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Comportamento

Após oração de despedida, Inácio nasceu em casa rodeado de amor

Parto domiciliar planejado foi escolha de Ângela e Vitor antes da pandemia, e Inácio nasceu em casa, após 25h de trabalho de parto

Por Paula Maciulevicius Brasil | 03/07/2020 08:00
Angela, Vitor e o filho Inácio nos braços. Sorriso de quem pariu em casa, como sonhava. (Foto: Laís Camargo)
Angela, Vitor e o filho Inácio nos braços. Sorriso de quem pariu em casa, como sonhava. (Foto: Laís Camargo)

Os atores Angela Montealvão e Vitor Samudio protagonizaram no último domingo (28), o mais belo espetáculo da vida: o nascimento de Inácio, em casa, às 22h41, depois de mais ou menos 25h de trabalho de parto. O "peixinho" que virou menino aqui do lado de fora chegou com 53cm, pesando 3,200kg, depois de exatas 39 semanas de gestação.

O Lado B abre espaço para a mãe de Inácio. Isso porque acompanhamos a saga do casal desde o casamento, quando Vitor levou daqui o vestido de noiva para se casar com Angela no maior deserto de sal do mundo, o Salar De Uyuni, na Bolívia, em 2016.

O nascimento foi cheio de coincidências e detalhes para a família colecionar. O parto domiciliar planejado foi escolha desde o início da gravidez, muito antes do coronavírus chegar à Capital.

Inácio, Angela e Vitor foram assistidos pela parteira da tradição Carol Figueiró e toda equipe. "Uma coisa é o parto normal, outra coisa é o parto tradicional, na tradição, que envolve muito mais além das vias fisiológicas do parto vaginal, puxa muito a questão da emoção, da espiritualidade, e toda a preparação para esse grande momento passa pelo cuidado não só meu enquanto gestante, mas de toda a família", fala a mãe.

Abaixo, o relato narrado por Angela e escrito, com muita honra, pelo Lado B:

Contrações começaram no sábado (27), assim que escureceu e a lua apareceu, e foram ritmando durante todo o domingo (28). (Foto: Laís Camargo)
Contrações começaram no sábado (27), assim que escureceu e a lua apareceu, e foram ritmando durante todo o domingo (28). (Foto: Laís Camargo)

"Sábado foi uma dia que instintivamente e espiritualmente, a gente estava muito mais manhosinho. Eu e o Vitor, acordamos um pouquinho mais tarde, ficamos curtindo a nossa cama por mais tempo, tomamos café da manhã na cama, ficamos naquela rotina gostosa de casal. Passamos um dia muito agradável, cheio de dengo e sem nenhum sinal, nenhuma cólica, nenhuma dor, ficamos assim por puro e simplesmente instinto. 

Quando começou a escurecer e a lua apareceu, era mudança de lua, da Nova para a Crescente, comecei a sentir alguns pródromos, mas com carinho e eles passaram a ter durações maiores e a vir com uma leve dorzinha. Foi aí que comentei: 'talvez, talvez esteja se aproximando', o Vitor ficou assanhadíssimo: 'mas para quando? Hoje?' Eu só respondi que poderia ser um sinal para agora ou ao longo das próximas semanas. 

As contrações começaram a ritmar e eu percebi que estavam indo e voltando com intervalo regular, mas ainda estava sem marcar nada ainda. Comecei a perceber o aumento da secreção vaginal, que depois fui descobrir que era o tampão mucoso, mas não associei de cara, porque não tinha sangue. Foi só um aumento, como se fosse a lubrificação. 

Fiquei nessa desconfiança intuitiva e comecei a cronometrar às 21h só para ver como estavam. A gente estava cozinhando aqui em casa, eu e o Vitor juntos fizemos uma massa deliciosa, um rondelli recheado com molho branco. Enquanto ele recheava o rondelli, eu fazia o molho e neste tempo ia anotando os minutos das contrações que estavam exatamente a cada sete minutos e ficando regulares. Mas nem falei nada para ele, esperei as cinco primeiras em silêncio, depois comecei, e já ficamos animados. Estávamos entrando em trabalho de parto. 

