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Comportamento

Em cima da ‘Negona’, John pedalou 7 mil km do Ceará a Campo Grande

Cicloviajante de 32 anos cruza o Brasil sobre duas rodas e já tem mais de 150 mil quilômetros de estrada

Por Clayton Neves | 02/10/2026 06:31

Partindo de Fortaleza (CE) no mês de junho, John Edesson, de 32 anos, pedalou mais de 7 mil quilômetros até chegar a Campo Grande em cima da Negona, apelido dado à bicicleta que o acompanha na estrada. A aventura já dura 4 meses e ainda não tem data certa para terminar.

Conhecido nas redes sociais como John sem Fronteiras, o cicloviajante compartilha as experiências com milhares de seguidores de diferentes partes do País. Nas viagens, ele transforma cada quilômetro em uma oportunidade de conhecer novos lugares e pessoas.

A paixão pelas viagens de bicicleta começou de maneira despretensiosa. Morador de Fortaleza, John pedalava cerca de 22 quilômetros por dia para ir e voltar do trabalho. “Depois comecei a participar de grupos de ciclismo, que organizavam passeios de fim de semana para conhecer cachoeiras, cidades vizinhas e outros pontos turísticos”, conta.

Em cima da ‘Negona’, John pedalou 7 mil km do Ceará a Campo Grande
Depois de passar por Campo Grande, cicloviajante pretende conhecer Bonito e seguir em direção ao MT. (Foto: Arquivo Pessoal

A curiosidade por explorar lugares cada vez mais distantes fez com que os passeios se transformassem em viagens. No começo, ele ainda conseguiu reunir alguns companheiros, mas, conforme as distâncias aumentavam, os grupos diminuíam.

"Eu pensei: vou planejar minhas viagens, nem que seja só. Se eu encontrar alguém na estrada para me acompanhar por dois ou três dias, tudo bem", detalha.

Foi em 2022 que ele decidiu se aventurar de vez pelas estradas brasileiras. Desde então, percorreu diferentes regiões do País e também cruzou fronteiras internacionais. Em 2022, explorou o Nordeste; no ano seguinte, seguiu pelo Sudeste. Já em 2024, conheceu o Centro-Oeste, a Bolívia e o Paraguai. Em 2025, foi a vez da região Sul, do Uruguai e da Argentina.

A aventura mais recente tinha como projeto inicial explorar o Norte do Brasil, mas, diante de problemas climáticos na região, John decidiu mudar os planos por segurança. Assim, em junho deste ano, deixou a casa dos pais, em Fortaleza, e iniciou uma nova jornada, que já passou por Natal, João Pessoa, Recife, Maceió, Aracaju, Salvador, Vitória, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Florianópolis, até chegar a Mato Grosso do Sul.

Com uma bicicleta carregada com cerca de 40 quilos de equipamentos e outros 10 quilos nas costas, John costuma pedalar entre 80 e 100 quilômetros por dia. “Eu não sigo um roteiro rígido. Tem dias que aproveito para descansar, conhecer melhor uma cidade ou fazer registros para as redes sociais”, pontua.

Na bagagem, ele leva roupas, produtos de higiene, ferramentas, itens de ciclismo e até doações recebidas pelo caminho. Também vende meias e alguns artigos para ajudar a custear a viagem.

Apesar de já ter enfrentado desafios em diferentes regiões, ele conta que, desde que saiu de Fortaleza, não teve grandes problemas com a bicicleta, nem mesmo com as condições climáticas adversas. “Um dos maiores desafios físicos foi encarar a Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina. As subidas são muito íngremes e, com a bicicleta carregada, o esforço foi bem grande”, destaca.

"Eu passo muitas horas, muitos dias sozinho na estrada. Então, não é todo dia que tenho comunicação. Às vezes, o cansaço físico também bate", relata.

Ao longo das viagens, John calcula já ter percorrido aproximadamente 150 mil quilômetros de bicicleta. Somente em uma das aventuras anteriores pelo Centro-Oeste e pelas fronteiras, foram cerca de 12 mil quilômetros em seis meses.

Em cima da ‘Negona’, John pedalou 7 mil km do Ceará a Campo Grande
Ciclista já percorreu mais de 7 mil quilômetros de Fortaleza até Campo Grande. (Foto: Arquivo Pessoal)

Se as pernas são responsáveis por colocar a bicicleta em movimento, a solidariedade de desconhecidos ajuda a manter a aventura de pé. Em cada cidade, John procura grupos de ciclismo para fazer contatos e encontrar um lugar seguro para passar a noite.

A estratégia é apresentar o próprio trabalho nas redes sociais, onde compartilha a rotina da viagem e mantém contato com familiares e pessoas que acompanham suas aventuras. Dessa forma, muitas vezes consegue hospedagem, alimentação e apoio de moradores e ciclistas locais.

Em Mato Grosso do Sul, ele já passou por cidades como Inocência, Três Lagoas e Águas Claras. Em viagens anteriores, conheceu São Gabriel do Oeste, Rio Verde de Mato Grosso, Coxim e Ponta Porã, onde chegou a ser abordado por policiais rodoviários federais que, além de conversar, ofereceram uma torta de limão.

 Em Dourados, também foi recebido por um atleta com deficiência, que o buscou durante o trajeto para acompanhá-lo até a cidade. Já em Coxim, encontrou apoio de uma associação de ciclismo.

Em Campo Grande, a acolhida também veio de uma família que o recebeu durante a passagem pela Capital. Segundo John, cada cidade tem suas particularidades e nem sempre é fácil encontrar pessoas dispostas a ajudar, mas ele procura encarar as situações com tranquilidade.

"Se alguém disser que não tem como me ajudar, tudo bem. Eu continuo sem reclamar de nada. Foi algo que busquei para minha vida aqui, no meio da cicloviagem. Independentemente se está ruim ou bom, para mim está bom do mesmo jeito", afirma.

Depois de alguns dias em Campo Grande, John pretende seguir para Bonito, onde quer conhecer as paisagens naturais que fazem parte dos atrativos turísticos de Mato Grosso do Sul. De lá, o plano é continuar em direção à Serra do Roncador, na região de Mato Grosso.

O destino final, porém, ainda pode mudar. Como a cicloviagem permite alterações de rota, ele considera a possibilidade de incluir outros lugares no percurso, como o Jalapão ou Brasília. A decisão dependerá do cansaço, das condições encontradas na estrada e da vontade de continuar explorando.

"Quando eu chegar à Serra do Roncador, pode ser que eu continue ou então vá para casa. Tudo depende do momento", finaliza.

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