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Comportamento

Carteiro acompanha vida e morte nos Correios com orgulho de 33 anos de serviço

Por Bruno Chaves | 30/11/2013 12:14
 Nivaldo Pereira da Silva diz que acompanhou toda a evolução de entregas em Campo Grande. (Fotos: Cleber Gellio)
Nivaldo Pereira da Silva diz que acompanhou toda a evolução de entregas em Campo Grande. (Fotos: Cleber Gellio)

Os quilômetros percorridos em 33 anos de profissão dariam para rodar o Brasil. Mas, ao invés de viajar por todos os cantos do País em qualquer outro tipo de ocupação, o carteiro Nivaldo Pereira da Silva preferiu fixar raízes e dedicar mais da metade da vida para aproximar as pessoas em Campo Grande, cidade que escolheu para chamar de lar.

Funcionário dos Correios desde abril de 1980, aos 60 anos Nivaldo afirma que conhece a Capital sul-mato-grossense como quem sabe da própria vida e, ao longo de sua história profissional, pode acompanhar de perto a evolução do município e também a forma de se entregar cartas.

“As condições de trabalho melhoraram com o desenvolvimento da cidade. As ruas foram asfaltadas, as numerações das casas corrigidas... Já tive que colocar a bicicleta nas costas em ruas cheias de barro para poder entregar as cartas das pessoas”, lembra, aos risos, dizendo que hoje “tudo está lindo”.

Como carteiro, Nivaldo passou por vários setores dentro da empresa e pode acompanhar todos os tipos de trabalho. Ele entregou correspondências a pé, de bicicleta e de carro, função motorizada que ocupa há cerca de 20 anos, na modalidade Sedex.

O carteiro ainda conta que até a forma de organizar as entregas de correspondências mudou. Com o passar dos anos, o organograma, contendo as encomendas, nomes e endereços dos destinatários, que era “montado a mão”, passou a ser informatizado com a “Lista de Objetos Entregues ao Carteiro”. “Hoje, já sai tudo prontinho”, comenta.

A evolução e o progresso melhoraram as condições de trabalho do carteiro. “Hoje estou no céu”, garante. Mas, para ele, existem coisas que continuam iguais. A batalha com os cachorros e as amizades com os clientes são duas delas.

Nivaldo aceita o fato de os cães se tornarem pesadelo de muitos carteiros, mas afirma que seu passado não foi escrito por esse receio. “Já tive alguns contratempos. Tinha um cachorro que não podia ouvir o barulho do motor do carro que vinha na grade se apresentar. Uma vez fui atacado na mão, mas não temi por isso”, lembra.

Criando laços - Já sobre as amizades, Nivaldo avalia como as maiores conquistas. “Em geral, as pessoas sempre tratam bem os carteiros. Já vi pesquisas que apontavam a gente como profissão mais confiável junto com os bombeiros. Acho que por isso criei tanta amizade nesses 33 anos de trabalho.”

Contato direto com as pessoas é o que a profissão tem de melhor, diz o carteiro.
Contato direto com as pessoas é o que a profissão tem de melhor, diz o carteiro.

De breves paradas para tomar um copo d'água ou de café, ou mesmo comer um pedaço de bolo, o carteiro fez inúmeros laços de amizades. “São pessoas que fazem questão de oferecer alguma coisa e ficam felizes por isso”, diz.

Uma desses amigos surgiu há cerca de dois anos. A fisioterapeuta Renata Beatriz Prieto, 32, recebe semanalmente encomendas via Sedex, por isso o contato é frequente. “Ele tem toda importância no meu trabalho. Fico ansiosa esperando a hora dele chegar com meus produtos”, diz, lembrando que é revendedora de remédios naturais que vêm do México.

A confiança no trabalho e parceria são tamanhas que Renata conseguiu até o número do celular de Nivaldo. “Para acompanhar as entregas das caixas, até seis por vez”, explica a mulher. “Uma vez liguei para o Nivaldo e descobri que ele estava de férias em Aquidauana. O jeito foi esperar o mês seguinte para acompanhar as entregas”, brinca.

Tristeza - Mas como todas as histórias de pessoas comuns, que trabalham e dão o sangue pela atividade que exercem, Nivaldo tem momentos tristes que marcaram sua vida profissional. A principal delas ocorreu há uma década, quando um dos filhos gêmeos de 22 anos perdeu a vida trabalhando em uma agência dos Correios.

Nivaldo mostra a foto do filho, que também trabalhava nos Correios.
Nivaldo mostra a foto do filho, que também trabalhava nos Correios.

"Foi uma fatalidade. Ele era mirim, um dos primeiros que trabalhou nos Correios de Campo Grande. Um dia aconteceu um assalto à agência. Atiraram na cabeça do meu menino. Ele não resistiu e morreu”, relembra. Na época, os dois irmãos gêmeos trabalhavam juntos.

Nivaldo estava de expediente no dia do assassinato, foi chamado pela chefia do setor e recebeu todo apoio que a empresa podia dar, agradece. “Também por isso tenho orgulho do meu trabalho. Tenho orgulho de ser carteiro”, bate no peito.

A vida de Nivaldo se confunde com a vida da empresa. Mesmo depois de aposentado, ele resolveu continuar trabalhando. “Por opção própria”, explica. Mas como tudo na vida tem uma linha de partida e de chegada, ele acredita que no próximo ano chegará a hora de parar.

“Vou dar o posto para um carteiro mais novo, que poderá ter todas as a alegrias e conquistas que eu tive”, acredita.

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