Ficamos curtindo, jantamos e pensamos: 'vamos avisar a equipe?' A gente decidiu ficar mais um tempinho, e por mensagem avisamos os profissionais envolvidos que foram acompanhando por mensagem, e assim ficamos curtindo essa primeira anunciação do nosso filho juntos, só nós dois.

Contrações iam e vinham, e mãe contava com suporte do pai. (Foto: Laís Camargo)
Contrações iam e vinham, e mãe contava com suporte do pai. (Foto: Laís Camargo)

As horas foram passando e as contrações se mantiveram no mesmo ritmo e começaram a ficar mais intensas e mais próximas. Aproximadamente 2h da manhã, nós pedimos e a doula Laís com a doula Letícia vieram para casa nos acompanhar e dar todo o apoio. 

Neste tempo eu já tinha parado de monitorar as contrações para tentar sair do 'cabeção', que é inclusive uma das principais orientações da equipe de parto. Não sei dizer certinho as horas, só sei que as contrações foram apertando o ritmo, e nós passamos a madrugada juntos, mas de uma forma muito tranquila ainda, muito felizes.

Pela manhã, a parteira chegou e realizou o toque que constatou 2 a 3cm de dilatação. Estávamos no iniciozinho. Passamos o dia com vários momentos, e o trabalho de parto, ele realmente te tira do mundo concreto. Você vai, de fato, para uma partolândia, ela existe e quando eu falo que a equipe foi fundamental, é porque eu estava entregue e confiando plenamente na equipe tanto pela minha saúde quanto pela saúde do bebê que foi monitorado o tempo todo. Inácio e sua cavalaria cardíaca ia a todo vapor. Os batimentos não baixavam de 140 por minuto, mesmo durante as contrações, que existe o risco do bebê ter queda, ele subia os batimentos, estava no ritmo da "Capivara Blasé", o bloco de Carnaval dos pais. 

Durante esse período, tivemos momentos de maior cansaço, quando elas me orientavam a dormir. Tive momentos de dormir, de comer, tomei banho e tive várias atividades durante o trabalho de parto, mas os momentos de sono foram fundamentais. Porque eu dormia quando estava ficando cansada, é sobretudo, um cansaço psicológico, porque o físico mesmo, é uma coisa surreal, é divina. Não tem explicação. 

Nestes momentos em que eu estava mais abaladinha mesmo, que fui ficando, digamos mais temerosa da dor 'ai, vai doer', entrando nesse ciclo de cultivar a dor, muito lamentosa, era quando elas me orientavam e já me direcionavam a tirar um cochilo, a tomar um banho morno e a relaxar. Estes momentos eram revigorantes. 

Posso descrever em um resumo que foi uma oscilação entre momentos em que eu quase entrava numa lamentação de dor, de cansaço mesmo, mas vinham esses cochilos e nestes intervalos, eu me reiniciava com uma força descomunal, eu me sentia uma loba de fato, uma índia pé na terra, com uma força tremenda, me sentindo poderosíssima, aí durava mais um tempo assim, íamos mais algumas horas e já vinha o desgaste desse ciclo que se renovou e eu renasci várias vezes durante esse trabalho de parto.

Cada vez vinha uma força diferente, ora 'isso mesmo, eu sou mulher' pelo viés ideológico feminista, ora uma coisa inexplicável, uma força indígena, uma vontade de cantar músicas indígenas, de fazer danças de uma forma mais ancestral, ora uma retomada mais animal, mais leoa, mais felina. Enfim, tive várias forças para ajudar. 

Nesse processo todo de força, de poder, o Vitor estava o tempo todo comigo, do meu lado. E foi incrível. Eu não pari sozinha, nós parimos, foi uma coisa do casal mesmo. Uma força de pai, de companheiro presente ali, me dengando quando era conveniente e me empoderando e me desafiando nos momentos em que cansei.

Eu não cheguei a pensar que não seria capaz, mas cheguei perto da desconfiança. 

Eu tinha vários receios do Vitor, apesar daquele tamanho todo, ele é homem e não lida como mulher que todo mês entra em contato com sangue, com menstruação, e passa a ter essa possibilidade de desenvolver uma relação com nossos fluidos. Eu tinha muito receio de como ele ficaria, como reagiria e ele se superou. 

