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Artes

Após síndrome do pânico, Pedro Espíndola transforma experiência em álbum

Trabalho será apresentado nesta quinta-feira na Capital antes de chegar às plataformas

Por Thailla Torres | 16/09/2026 06:24
Após síndrome do pânico, Pedro Espíndola transforma experiência em álbum
Capa do álbum que será lançado nesta semana (Foto: Tati Resende)

Em 2018, Pedro Espindola precisou fazer algo difícil para quem vive de música: afastar-se dos palcos. A ansiedade, com a qual já convivia havia alguns anos, se intensificou até chegar à síndrome do pânico. Vieram o medo de estar em locais públicos, o receio de aceitar trabalhos e um período de aproximadamente um ano longe das atividades que envolviam maior exposição.

Foi justamente durante os primeiros meses dessa pausa que nasceram as músicas que, oito anos depois, formam o álbum "Um Ensaio Sobre Transtornos de Ansiedade e Síndrome do Pânico". O trabalho será apresentado nesta quinta-feira (17), às 19h, na Estação Cultural Teatro do Mundo, em Campo Grande.

“Já convivia com a ansiedade há alguns anos, mas era algo mais moderado. Quando tive essa passagem mais intensa e delicada, acabei tendo que tirar um ano fora dos palcos, trabalhos com muita exposição e algumas situações que se tornaram mais difíceis. Por isso dei uma sumida”, conta.

Pedro passou cerca de seis meses mais recluso, próximo da família e buscando tratamento. Nesse período, percebeu também uma mudança na relação com a própria música. As composições surgiram quase de uma vez.

As músicas, porém, permaneceram guardadas. Depois da pandemia, quando decidiu retomar o trabalho autoral, Pedro percebeu que aquele conjunto poderia virar um disco. Mostrou as composições ao produtor Leo Copetti e as gravações foram feitas no Estúdio da Paz.

A escolha de falar abertamente sobre saúde mental também determinou a maneira como escreveu. Pedro conta que procurou ser direto sobre experiências que, durante muito tempo, teve vontade de esconder.

“Eu quis ter o máximo de literalidade possível para esse trabalho. Eu notei que as letras, apesar de poéticas, também eram muito explícitas e, já que eu resolvi abrir essa questão tão íntima e delicada, pensei que, se era para se abrir, então que fosse da forma mais franca e direta possível.”

Três músicas partem diretamente de episódios vividos por ele. Outra nasceu da conversa com uma amiga que enfrentava depressão, enquanto uma quinta composição surgiu ao observar o sofrimento de um amigo que havia perdido uma pessoa próxima.

Hoje, depois de passar por psicólogo, psiquiatra e terapia, Pedro diz que ainda não consegue apontar exatamente quando a ansiedade começou.

“Essa é a pergunta do milhão. Hoje em dia, depois do tratamento, terapia, psicólogo, psiquiatra e tudo mais, eu não consigo saber se ela sempre esteve ali e um dia transbordou ou se ela nasceu quando eu já era adulto e as coisas se desencadearam.”

O que ele consegue identificar é a forma como os sinais foram ficando maiores. Primeiro, sentia desconforto em lugares públicos e vontade de voltar para casa. Depois, passou a evitar determinados ambientes e começou a ter receio até de aceitar trabalhos.

A percepção de que havia uma questão de saúde veio aos poucos. Primeiro, buscou apoio entre amigos e familiares. Depois, procurou ajuda profissional, que ele considera fundamental.

Compor sobre o que estava vivendo não foi a parte mais difícil. Pedro diz que as músicas nasceram como outras de sua carreira: inspiração, violão no colo e o trabalho de lapidar letra e melodia. Expor tudo isso ao público é que trouxe medo.

“De fato, decidir gravar e, principalmente agora, mostrar para os outros está sendo dificílimo. Dá medo, vergonha, insegurança, receio de julgamento. Mas que se foda, já está tudo pronto, fiz de coração e vou mostrar. Quem gostar, gostou; quem não gostar, faz parte.”

