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Artes

Boneco feito durante iniciação no candomblé mudou a vida e virou arte

Esculturas e pinturas valorizam a cultura afro-brasileira e as religiões de matriz africana

Por Clayton Neves | 28/07/2026 07:13

Um boneco de palha feito com os fiapos de uma esteira, durante o recolhimento para a iniciação no candomblé, foi o primeiro sinal de que a arte faria parte da vida de Evellyn Guissone. O que foi um passatempo, incentivado pela irmã de santo Eliana Souza, cresceu junto com a fé das duas e se transformou em uma marca de artigos religiosos que usa esculturas e pinturas para valorizar a cultura afro-brasileira e aproximar o público das religiões de matriz africana.

A história começou em 2023, quando Evellyn fazia santo. Ainda no quarto de recolhimento, ela improvisou um pequeno boneco de palha. A peça chamou a atenção de Eliana, que na época acompanhava sua iniciação e enxergou um talento que a escultora ainda não conhecia.

Pouco depois, veio o desafio de produzir 50 lembranças para uma festa de terreiro. Sem nunca ter trabalhado com esculturas em biscuit, ela aceitou a missão e ganhou a certeza de que aquele caminho merecia ser trilhado.

Boneco feito durante iniciação no candomblé mudou a vida e virou arte
As sócias Eliane e Evellyn em exposição na Feira Ziriguidum. (Foto: Arquivo Pesssoal)

As encomendas passaram a surgir entre irmãos de religião e, mais tarde, vieram pedidos maiores, que exigiram ajuda de outras pessoas do terreiro para dar conta da produção. Enquanto aprimorava a técnica, Evellyn também encontrava em Eliana uma conselheira para garantir que cada detalhe das esculturas respeitasse a tradição dos orixás.

A parceria artística entre as duas começou por acaso. Um dia, as duas descobriram que estavam fazendo presentes uma para a outra. Evellyn criava uma escultura de Xangô, enquanto Eliana pintava um prato de Oyá. Elas comentaram que um dia poderiam vender as obras em uma feira de artesanato e a brincadeira virou realidade quando a dupla decidiu participar da Feira Ziriguidum, onde expõem as criações até hoje.

No Santo Dendê, Evellyn cria esculturas em biscuit, amuletos e incensários. Eliana pinta pratos de barro e peças de madeira. Apesar das técnicas distintas, tudo nasce da ancestralidade e o respeito às religiões de matriz africana. “Não basta ser bonito. Precisa fazer sentido para quem vive a religião", resume a escultora.

Boneco feito durante iniciação no candomblé mudou a vida e virou arte
Diferentes orixás feitos com massa de biscuit. (Foto: Arquivo Pesssoal)

A espiritualidade também faz parte da rotina de trabalho. No pequeno ateliê montado em casa, Evellyn modela as peças ao som de cantigas e pontos do candomblé e da umbanda. Entre uma escultura e outra, ela acende velas, usa incensos e diz sentir uma conexão especial durante a criação das obras, principalmente quando representa entidades.

Esse cuidado faz parte da proposta da marca, que rejeita processos industriais. Todas as peças são produzidas manualmente, uma a uma, respeitando o tempo da criação e a identidade de cada obra.

Além de vender artesanato, Evellyn e Eliana enxergam o trabalho como uma forma de apresentar ao público a riqueza da cultura afro-brasileira. Em um cenário ainda marcado pela intolerância religiosa, elas acreditam que a arte também ajuda a romper preconceitos e despertar curiosidade sobre os orixás, entidades e tradições de matriz africana.

Confira a galeria de imagens:

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Essa aproximação acontece até de forma lúdica. No estande do Santo Dendê, os visitantes podem participar da "Rodada de Axé", uma dinâmica em que, por R$ 5, giram uma pequena máquina e recebem mensagens inspiradas em entidades, frases de reflexão ou até brindes produzidos pelas próprias artistas.

Sem produção em série e conciliando o artesanato com empregos formais e funções dentro do terreiro, as duas ainda caminham em ritmo lento. Mas fazem questão de que o crescimento aconteça sem perder aquilo que deu origem ao Santo Dendê: a união entre arte, espiritualidade, ancestralidade e respeito às tradições que inspiram cada peça.

As esculturas menores, com cerca de 10 a 12 centímetros, custam a partir de R$ 150. As versões médias, de até 17 centímetros, são vendidas por R$ 250, enquanto as maiores, que chegam a 33 centímetros, variam entre R$ 550 e R$ 650.

Boneco feito durante iniciação no candomblé mudou a vida e virou arte
Peças transmitem fé e o respeito às religiões de matriz africana. (Foto: Arquivo Pesssoal)

Já as pinturas de Eliana em madeira custam entre R$ 35 e R$ 45, e os pratos de barro pintados à mão têm preços que vão de R$ 50 a R$ 180, conforme o tamanho.

O telefone para contato da Santo Dendê é o (67) 99917-2012.

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