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Consumo

CD não morreu e virou objeto de desejo entre jovens do streaming

Colecionadores veem nos discos uma experiência que as plataformas digitais são incapazes de reproduzir

Por Amanda Ferreira | 16/09/2026 06:32
CD não morreu e virou objeto de desejo entre jovens do streaming
Para Anna, colecionar CDs também é uma forma de conhecer épocas que não viveu (Foto: Arqiuivo Pessoal)

Antes de as plataformas digitais colocarem milhões de músicas a poucos toques de distância, escolher o que ouvir exigia bem mais esforço. Nos anos 2000, parte desse ritual começava nas lojas, entre prateleiras cheias de CDs, capas coloridas e aparelhos que permitiam escutar algumas faixas antes da compra. Duas décadas depois, o formato perdeu espaço no consumo cotidiano, mas não desapareceu das estantes.

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Jovens redescobrem os CDs como objetos de memória e coleção, mesmo com o acesso facilitado pelo streaming. A estudante Anna Abreu, de 19 anos, e a jornalista Carolina Gimenes, de 28, ilustram esse movimento ao reunirem discos que carregam histórias pessoais e valor afetivo. Para elas, o formato vai além da música e preserva identidade visual, nostalgia e conexão com diferentes épocas.

Entre quem cresceu cercado por streaming, os discos compactos passaram a ocupar outro papel. Mais do que uma forma prática de ouvir música, eles viraram lembrança, item de coleção e uma maneira de transformar álbuns preferidos em objetos físicos. Há jovens que guardam exemplares antigos, procuram lançamentos de artistas atuais e montam coleções mesmo tendo acesso às mesmas músicas pelo celular.

CD não morreu e virou objeto de desejo entre jovens do streaming
Anna Abreu, de 19 anos, começou a colecionar mídias físicas influenciada pela mãe e pela irmã (Foto: Arquivo Pessoal)

Esse interesse faz parte da rotina da estudante Anna Abreu, de 19 anos. O contato com mídias físicas começou dentro de casa, onde a mãe mantém uma coleção de discos de vinil e a irmã já reunia CDs e LPs. A convivência com essas coleções, somada ao gosto pela música, despertou nela a vontade de ter versões materiais dos trabalhos que mais gosta.

“No meu ciclo íntimo tenho pessoas que colecionam mídias físicas, minha mãe tem uma coleção extensa de vinil que sempre adorei e minha irmã colecionava tanto CD'S quanto discos de vinil, juntei isso com a paixão por música e vontade de ter alguma versão material dos álbuns que eu amava”.

Na coleção de Anna, um dos exemplares mais especiais é o álbum “De Primeira”, de Marina Sena, recebido das amigas no aniversário de 19 anos. O presente ganhou valor também pela história compartilhada pelo grupo com a cantora.

Anna conta que já acompanhava o trabalho da artista quando convidou as amigas para um show em Campo Grande. Elas conheciam poucas músicas, mas deixaram a apresentação interessadas no repertório. Para a estudante, o CD acabou se tornando também uma recordação daquela amizade e da experiência vivida juntas.

CD não morreu e virou objeto de desejo entre jovens do streaming
Capas, encartes e discos fazem parte da experiência musical de Anna (Foto: Arquivo Pessoal)

“Com certeza mudou, acho que uma das perdas do streaming e da música digital é perder muito do trabalho visual que existe por trás da identidade de um álbum que você muitas vezes só consegue capturar olhando o encarte do CD mesmo. Acho que também muda a forma como você interage com álbuns como um trabalho completo em que as faixas conversam entre si”.

Anna também enxerga a coleção como uma forma de se conectar com épocas que não viveu diretamente. Para ela, ouvir um álbum em mídia física muda a experiência porque permite observar também a capa, o encarte e toda a identidade visual pensada para aquele lançamento.

“Cresci cercada de pessoas que gostavam de música e colecionavam CDs e vinis, então isso influenciou meu gosto. Acho interessante ter contato com uma época que não vivi, porque a música também retrata aquele momento. Gosto de ouvir o álbum olhando a arte do CD e vejo que muita gente da minha geração também se interessa por objetos físicos e colecionáveis”.

CD não morreu e virou objeto de desejo entre jovens do streaming
Carolina Gimenes mantém CDs que marcaram diferentes fases da vida (Foto: Arquivo Pessoal)

A jornalista Carolina Gimenes, de 28 anos, os CDs carregam lembranças de uma época que ela viveu desde a infância. O hábito veio de casa, cercada pelos discos dos pais, tios e da avó, que ouvia Roberto Carlos em um discman. Entre cópias piratas compradas em feiras, CDs gravados no computador e lançamentos de artistas como Xuxa, Rouge, Paramore e Katy Perry, a coleção foi acompanhando as diferentes fases da vida.

“Na minha família, ter CD era algo muito comum. Eu lembro dos racks cheios, dos discos dos meus tios, dos meus pais e até do discman da minha avó. Quando dava, eu pedia para comprarem para mim e para minha irmã. Depois, na adolescência, comecei a comprar CDs de outros artistas e também de K-pop. Esses já eram importados e mais caros, e muita gente nem tira da embalagem porque são vistos mais como itens de coleção”, conta.

Entre os CDs guardados por Carolina, alguns sobreviveram menos pelo estado de conservação e mais pelas histórias que carregam. Um deles é Blá Blá Blá, lançado pelo Rouge em 2004. Era o único disco original que ela e a irmã tinham na infância, com uma capa coberta de glitter que as duas tratavam como relíquia, até Carolina derrubá-lo e quebrar a caixa. Anos depois, a irmã ainda se lembra do episódio.

CD não morreu e virou objeto de desejo entre jovens do streaming
Entre os CDs da coleção, os de Paramore estão entre os favoritos de Carolina (Foto: Arquivo Pessoal)

“Também tenho o Meteoro, do Luan Santana, que ganhei em um sorteio de revista. Eu tinha comprado uma revista adolescente, mandei um e-mail para participar da promoção sem esperar muita coisa e, um tempo depois, chegou uma carta para mim. Quando abri, era o CD. Achei aquilo o máximo”.

Hoje, Carolina admite que compra menos CDs, mas ainda mantém uma lista de títulos que gostaria de ter e sonha até com um discman. Para ela, o valor desses objetos ultrapassou a função de ouvir música e passou também pela memória, pela decoração e pela possibilidade de guardar algo que possa ser mostrado no futuro.

“É muito pela nostalgia. Eu acho muito legal ter algo físico, porque daqui a um tempo você pode mostrar para as crianças da família ou deixar exposto em algum canto da casa. Para mim, o CD hoje vai além da música, ele pode ser como um porta-retrato ou uma obra de arte com a qual você se identifica", afirma.

Carolina também enxerga os CDs dentro de um movimento cíclico de tendências. Depois da retomada dos vinis, que voltaram ao mercado impulsionados por jovens e novos lançamentos, ela acredita que os discos compactos ainda podem viver uma nova fase.

“Assim como acontece com moda, cabelo e arquitetura, as tendências voltam. Nos últimos anos vimos o retorno dos vinis, inclusive entre artistas mais jovens. Acho que o CD ainda não teve esse retorno triunfal, mas aguardo ansiosamente o momento em que os jovens redescubram isso e ele volte à moda”, finaliza.

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Carolina soma 18 CDs e mesmo com o streaming, Carolina mantém a coleção e ainda tem discos na lista de desejos (Foto: Arquivo Pessoal)


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