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Campo Grande, Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018

19/01/2017 08:45

Guardiã de João, por uma semana repórter cuidou do Fusca sem freios de Júlia

Enquanto a dona fez um mochilão para Bolívia, carro ficou com repórter e experiência provou que nas ruas, todo mundo respeita a história do Fusca e nem buzina

Paula Maciulevicius
Na tentativa de descobrir onde ligava a luz e dava ré no fusca. (Foto: Marcos Ermínio)Na tentativa de descobrir onde ligava a luz e dava ré no fusca. (Foto: Marcos Ermínio)

Com um mochilão à vista para a Bolívia, Júlia apelou aos amigos do Facebook: quem poderia ficar com o Fusca amado por 10 dias? Só precisava buscá-lo no mecânico, na Via Morena e guardá-lo. O carro foi presente do pai e desde maio do ano passado está com a estudante. De imediato, uma chuva de mensagens invadiu o inbox da dona, mas bastaram as informações preliminares de que o freio de mão não funcionava e os retrovisores eram meramente ilustrativos para geral desistir.

Quase uma hora depois da postagem, manifestei meu interesse. Júlia é namorada de um amigo e nos vimos duas, três vezes, sempre muito rápido. Nunca achei que ela fosse autorizar a mim a responsabilidade em ser guardiã do "João". Primeira lição: todo Fusca tem um nome.

Depois vieram as instruções, "detalhes" que Júlia fazia questão de citar: "1: O freio de mão está quebrado. Isso quase não faz diferença porque ele engata bem na primeira e nunca desceu, mas eu tento evitar descidas muito verticais. 2: Para abrir a tampa da frente onde coloca na gasolina, sempre precisa de duas pessoas. Tipo, o frentista abre lá na frente, mas você tem que puxar uma alavanquinha que tem embaixo do volante (você vai ver, tem uma bolsa que amarrei lá), coisa simples, só puxar que o cara consegue abrir".

E antes que ela se esquecesse, algo muito importante também foi ressaltado. Descoberta que ela constatou só depois de comprá-lo. "Os retrovisores da carona do Fusca para nada servem. Sei lá porque até colocaram, mas não dá para enxergar nada. Por sorte, o espelho de cima é bem grandinho aí da pra olhar tudo através dele, mas sempre que vou fazer manobra para direita viro um pouco a cabeça para confirmar".

Por dentro do João. (Foto: Marcos Ermínio)Por dentro do João. (Foto: Marcos Ermínio)
Júlia, a dona do João. (Foto: Everson Tavares)Júlia, a dona do João. (Foto: Everson Tavares)
Carro era sonho de estudante. (Foto: Everson Tavares)Carro era sonho de estudante. (Foto: Everson Tavares)

Aí entendi porque algumas pessoas desistiram da missão. Mas o João tinha lá suas vantagens, como me apresentou Júlia. "É super divertido passear com ele e diferentemente dos outros fuscas, é bem suavinho de trocar a marcha", completou Júlia Beatriz Oliveira de Freitas, de 21 anos. 

Foram uns dias a mais na oficina para o conserto da buzina. Todo santo dia eu ligava para saber quando poderia ir buscar, até que na quinta-feira passada, tive o ok do mecânico. Na hora de me entregar o carro, acho que ele quase desistiu. Mesmo tendo carteira de motorista há quase 10 anos, ao entrar no João, esqueci até a ordem dos pedais e descobri que Júlia, a dona, tem uma perna muito mais longa que a minha. O banco teve de ser todo reajustado e apertado para quem tem meio palmo de perna para baixo do joelho.

A primeira parada foi no posto de combustível. Era o alerta do mecânico, eu precisava abastecer urgentemente. Corri para abrir o inbox com a instrução e seguir certinha. Claro que o frentista duvidou que fosse preciso duas pessoas para abrir o capô. Fiz a selfie para provar o quão divertida seria a aventura com João. 

