Câmera virou refúgio de advogado e revelou histórias invisíveis pelas ruas
Projeto criado para distrair a mente após um período difícil passou a reunir relatos de pessoas comuns

Meses depois de perder a mãe, Douglas da Costa Cardoso, de 51 anos, comprou uma câmera para ocupar a cabeça. Advogado público, nunca imaginou que o hobby o levaria a descobrir histórias escondidas pelas ruas de Campo Grande e que ouvir desconhecidos também seria uma forma de reconstruir a própria rotina.
RESUMO
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Advogado público de 51 anos, Douglas da Costa Cardoso transformou a fotografia em uma forma de superar o luto pela morte da mãe. Do hobby nasceu o perfil Retratos de Campo Grande, em breve renomeado Faces do Cotidiano, que registra histórias de trabalhadores, moradores em situação de rua e pessoas comuns. Para Douglas, a sensibilidade vale mais do que o equipamento, e o cotidiano é mais verdadeiro do que as idealizações das redes sociais.
A fotografia nunca foi profissão para Douglas. Sempre gostou de câmeras, mas foi apenas no fim de 2025 que decidiu investir novamente no hobby. Depois de comprar o equipamento, estudou fotografia por conta própria até descobrir a fotografia de rua. Em vez de paisagens ou animais, encontrou nas pessoas o assunto que procurava.
"Eu peguei a câmera, saí para a rua e comecei a fotografar pessoas. A interação com elas começou a me fazer bem, e fotografá-las também começou a me fazer bem", conta.
Dessa experiência nasceu o perfil Retratos de Campo Grande, que em breve passará a se chamar Faces do Cotidiano. O que começou como um espaço para publicar fotografias virou também um arquivo de histórias de pessoas comuns.
No início, Douglas fotografava, conversava e transformava aqueles encontros em legendas. Sem perceber, passou a registrar pequenos relatos de quem aceitava dividir alguns minutos da própria vida.
"São histórias de pessoas que estão lutando, batalhando, crescendo, vivendo o seu cotidiano. É isso que eu procuro retratar.", diz.
Entre tantos encontros, alguns permanecem vivos na memória. Um deles aconteceu na comunidade quilombola Furnas do Dionísio, onde conheceu Sinval. Em outra ocasião, ouviu Barbosa, pipoqueiro que há três décadas trabalha na Praça Ari Coelho e sustentou toda a família vendendo pipoca. Também conversou com um vendedor que mantém o carrinho há 43 anos em frente ao Santuário Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.
Mas nenhuma história o marcou tanto quanto a de Hilda. Ela atravessava a Rua 14 de Julho, na esquina com a Barão do Rio Branco, quando chamou a atenção de Douglas. De turbante, maquiagem e salto alto, caminhava tranquilamente pelo Centro.
Ele levantou a câmera e fez alguns registros. A reação inicial foi de estranhamento. Então decidiu se aproximar. "Eu falei: 'Estou te fotografando porque achei você linda'."
A frase desarmou qualquer receio. Hilda sorriu, aceitou conversar e contou um pouco da própria rotina enquanto resolvia tarefas simples no Centro. "Ela era uma pessoa simples, mas aquilo mostrou uma beleza muito verdadeira."
Nem sempre é Douglas quem inicia a conversa. Enquanto fotografava próximo ao Camelódromo, um homem em situação de rua o chamou. "Você quer que eu te conte um pouco da vida real? Me fotografa que eu te conto."
O desconhecido revelou que já havia trabalhado como operador de guindaste em São Paulo (SP), mas problemas familiares o levaram às ruas. Mesmo enfrentando o alcoolismo, dizia acreditar que ainda conseguiria reconstruir a própria vida.
São encontros assim que fazem Douglas continuar caminhando. Para ele, são justamente essas histórias que merecem ser contadas. "Hoje as redes sociais estão inundadas de idealizações. A vida não é isso. A vida é o cotidiano. É o trabalhador, é quem sai de casa todos os dias para batalhar pelo alimento."
Embora goste de produzir imagens tecnicamente bem-feitas, ele garante que esse nunca foi o principal objetivo. "O olhar do fotógrafo é muito mais importante do que o equipamento que ele utiliza. O que vale é a sensibilidade para contar uma história.", destaca.
Essa também é a razão da mudança de nome do projeto. Apesar de ter começado em Campo Grande, Douglas percebeu que nunca quis retratar apenas uma cidade. "Quando falo em faces, não estou falando apenas de rostos. Estou falando das facetas da vida: do trabalho, da alegria, da comida, das festas, do nascimento, da morte. Quero retratar todas elas.", completa.
Quem quiser acompanhar o trabalho do advogado, basta segui-lo no Instagram @retratosdecampogrande
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