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Campo Grande, Sábado, 22 de Setembro de 2018

10/05/2017 09:02

Flores do caderno da mãe que sempre lutou pela vida hoje colorem braços do filho

Thailla Torres
Sempre que abria o caderno da mãe, ela havia desenhado flores nas páginas. (Foto: Marina Pacheco)Sempre que abria o caderno da mãe, ela havia desenhado flores nas páginas. (Foto: Marina Pacheco)

No dia 6 de maio, Elizabeth Reis de Oliveira floresceu em outro mundo depois do último suspiro ao lado dos filhos. Lutou durante 10 anos contra um câncer que lhe castigou muito, mas nunca foi capaz de lhe tirar o sorriso. A mulher guerreira deixou para os filhos a lição: é sempre necessário lutar e, por isso, ela fazia questão de colorir os seus dias através das flores. O desenho que Elizabeth costumava fazer ganhou um significado importante na vida do filho Jhully Espíndola que decidiu tatuar no braço esquerdo os traços da mãe como forma de homenagem.

Os desenhos eram admirados por Jhully sempre que abria o caderno da mãe para lhe ensinar matemática. Na época em que ele começou o ensino médio, incentivou Elizabeth a voltar com os estudos que deixou para trás na adolescência por falta de condições.

"Na época ela teve filho e precisou trabalhar, então os estudados acabaram ficando de lado", conta o filho. Ele estudava de manhã e ela no período da noite, na EJA (Educação de Jovens e Adultos), quando Jhully chegava em casa, tirava um tempinho para ajudar a mãe nas tarefas de matemática.

Na fotografia tirada em abril, essa é Elizabeth entre os filhos Jhully e Dayane. (Foto: Arquivo Pessoal)Na fotografia tirada em abril, essa é Elizabeth entre os filhos Jhully e Dayane. (Foto: Arquivo Pessoal)

"Sempre que eu abria o caderno, ela havia desenhado flores nas bordas e eu sempre dizia: mamãe, assim você não aprende mesmo, só desenha”, lembra. Mas as palavras sempre foram em tom de brincadeira, já que tinha certeza da capacidade da mãe que sempre gostou de desafios.

"Queria que ela começasse e terminasse os estudos junto comigo. Mas eu sabia que ela se dava super bem em todas as matérias, só na matemática tinha um pouco de dificuldade", conta.

Por isso, em 2016 ele pediu para que ela desenhasse novamente as flores que sempre gostou e nesta semana, Jhully tatuou no braço como símbolo da perseverança da mãe. "Eu guardei esse desenho, assim como a conversa que tive com ela pelo Facebook. Era uma homenagem que sempre quis fazer e, meu sonho era que ela visse, mas sei que onde estiver, ela já sabia que eu faria".

Elizabeth não chegou a terminar o ensino médio por conta do diagnóstico de câncer que chegou há uma década. Os últimos anos foram de muita batalha para a mãe de Jhully.

Era um tumor de timo, câncer raríssimo e apesar de todo pavor quanto a doença, a família inteira desmoronou e Elizabeth sempre esteve muito confiante. Na época Jhully tinha só 14 anos e o diagnóstico veio no dia do seu aniversário. "Ela foi para UPA e depois foi internada no hospital, fiquei sabendo de tudo só a noite. Foi ali que ela passou pela primeira cirurgia", recorda.

Desenho das flores foi eternizado no braço de Jhully. (Foto: Marina Pacheco)Desenho das flores foi eternizado no braço de Jhully. (Foto: Marina Pacheco)

Fiquei sabendo só a noite que ela tinha câncer, passei um mês na casa dela. Na primeira vez foi um mês, ela tinha feito cirurgia, da segunda vez demorou cinco anos para acontecer.

Em seguida veio a segunda cirurgia, demorou cerca de 12 horas, mas 90% do tumor foi retirado e ela poderia seguir com sua vida, apenas com exames a cada seis meses para acompanhamento.

Mas em 2012, Elizabeth teve um princípio de infarto e foi internada com dores, onde fizeram um cateterismo. Sem veio entupida nem pressão alta, não havia motivos para ter um infarto, mas continuava com dores nas costas, até que novos exames mostraram que o tumor havia voltado e uma nova operação foi marcada para a retirada do pulmão esquerdo.

Foram 14 horas de cirurgia, a terceira. De lá, Elizabeth saiu direto para UTI, onde ficou quatro dias em coma. "O câncer era raro e castigou muito ela. Mas apesar de tudo ela continuava batalhando. Eu e minha irmã sempre estivemos ao lado dela. Apesar da doença ela nunca deixou de trabalhar. Era empolgada, divertida e via o câncer como algo pequeno perto da vida que ela tinha pela frente", recorda Jhully.

Elizabeth falava do câncer como quem não tivesse a doença e desvencilhava das dores na conversa com os filhos. "Ela nunca se entregou, dizia que o câncer não era nada e que sabia que tudo ia ser difícil. Eu sinto que no fundo ela nos preparava desde o começo. Mas o fato é que nossa mãe soube lutar e sempre soube que ela nunca pensou em desistir", declara.

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