Da pele para a tela, tatuadora de Campo Grande expõe obras na Itália
Soltsz é a única brasileira em exposição de arte contemporânea em Turim

A artista e tatuadora Sol Ztt, de 34 anos, levou a pesquisa entre desenho e tatuagem à exposição internacional. Com quadros expostos na “Turin Underground”, na Itália, a campo-grandense é a única brasileira a ocupar a mostra. A programação reúne trabalhos de pintura, fotografia, escultura, ilustração e outras linguagens contemporâneas.
RESUMO
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A tatuadora e artista campo-grandense Soltsz é a única brasileira na exposição "Turin Underground", em Turim, na Itália, com obras que exploram a relação entre desenho, tatuagem e arte contemporânea. Radicada na Europa há anos, ela pesquisa imagens em trânsito entre diferentes superfícies e contextos. A mostra segue aberta até 27 de agosto de 2026, de quarta a sábado, das 16h às 19h, no Con/Temporary Spaces Santa Teresa.
Com temática aberta, a seleção exigia que as obras estabelecessem alguma relação com o universo underground, entendido como um espaço de produção independente, experimental e marcado por identidades artísticas próprias.
Sol Ztt participa com uma obra ligada à pesquisa que desenvolve entre o desenho, a tatuagem e a arte contemporânea. O trabalho mostra como uma mesma imagem pode circular por diferentes superfícies e contextos, incorporando novos sentidos ao longo desse percurso.
Na exposição, a artista apresenta justamente esse deslocamento da imagem. A proposta aborda as relações entre memória, transformação e mudança de suporte, acompanhando o que permanece e o que se modifica cada vez que uma criação deixa um espaço e passa a ocupar outro.
“Meu trabalho gira em torno dessa ideia de imagens em movimento, imagens que viajam: da pele para a tela, do papel para a pele, sempre mudando de contexto e adquirindo novos significados. Acredito que isso esteja diretamente ligado aos meus próprios deslocamentos.”
Ela saiu de Campo Grande para morar em Turim e, hoje, como tatuadora, vai constantemente para diferentes cidades da Europa espalhar o trabalho na pele de quem busca algo diferente e autoral.
“Sempre volto para minha terrinha, Campo Grande, duas vezes ao ano. De alguma forma, essa experiência de estar sempre em trânsito acaba sendo traduzida nas imagens que crio, que também passam a carregar essa ideia de viagem, transformação e encontro.”
Tatuadora há 11 anos, Sol Ztt começou a trabalhar com a técnica durante a graduação em Arquitetura e Urbanismo na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul).
O desenho, porém, está presente desde a infância. “Fui me reconhecendo em cada técnica que explorei, e essa expressão foi se construindo aos poucos. Nunca sentei para definir um estilo. O que faço hoje é resultado de um processo, e acredito que ele continue em constante transformação. Não vejo meu trabalho como algo fixo, mas como uma linguagem viva, que muda junto com as experiências que atravesso.”
O incentivo familiar também ocupa um lugar importante nessa trajetória. De acordo com a artista, o apoio dos pais deu a ela segurança para experimentar, cometer erros e buscar uma produção autoral sem a obrigação de seguir um caminho previamente definido.
“Meus pais sempre apoiaram minhas escolhas, e isso foi fundamental para que eu tivesse confiança em experimentar, errar e encontrar meu próprio caminho. Sou muito grata a eles por essa liberdade.”
Outro capítulo importante da formação artística de Sol Ztt foi a parceria com a artista e amiga Natacha IK. Durante oito anos, as duas mantiveram o estúdio Pele e Muro, em Campo Grande.
O espaço funcionou como um ambiente de criação e amadurecimento artístico. Foi durante essa convivência que Sol Ztt desenvolveu ideias, testou possibilidades e viveu experiências que influenciaram diretamente a artista que se tornou.
A participação na “Turin Underground” amplia agora esse percurso para além do Brasil. A obra, criada a partir de experiências construídas em Campo Grande, passa a ocupar um espaço internacional.
"Ocupar esses espaços como artista brasileira é, para mim, estar sempre chegando a um território novo. Encontro contextos com histórias e tradições muito consolidadas, mas levo comigo uma forma de criar que nasceu no Brasil e foi moldada pelas minhas vivências. Sinto que a arte brasileira tem uma relação muito própria com a participação, com o corpo e com a experiência. Penso muito no legado de Lygia Clark e Hélio Oiticica, que abriram caminhos para uma arte que convida as pessoas a fazerem parte da obra, e percebo como essa maneira de pensar ainda é muito presente em nós".
Ela pontua que a natureza brasileira influencia profundamente a produção. "O Brasil é um lugar onde a vida parece brotar por todos os lados: plantas, animais, cores e formas convivem de maneira intensa. Essa abundância acaba atravessando nossa maneira de criar".
A artista acredita que essa criação é o que chama de arte orgânica, "viva, que cresce para além dos limites e está sempre em transformação. De alguma forma, sinto que carrego tudo isso comigo. Mesmo trabalhando em diferentes cidades da Europa, continuo criando a partir desse olhar brasileiro, que entende a arte como algo vivo, em movimento e em constante relação com as pessoas".
A exposição segue aberta até 27 de agosto de 2026, de quarta-feira a sábado, das 16h às 19h, no Con/Temporary Spaces Santa Teresa, na Via Santa Teresa, 10/d, em Turim.
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