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Campo Grande, Quarta-feira, 17 de Julho de 2019

20/06/2019 08:31

Brenda renasceu bem mais forte depois de acidente que matou mãe e padrasto

Jovem nunca tinha falado sobre o fato até ser personagem projeto de cinema a transformar em protagonista

Danielle Valentim
Brenda e o irmão Pedro Vinicius. (Foto: Danielle Valentim)Brenda e o irmão Pedro Vinicius. (Foto: Danielle Valentim)

Lado esquerdo paralisado, fala pausada, mas um lindo sorrido no rosto. Brenda Gimenez Santana, de 19 anos, é sobrevivente de um crime de trânsito que matou sua mãe Eliane dos Santos Gimenez e padrasto Cleberson Alves Ferreira, no dia 7 de setembro de 2017. Calada por dois anos, a jovem tocou no assunto pela primeira vez, para ser protagonista de “Uma Curva na História”. 

Chegada da tecnologia à periferia só traz resultado bom. No Bairro Nova Lima, por exemplo, alunos da Escola Estadual Lino Villachá ganharam prêmios nacionais no projeto Cineastas 360, idealizado em parceria com o Facebook e a ONG Recode. A ação capacita alunos e educadores de escolas públicas de todo o país a usarem a tecnologia de vídeo 360 para produzir filmes que retratem questões relevantes de suas comunidades.

Ao Lado B, os participantes afirmaram que até já tinham ouvido falar em realidade virtual, mas todo o processo de filmagem e edição foi novidade. Tudo foi organizado, gravado e editado em dez semanas.

Brenda é uma jovem muito sorridente. (Foto: Danielle Valentim)Brenda é uma jovem muito sorridente. (Foto: Danielle Valentim)

O depoimento somado ao trabalho em grupo de colegas de escola surpreendeu a comunidade e foi premiado em Brasília.

No grupo formado para falar de acessibilidade, a busca por um tema de impacto na comunidade, rapidamente, apontou para a história de Brenda, antes desconhecida até pelos professores.

O documentário inicia com encenação do dia do acidente. Brenda é uma das personagens. Em seguida uma batida e barulho de sirenes. A jovem surge na rotatória onde, por irresponsabilidade de um motorista, sua vida nunca mais seria a mesma.

Matias Marques da Silva, 49 anos, dirigia sob efeito de 0,61 miligramas de álcool por litro de ar expelido dos pulmões, quando causou o acidente. Além de dirigir alcoolizado, o condutor do Fiat Strada teria invadido a pista contrária ao tentar fazer ultrapassagem em local proibido e, atualmente, aguarda o julgamento em liberdade.

Foram 38 dias em coma, três meses no hospital e mais um período na cadeira de rodas. Brenda sofre traumatismo craniano, um AVC e diversas cirurgias, entre elas na bacia e fêmur. Desde, então, a recuperação avança, mas a jovem depende de ajuda para andar, se vestir e estudar. Uma professora auxiliar acompanha as aulas.

“Só tive apoio do meu irmão, pai e na época da minha madrasta. As pessoas só ficam do seu lado quando você tem algo a oferecer. Não mexo a mão esquerda e perdi o equilíbrio das pernas. Não faço coisas que antes fazia, como jogar bola. Aos poucos me recupero, mas agradeço pela oportunidade que minha mãe e meu padrasto não tiveram”, se resume a falar.

Pedro exibe o equipamento. (Foto: Danielle Valentim)Pedro exibe o equipamento. (Foto: Danielle Valentim)

Faço mais amigos - O irmão Pedro Vinícius, de 16 anos, não estava no acidente mais sofreu da mesma forma. “Eu não fui no dia porque fiquei jogando bola e minha tia foi no meu lugar. Me sentia de braços amarrados sem poder tirar a Brenda de lá [hospital]. Poder falar sobre o que aconteceu, me fez me soltar e hoje faço mais amigos. Foi uma forma de desabafo, nós nunca tínhamos contado para ninguém. Agora me sinto mais confiante, falei até no Congresso Nacional”, disse.

Pedro lembra que não foi nada fácil se adaptar à nova vida sem o apoio da mãe. “Nós morávamos com minha mãe e meu padrasto. Ir morar de repente com meu pai foi bem difícil. Mas fomos nos acertando. O trabalho ajudou até na minha casa. Eu sempre tive mais dificuldade em lidar com a história. Ver de fora e não poder fazer nada foi um sofrimento muito grande”, disse.

Os dois irmãos estão empolgados em continuar gravando e editando temas relevantes para a comunidade. Hoje mais grudados que nunca, Pedro e Brenda fazem tudo juntos e são gratos à ex-namorada do pai que ajudou muito no hospital. “Nem todo mundo ajuda e na época era só eu, Brenda, meu pai e uma namorada que ele tinha. Devemos muito a ela, que dormiu muitas vezes no hospital”, finaliza Pedro.

Com tema acessibilidade, o grupo também contou com apoio do aluno Carlos Magno, que é surdo. Ao seu lado, a professora Marilene de Lima Nunes Severino, intérprete de Libras deu todo o apoio. Marilene também aparece durante todo o documentário.

“Os alunos tiveram outro olhar para a acessibilidade até mesmo a consciência com o trânsito, pontua Marilene. (Foto: Danielle Valentim)“Os alunos tiveram outro olhar para a acessibilidade até mesmo a consciência com o trânsito", pontua Marilene. (Foto: Danielle Valentim)
Intérprete Marilene e o aluno Carlos Magno. (Foto: Arquivo Pessoal)Intérprete Marilene e o aluno Carlos Magno. (Foto: Arquivo Pessoal)

“Os alunos tiveram outro olhar para a acessibilidade até mesmo a consciência com o trânsito. Os alunos também não conheciam a história da Brenda. Nem eu sabia e antes das gravações nós já sentimos o impacto de como ficaria”, pontua Marilene.

“Nós fomos numa formação no Rio de Janeiro onde participaram representantes de 5 regiões. Aprendemos a usar os aparelhos para repassar aos alunos. A escola recebeu os aparelhos para o desenvolvimento do projeto. Eu fui muito desafiada, afinal só tinha ouvido falar da realidade virtual”, completou a professora Roze Maclaine Paiva, coordenadora do projeto na escola.

Uma das aspirantes a cineasta, a adolescente Lauanda de 15 anos pontua o aprendizado que foi trabalhar com Brenda, que se mostrou forte durante toda a produção do documentário. “Deixar reviver esses momentos não é para qualquer um. Participar das filmagens também foi muito emocionante, principalmente na chegada à rotatória. Quando vi o trabalho pronto também chorei muito” disse.

Mais unidos que nunca. (Foto: Danielle Valentim)Mais unidos que nunca. (Foto: Danielle Valentim)

Os produtores de “Uma Curva na Estrada” foram os estudantes Carlos Magno, Lauanda Teixeira e Pedro Vinícius dos Santos.

O documentário "Construindo a liberdade" também garantiu o primeiro lugar na competição. O filme conta a história de presos que buscam a ressocialização reformando escolas e universidades. A obra foi produzida pelos alunos Ryan Soares Ferreira, Lucas Santos Félix e Guilherme Augusto de Jesus Gomes.

Confira abaixo galeria de fotos da produção e visita dos alunos à Brasília.

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