Apesar do tema, ele faz questão de afastar do disco qualquer promessa de que música possa substituir tratamento.

“Não quero ser guru de nada e nem prometer cura através da arte. Não acredito em algo tão ensimesmado assim. Mas acredito que uma pessoa que ouvir essa obra vai poder se tocar que aquilo que ela está passando é algo comum a muitas pessoas e talvez isso ajude a não se sentir tão sozinha numa luta pessoal com a própria mente.”

E resume a diferença que procura estabelecer: “O tratamento em si é com profissionais. Psicólogos, psiquiatras, médicos, a ciência. A arte ajuda a vida a ficar menos sofrida.”

Após síndrome do pânico, Pedro Espíndola transforma experiência em álbum
“Quando você está na pior, as coisas são difíceis e não tem fórmula pronta. É a sua travessia”, diz Pedro. (Foto: Tati Resende)

Tristeza sem abandonar a esperança

Embora tenha sido escrito durante um período difícil, Pedro não queria que o álbum fosse apenas um relato de sofrimento.

“Para mim, o lamento teve que servir de combustível para tentar me reerguer. Então as músicas têm uma esperança no ar. Elas relatam, mas fazem acreditar. Porque eu nunca deixei de acreditar que ia dar a volta por cima.”

Ele também evita transformar a própria experiência em uma fórmula para outras pessoas. “Quando você está na pior, as coisas são difíceis e não tem fórmula pronta. É a sua travessia.”

Essa esperança, acredita, apareceu naturalmente nas composições. “Eu sou assim, um cara feliz. Então acho que nas músicas, apesar de toda a tristeza e melancolia, eu acabava abraçando a esperança também.”

Os Espindola estão no disco

Filho de uma família que atravessa a história da música sul-mato-grossense, Pedro também reconhece no álbum marcas dos Espindola. Algumas aparecem na maneira de compor e tocar. Outra, brinca, está na cobrança que faz de si mesmo.

“Um lugar que a herança dos Espíndola sempre aparece no meu trabalho é na autocobrança extrema”, diz.

O pai e os tios, que formaram o Lírio Selvagem, são referências desde cedo. Pedro diz ter aprendido com eles maneiras de construir uma rima, tocar violão e observar o outro antes de escrever.

Musicalmente, o novo álbum não é centrado em elementos como sanfona ou ritmos ternários, mas carrega referências do pop e de artistas que também influenciaram sua família, como Beatles, Bob Dylan e Rolling Stones.

A ligação familiar fica ainda mais concreta em uma das faixas, na qual o pai toca contrabaixo. “Meus tios Espíndola e meu pai são meus Beatles particulares. São o sol que eu orbito com muito orgulho e admiração.”

Após oito anos entre as primeiras crises e a chegada das músicas ao público, Pedro não espera que o disco entregue respostas para quem enfrenta algo semelhante. Se conseguir diminuir um pouco a solidão de alguém, já será suficiente.

“Eu só acho, sinceramente e com muito afeto, que ouvindo essas canções a pessoa pode sentir que não está sozinha na luta. Que nós somos muitos e que passamos por experiências parecidas.”

E, se as músicas levarem alguém a procurar ajuda, melhor ainda. “Caso essa obra faça alguém buscar ajuda especializada, vai ser muito gratificante, mas não coloco essa pressão na pessoa nem em mim. Cada um está seguindo o próprio caminho com as próprias forças.”

Lançamento e documentário

A apresentação desta quinta-feira será diferente de um lançamento tradicional. Pedro não fará um show do álbum. O público assistirá a um minidocumentário sobre a produção, o processo criativo e a experiência pessoal que deu origem às músicas.

O encontro também terá a participação de uma psicóloga para abordar o tema pelo ponto de vista profissional. Depois do evento, na madrugada de sexta-feira (18), o álbum será disponibilizado nas plataformas digitais e no YouTube.

O lançamento será às 19h, na Estação Cultural Teatro do Mundo, na Rua Barão de Melgaço, 177. Como o espaço tem lugares limitados, a confirmação de presença é feita pelo telefone (67) 98411-7294.


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