Quando chegou à noite, depois de uma dessas quedas, porque o trabalho de parto foi cheio de altos e baixos, eu estava muito cansada quando entrei na água. As contrações não estavam mais com intervalos, elas vinham emendando uma na outra e eu não tinha tempo de reiniciar. Porque no intervalo, você reinicia, mas já vinha uma atrás da outra, e eu não sei por quanto tempo estava assim, porque eu já estava bem desgastada e me sentindo frágil, o que não é o caso, porque parto não é fragilidade, parto é poder.

No banho, nesse último banho, veio essa força indígena que foi muito linda e muito forte mesmo. Nós começamos a cantar músicas indígenas, comecei a dançar no chuveiro e essa coisa de bater os pés, de sair de mim, foi muito forte. Dali eu já estava em um estado sagrado, num estado lindo, maravilhoso. Depois disso fizemos o toque, o último, porque isso também é muito respeitoso, não fica tocando toda hora, fizemos para acompanhar e estava evoluindo, e foi aí que a Carol, a parteira, disse: 'Você está 100% dilatada, só deixar vir'. 

Lembro que neste momento eu estava deitada sobre a nossa cama, fechei os olhos, e com o Vitor ali, na cabeceira, me abraçando, fiz uma espécie de oração intuitiva para o meu filho Inácio. Me despedi dele na barriga enquanto peixinho e falei em voz alta. Foi um momento muito lindo, que todo mundo parou e fechou os olhos. Me despedi dele na barriga e acho que aquele momento eu me preparei, de fato, para deixar de ser grávida e passar a ser mãe. Falei que ele poderia vir como menino, que estávamos todos prontos para recebê-lo.

Passado esse momento, elas me perguntaram se eu queria descansar, dar um cochilo, e eu falei que não. Eu estava pronta para continuar e o tempo todo deste processo, de trabalho de parto, tivemos músicas maravilhosas. Maria Bethânia foi 80% do tempo, mas neste momento, pedi para retomar a playlist que tem uma música que se chama Quatro cântaros sagrados, que são quatro mantras cantados por mulheres, e elas se sobrepõem e se intercalam. 

Dentre elas, tem o ponto de Oxum, e bem no meio, quando essa música foi o ponto de destaque, eu me levantei e fiquei do lado da nossa cama, de frente para o espelho e comecei a cantar e dançar. Quando o canto de Oxum se sobrepôs, a bolsa, como uma cachoeira, estourou com muita força 'plaft', e foi lindamente uma coisa muito, muito, muito bonita, comigo dançando e embalada pela força das águas, literalmente. 

Daí para o parto, foi um pulo. Continuei dançando e ficamos felicíssimos com essa cachoeira. Continuei dançando e entre na fase do expulsivo. Me agachei na beirada da cama e foram só quatro forças. As duas primeiras na lateral da cama, e na terceira, subi em cima da cama, com o Vitor me segurando e eu apoiada no puff. 

Inácio nasceu no domingo (28), às 22h41, com 53cm e 3.200kg. (Foto: Laís Camargo)
Inácio nasceu no domingo (28), às 22h41, com 53cm e 3.200kg. (Foto: Laís Camargo)

Foram mais duas forças para o nosso neném coroar. Saiu primeiro a cabecinha, e ele ainda dentro de mim com metade da cabeça para fora já expeliu todos os líquidos, já chorou, já mostrou a sua força e deu seu grito de força, de vida, respirou o ar pela primeira vez. 

Estava tocando aquela música da Ângela Ro Ro 'amor, meu grande amor, não chegue na hora marcada'. Ele nasceu nessa música. E dali, eu só me virei na cama, ele já veio para o meu colo e já tivemos nosso encontro no ar. Ele veio para o meu peito, já mamou, já fez toda a força de sucção. 

O Vitor estava abraçado comigo, e eu não acreditava. Pouquíssimo tempo depois, a placenta nasceu também e deixamos ele conectado por 1h30. Ficamos ali, juntinhos, nos conhecendo e nos aquecendo. E foi lindo, lindo, lindo, foi mágico. E foi assim que Inácio, o peixinho, virou menino".

Parteira Carol; avó de Inácio, dona Eva; Angela e o bebê; o pai Vitor e as doulas Letícia e Laís.
Parteira Carol; avó de Inácio, dona Eva; Angela e o bebê; o pai Vitor e as doulas Letícia e Laís.