ACOMPANHE-NOS    
MAIO, SÁBADO  30    CAMPO GRANDE 20º

Comportamento

Com caso severo de coronavírus, Larissa relata piores dias de vida

"Sou classificada como caso severo. Estou no momento crucial: ou meu corpo começa a combater ou eu vou piorar e ficar internada"

Por Paula Maciulevicius Brasil | 03/04/2020 11:47
Larissa é fazendeira na Inglaterra, e tem 43 anos. (Foto: Arquivo Pessoal)
Larissa é fazendeira na Inglaterra, e tem 43 anos. (Foto: Arquivo Pessoal)

É agoniante ler o relato da campo-grandense Larissa Carolina Pereira Burgess, de 43 anos. Fazendeira, ela mora com o marido e o filho no em uma vila chamada Great Broughton, em North Yorkshire, na Inglaterra. Por morar em uma fazenda, num vilarejo de pouco mais de mil habitantes, acreditava estar mais protegida do coronavírus e, como nos noticiários os números de contaminados no Reino Unido estavam baixos em relação a outros países da Europa, ela acreditava que o risco de contrair o vírus era muito pequeno.

Ledo engano, a uma distância de cerca de 10 mil quilômetros e um fuso de horário de pelo menos cinco horas a mais, Larissa, filha do jornalista Nilson Pereira e de dona Sandra Mara de Oliveira, escreve para o Lado B como foram os últimos dias, logo depois de sair do hospital para ficar de repouso em casa.

"Dia 28 de março, sábado, eu acordei com dores no corpo e irritação na garganta. A sensação era, para te explicar, como se eu tivesse queimado com chá quente ao tentar engolir. 

Liguei para a linha do NHS, nosso sistema de saúde  e como eu tive contado com pessoas que testaram positivo eu estava dentro do risco. Então, eu dirigi para o hospital, lá fiz o teste, e voltei para casa.

No segundo dia, a dor pelo corpo já não era uma dorzinha, e sim como se eu tivesse sido atropelada. Até a roupa que encostava na pele doía... E muito, mas muito sono. Um cansaço que até para escrever ou olhar uma notícia se tornou difícil. Dormi o dia inteiro.

No terceiro dia, comecei a ter febre, não muito alta, média de 38ºC, mas o cansaço e as dores continuavam. 

Recebi o resultado falando que eu estava positivo para o COVID19 e que teria que me isolar por sete dias, e meu marido e filho, por 14h. 

Não tenho certeza quem transmitiu. Minha chefe mora metade em Londres, metade aqui. E os pais dela estão internados em estado grave. Eu mesma fui a Londres nove dias antes dos sintomas se manifestarem. Como Londres é enorme, e é onde se concentra o maior número de contaminados, fica difícil saber. 

Me arrependo de não ter usado a máscara e a luva todas as vezes. Sem contar que, nós brasileiros, temos o costume de dar beijos e abraços, o que não é o ideal, já que este é um vírus altamente contagioso. 

Na noite do terceiro dia, tudo começou a piorar. O vírus age bem rápido, e eu que já não tinha fome nenhuma e não sentia nem gosto nem cheiro, comecei a tossir. Era tosse em ondas. Você tosse sem parar, aí ela volta novamente. 

No quarto dia, tive febre o dia todo, dores de cabeça e ouvido, e dormi o tempo inteiro. À noite, a dor era tão grande que eu me encolhia como uma concha. Meu marido ligou para a ambulância que me passou remédios para dores e pediram para observar a minha respiração, além de me darem orientações sobre como controlar a febre.

No dia seguinte, acordei melhor. Consegui comer, pratiquei exercícios de respiração que meu pai havia me ensinado e, fiquei toda feliz, pois meu corpo estava reagindo. No entanto, à noite piorei muito. 

A febre chegou a 40,7ºC e cheguei a delirar. Tive que trocar a roupa de cama quatro vezes de tanto suor. Era frio de tremer ou calor infernal e antes, a tosse que estava seca, agora vinha com catarro e sangue. 

Quando eu tentava dormir, acordava com falta de ar. Meu marido ligou novamente para o hospital e eu fui internada. Não conseguia mexer o pescoço de tão inchado que estavam as glândulas linfáticas. A minha garganta praticamente fechou com inchaço e pus. Tentar engolir era a mesma sensação de estar engolindo vidro. 

Meu corpo parece que foi quebrado. Tinha dores nos rins, no tórax. No hospital, fizeram todos os exames, apresentei inflamação, infecção e meus rins e fígado não estão trabalhando como deveriam. Estou com pneumonia, mas meu oxigênio está estável, baixo, mas não a ponto de precisar de aparelhos. 

Como estamos com os hospitais super lotados, depois de tomar soro e antibióticos, só por precaução, porque na verdade é seu corpo que tem que combater o vírus, fui mandada para casa de repouso absoluto. 

Larissa com o marido Simon e o filho Andrew. (Foto: Arquivo Pessoal)
Larissa com o marido Simon e o filho Andrew. (Foto: Arquivo Pessoal)

Ainda estou em tendo que monitorar minha respiração, pois se piorar tenho que ser internada com urgência. Tudo acontece muito rápido. Muita gente tem poucos sintomas, mas 20% tem grave. E a realidade aqui, no momento, é que estamos tendo casos graves, não somente em quem tem outras condições que comprometem a saúde, mas em pessoas novas e saudáveis também. 

É como se estivesse em uma guerra. Tudo fechado, tudo parado. O vírus se espalha muito rápido.  

Tenho um filho de 9 anos, meu sogro está isolado totalmente já faz três semanas ninguém pode vê-lo, pois ele tem problema de coração.

Eu vou falar a mesma coisa que falei para o meu pai: vocês estão ainda na época quente, o que atrasa um pouco, difícil será no inverno. O Brasil é um país imenso, é difícil de se ter o controle. O brasileiro tem uma cultura muito amiga, gostamos de estar juntos, de abraçar, de beijar, e isso vai ter que parar.

Nenhum país do mundo tem estrutura suficiente para aguentar uma contaminação em massa. Os países de primeiro mundo, com sistemas de saúde bem avançados, não estão aguentando.

Sou classificada como caso severo. Estou no momento crucial, de agora em diante, ou meu corpo começa a combater ou eu vou piorar e terei que ficar internada. Normalmente  a recuperação em casa é de 14 dias até 21 dias. Mas no hospital, tem gente que já está há meses.

No Brasil fico muito preocupada com os meus pais. Aqui, meu filho e marido apresentam sintomas leves, mas aqui só estão testando as pessoas com casos sérios. Um ponto muito importante é que muitos jovens não estão levando a sério, acham que é somente mais uma gripe, o que está colocando vários deles aqui nos hospitais. Eles se recuperar, mas os idosos já não possuem a mesma força.

Eu tive dengue, gripe suína e tuberculose, e nada se compara com o que eu estou passando. Sem contar que você transmite antes de mostrar os sintomas, o que é super difícil de controlar. 

Se puder dizer que agradeço a todos que carinhosamente me enviaram mensagens, e correntes de orações, principalmente ao meu pai Nilson Pereira, fico grata.