever, porque se o seu é mau, o meu não. Foi algo para me dar proteção, afastar Satanás, a história é essa”, conclui.

No final da entrevista, Passarinho fez questão de mostrar a parreira de uvas que cultiva há mais de três anos, mas que deu frutos pela primeira vez agora. Em seguida, pousou alegre para as fotos ao lado do amigo Jão e se despediu com um sorriso no rosto.

Passarinho e Jão na varanda. (Foto: Jéssica Fernandes)
Passarinho e Jão na varanda. (Foto: Jéssica Fernandes)


Cacho de uvas da parreira cultivada no quintal casa. (Foto: Jéssica Fernandes)
Cacho de uvas da parreira cultivada no quintal casa. (Foto: Jéssica Fernandes)

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