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Saúde e Bem-Estar

Alzheimer apaga lembranças recentes, mas afeto e identidade resistem

Músicas, cheiros e objetos familiares ajudam a reduzir a agitação e a manter a sensação de segurança

Por José Cândido | 17/09/2026 10:44
Alzheimer apaga lembranças recentes, mas afeto e identidade resistem
Doença compromete primeiro a memória recente, enquanto histórias antigas, hábitos e emoções tendem a resistir. (Imagem Canva)

Quando se fala em Alzheimer, é comum imaginar uma pessoa perdendo, aos poucos, todas as lembranças e até a própria identidade. A doença, porém, não apaga uma vida de uma só vez. Antes que memórias antigas sejam atingidas, histórias, sentimentos, hábitos e vínculos afetivos podem permanecer preservados durante anos.

RESUMO

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O Alzheimer compromete primeiro a memória recente, mas preserva por anos lembranças biográficas, habilidades e vínculos afetivos, segundo o neurologista Pedro Levi, do Humap-UFMS. O paciente pode não reconhecer nomes, mas mantém reações emocionais a pessoas próximas. Especialistas alertam contra a infantilização do doente e recomendam preservar sua autonomia com adaptações seguras. Após os 50 anos, esquecimentos recorrentes que afetem a rotina devem ser investigados.

Segundo o neurologista Pedro Levi, coordenador do Ambulatório de Cognição do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS), vinculado à HU Brasil, a memória de longo prazo é uma das mais protegidas pelo cérebro.

“Quem somos nós se não sabemos onde nascemos, quem são nossos pais, com quem convivemos, nossas dores e felicidades? Felizmente, essa memória de longo prazo é tão bem protegida no cérebro que mesmo a Doença de Alzheimer pode demorar anos para chegar a comprometê-la”, afirma.

O esquecimento não apaga uma história

A perda de memória mais associada ao Alzheimer é chamada, na neurologia, de amnésia anterógrada. Trata-se da dificuldade de registrar informações recentes. A pessoa esquece onde colocou um objeto, repete perguntas, deixa uma panela no fogo ou não se recorda de algo que acabou de acontecer.

“Em pessoas com a doença, essa memória recente falha, e tanto o paciente quanto aqueles ao redor já notam que algo está muito estranho”, explica Pedro.

A formação inicial dessas lembranças depende dos hipocampos, estruturas cerebrais responsáveis pela primeira consolidação das memórias. Essa capacidade é fundamental para que uma pessoa mantenha sua independência nas tarefas cotidianas — e costuma ser uma das primeiras funções comprometidas pelo Alzheimer.

As memórias biográficas e procedurais, porém, seguem outro caminho. São lembranças relacionadas à história pessoal, às habilidades motoras, aos hábitos e às atividades realizadas quase automaticamente. Elas ficam armazenadas em regiões cerebrais que tendem a resistir por mais tempo ao processo de neurodegeneração.

Isso significa que, embora o Alzheimer prejudique a capacidade de registrar acontecimentos recentes, planejar o futuro e processar novas informações, a biografia do paciente não desaparece imediatamente.

“Ainda que até a personalidade da pessoa possa mudar drasticamente em alguns casos, a história de vida, os valores arraigados e o impacto que essa pessoa deixou no mundo permanecem intactos na memória e no afeto de quem convive com ela”, diz o neurologista.

Para Pedro, há ainda uma dimensão humana que vai além do diagnóstico: “Olhando por um prisma filosófico, alguém só pode ser esquecido se as pessoas ao seu redor esquecerem dele”.

Pode não lembrar, mas ainda sente

Uma pessoa com Alzheimer pode não conseguir dizer o nome de um familiar, mas continuar reagindo com alegria, tranquilidade ou segurança diante dele. Isso acontece porque memória e emoção dependem de circuitos diferentes do cérebro.

Enquanto o reconhecimento de rostos e nomes exige a atuação de redes complexas ligadas à linguagem e à identificação, a memória afetiva está relacionada à amígdala e ao sistema límbico. Essas estruturas costumam permanecer preservadas por mais tempo.

“O indivíduo perde o acesso racional à identidade de alguém, mas retém os sentimentos relacionados àquela pessoa”, explica Pedro.

Por isso, manter o paciente próximo de elementos que fizeram parte de sua vida não é apenas uma demonstração de carinho. Fotografias, músicas, objetos, cheiros e ambientes conhecidos podem ajudar a reduzir a agitação, melhorar o humor e transmitir sensação de proteção.

“O cheiro de uma planta conhecida ou o som de uma música da juventude podem ser essenciais para controlar estados de agitação, facilitar o processo de adormecimento e manter positivo o estado de humor do paciente”, afirma.

Cuidado não pode virar infantilização

Um dos erros mais comuns das famílias, segundo o neurologista, é tratar o paciente como criança ou afastá-lo precocemente das decisões cotidianas. A superproteção pode acelerar a perda das habilidades que ainda estão preservadas, além de provocar frustração e isolamento.

Proibir tarefas que a pessoa ainda consegue realizar, ignorar suas tentativas de comunicação ou confrontá-la de forma agressiva diante de uma fala confusa também pode agravar o sofrimento.

A orientação é reconhecer as emoções, valorizar aquilo que o paciente ainda consegue fazer e preservar sua dignidade. A pessoa pode ter perdido parte da memória recente, mas continua sendo um adulto com história, escolhas e sentimentos.

Preservar a autonomia não significa ignorar os riscos. O caminho é adaptar o ambiente e supervisionar as atividades. Chaves do fogão, medicamentos e produtos tóxicos, por exemplo, devem ficar protegidos. Ao mesmo tempo, escolhas simples podem ser mantidas, como decidir entre duas roupas, escolher uma refeição ou definir o horário do banho.

O objetivo não é retirar completamente o controle da pessoa sobre a própria vida, mas permitir que ela continue fazendo o que consegue dentro de uma margem segura.

Quando o esquecimento vira alerta

Esquecer eventualmente um nome, uma palavra ou onde deixou um objeto pode fazer parte do envelhecimento. O sinal de alerta aparece quando essas falhas começam a prejudicar atividades do dia a dia.

Perder compromissos com frequência, deixar de pagar contas, não conseguir preparar uma refeição conhecida, apresentar dificuldade para voltar para casa ou repetir constantemente as mesmas perguntas são situações que merecem investigação médica.

Segundo Pedro, a neurologia dispõe atualmente de exames e métodos mais eficazes para identificar alterações cognitivas, inclusive em fases iniciais. A recomendação é que pessoas com mais de 50 anos procurem avaliação neurológica quando perceberem episódios recorrentes de esquecimento, mesmo que ainda não exista prejuízo evidente na rotina.

“Hoje temos ferramentas adequadas para chegar a conclusões melhores que antigamente, e isso pode mudar totalmente o quadro”, conclui.

O diagnóstico de Alzheimer muda a vida do paciente e de toda a família. Mas a doença não autoriza ninguém a apagar antecipadamente quem aquela pessoa é. Quando a memória falha, o afeto, a dignidade e o respeito precisam falar mais alto.