Até que a morte chegue, o quanto de vida perdemos para a homofobia?
Nove anos após a estreia, peça Tom na Fazenda chegou a Campo Grande propondo reflexões profundas
Nove anos depois de estrear e rodar o Brasil, a peça Tom na Fazenda chegou a Campo Grande na noite desta quarta-feira (1º) e fez uma plateia lotada sair do teatro com diversas reflexões e questionamentos. Até que o fim da vida chegue, quanto de vida se perde por causa da homofobia?
O espetáculo, inspirado no texto do dramaturgo canadense Michel Marc Bouchard, conduz o espectador por uma história de silêncio e afeto negado. Em duas horas, os atores levam o público a um caminho que começa com a morte do companheiro de Tom e com um encontro desconfortável entre mundos que nunca se cruzaram.
O personagem principal viaja até uma fazenda para o velório do namorado, morto em um acidente de moto sem nunca ter falado abertamente sobre a homossexualidade com a família. No espaço isolado, ele passa dias convivendo com a mãe e o irmão do parceiro, que nunca participaram do relacionamento em que ele esteve até morrer.
A partir daí, a peça mostra o que acontece quando a verdade precisa ser escondida até depois da morte. Protagonizada pelo ator Armando Babaioff, que comemorou o aniversário de 45 anos em Campo Grande, a produção trata justamente sobre a dificuldade de falar abertamente sobre a sexualidade, tema que ainda hoje é tão presente dentro das famílias.
Usando drama, episódios de humor e acidez, Tom na Fazenda usa a família fictícia para falar de uma realidade que faz parte de tantas outras.
Quantas histórias deixam de existir por medo? Quantos encontros são adiados indefinidamente? Quantas versões de alguém são escondidas dentro de casa?
Em muitas famílias brasileiras, pessoas LGBTQIA+ ainda preferem ocultar uma parte de si que é inerente à própria existência. Não por escolha, mas por sobrevivência emocional. E, nesse processo, experiências inteiras deixam de ser vividas.
O que pais, mães, irmãos e companheiros poderiam compartilhar se a sexualidade não fosse tratada como tabu? Quantos abraços são evitados? Quantas conversas nunca acontecem?
Tom na Fazenda escancara o custo do silêncio. E se no palco o silêncio já dói, no dia a dia a realidade de muitas pessoas LGBTQIA+ é ainda mais dura, e muitas vezes, começa dentro de casa.
No Brasil, não é raro que jovens sejam expulsos ou “convidados a sair” ao revelar a própria sexualidade. Outros até permanecem no mesmo teto, mas vivem sob pressão ou rejeição constante.
Em Mato Grosso do Sul, os dados ajudam a dimensionar esse cenário. Segundo dados do Disque 100, o Estado ficou na 12ª posição no ranking nacional de denúncias por LGBTfobia em 2024. No mesmo período, foram contabilizadas 1.683 violações de direitos contra pessoas LGBTQIA+, incluindo casos de violência física, psicológica e moral.
A peça terá uma última sessão nesta quinta-feira (2), às 19h30, no Teatro Glauce Richa.
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