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Campo Grande, Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018

15/07/2018 07:10

Após 20 anos dentro de funerária, Fabíola olha a morte com naturalidade

Willian Leite
Urnas que um dia foram lugar de descanso no intervalo de trabalho. (Foto: Willian Leite)Urnas que um dia foram lugar de descanso no intervalo de trabalho. (Foto: Willian Leite)

Dos 50 anos vida de Fabíola de Oliveira Alencar, 20 são dedicados a "morte". Quem a vê sorridente e toda animada nem imagina que sua história, diariamente, é narrada dentro de uma funerária de Campo Grande onde trabalha.

A profissão como agente começou em 1998, quando Fabíola se separou e precisava sustentar a família. "Eu tinha pavor até de ir em velório, mas como não tive saída a única solução foi encarar o medo e trabalhar de agente funerário", conta.

Falar de morte para muitos é sinônimo de tristeza, mas para Fabíola já faz parte de seu cotidiano. "Quando comecei no ramo foram quatro anos lidando com cadáveres, recolhendo corpos, fazendo plantão de IML, dando banho em gente morta, preparando corpos para funerais a até maquiando mortos", explica.

veículo que por muito tempo foi instrumento de trabalho de Fabíola. (Foto: Willian Leite)veículo que por muito tempo foi instrumento de trabalho de Fabíola. (Foto: Willian Leite)

Anos depois, Fabíola passou a fazer apenas retoques finais nos corpos. "Eu pintava unhas, cabelos, vestia e colocava na urna para o funeral, isso fiz por cerca de dois anos", relata.

Entre todas as situações que viveu, há uma que marcou sua trajetória profissional. "Na hora de recolher o corpo de um senhor idoso no velório, na residência da família, o neto mais novo dele, uma criança de 3 anos achou que o avô estava dormindo. Quando estávamos fechando o caixão ele chegou na sala, bateu na urna e disse: vovô, vovô, levanta, está na hora de jogar bola", conta. fabíola diz que  menino estava com a bola nas mãos, aquilo lhe cortou o coração e não teve como conter as lágrimas.

Na lembrança outra situação a deixou mais resistente à morte, quando um cliente que veio pagar a mensalidade e faleceu no mesmo dia. "Ele que já era nosso conhecido, pagou e quando foi por volta das 12 horas, o telefone tocou pedindo auxílio de nossa equipe para recolher o corpo que havia enfartado".

A partir de situações como essas que ela mudou sua maneira de pensar. Hoje tem até uma filosofia diferente de vida. "Meu lema agora é fazer tudo que tenho direito, não deixo nada para depois,  porque amanhã não tenho certeza de nada", enfatiza.

Após tantas emoções, até marido ela conseguiu na funerária. "Atendi um cliente que tinha perdido o pai, depois acabamos ficando amigos e daí surgiu um relacionamento e ficamos juntos por quatro anos".

Há cinco anos, quando seu pai faleceu, foi ela que lidou com maior naturalidade. "O que me deixou em paz foi ter vivido tantas situações. Vi tantas famílias sofrendo e quando foi meu pai o sentimento de perda foi mais ameno".

Fabíola fala muito em preconceito. "As pessoas nos tratam até com falta de respeito, mas nosso trabalho é digno como o de qualquer outro profissional". Ela cursou Administração e em sala de aula, tinha um aluno que até mudava de lugar ao saber que ela era agente funerária.

Hoje, no prédio onde funciona a empresa que Fabíola trabalha ela fica à vontade em todos os setores. "Me acostumei com todo esse processo, mas não quero adquirir o produto que trabalho tão cedo,, embora confesso que trabalho com satisfação", finaliza.

sala onde os cadáveres são arrumados. (Foto: Willian Leite)sala onde os cadáveres são arrumados. (Foto: Willian Leite)


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