Detalhes da roda original. (Foto: Marcos Ermínio)Detalhes da roda original. (Foto: Marcos Ermínio)
E o símbolo no azulão. (Foto: Marcos Ermínio)E o símbolo no azulão. (Foto: Marcos Ermínio)

Sem conhecer e nunca ter dirigido um Fusca, meu maior pavor era ter de encarar uma subida. Dei uma volta enorme na cidade para encontrar um trecho não tão íngreme e que dispensasse de vez o freio de mão. Fazer baliza dá um trabalhão e por isso invadi o estacionamento de uma galeria perto do trabalho, onde era só "imbicar" o carro.

O Fusca chama atenção de todo mundo. Mesmo que você apague o carro, ninguém buzina e nem xinga. Parece que respeita a história e fica muito mais paciente com quem está atrás do volante. João é bem religioso, ecumênico, eu diria. Tem vários adesivos de Nossa Senhora pelo carro, mas o câmbio tem a imagem de Iemanjá. Sabia que não era coisa da Júlia e sim parte dos donos anteriores.

Não dá para saber quantas pessoas já foram donas de João, que antes se chamava Johnny, mas foi "abrasileirado" pela atual dona. Então para entender o João, parti da história que Júlia tem com ele. O ano é 1974, ele é azul, lindão e com rodas originais. Foi presente do pai dela no aniversário de 21 anos. Como o pai mora longe, só mandou o dinheiro e foi ela - junto do namorado Everson - quem foram conhecer os pretendentes. 

"Esse aí foi de um cara que tinha ele para corrida, que queria arrumá-lo para isso. Só que ele comprou uma moto e desistiu, porque ia ficar muito caro", conta Júlia. Por 7 mil reais ela levou o João para casa. "No começo, ele deu bastante dor de cabeça, porque tinha algumas coisas para ajeitar. Carro velho a gente meio que está preparado, porque sabe que vai ter que passar por uns perrengues", acrescenta.

E eles não foram poucos. João já foi guinchado e com três meses, a roda caiu, mas ainda assim continuou sendo a paixão de Júlia. "Gosto muito de coisa antiga, acho que peguei isso do meu pai", justifica. 

Radinho só figurativo, mas lindo. (Foto: Marcos Ermínio)Radinho só figurativo, mas lindo. (Foto: Marcos Ermínio)
Câmbio tem Iemanjá. (Foto: Marcos Ermínio)Câmbio tem Iemanjá. (Foto: Marcos Ermínio)
Velocímetro. (Foto: Marcos Ermínio)Velocímetro. (Foto: Marcos Ermínio)

O pai dela deu o presente como se também fosse aproveitar o fusca. Nas lembranças, o primeiro carro foi um fusca. "Ele tinha um monte de história, o fusca dava muito trabalho. Mas eu sempre achei isso legal, como se fosse uma mágica", elogia a menina.

A última ida para a oficina foi um problema que ninguém descobria. O fusca morria de vez em quando. Ainda está fazendo isso comigo, mas acho que o problema é mais comigo do que com João. 

Na saída do jornal, a surpresa veio: eu não tinha ideia de como ligar a luz e muito menos dar a ré. A luz, o fotógrafo Marcos Ermínio quem descobriu fuçando e a ré, joguei no Google e encontrei um tutorial no Youtube de como mudar a marcha do fusca. O que me consola é que o vídeo já foi visto 35 mil vezes, ou seja, pelo menos 34.999 pessoas já tiveram a mesma dúvida que eu. 

Em todo semáforo que eu parava, quem estava ao lado puxava assunto. Tive até quem oferecesse de comprar o fusca que não era meu. Perguntavam o ano, diziam "legal seu fusca moça". Na apreensão de não conseguir sair com o carro depois do elogio, eu quase sempre apagava. 

No condomínio, todos os dias ele ficou na minha garagem e o meu carro mesmo, para fora. E nunca tanta gente do prédio veio falar comigo. O porteiro Chiquinho gritou da guarita "fala para sua amiga que eu estou apaixonado". Os vizinhos viram um dia a luz acesa e me avisaram de imediato. O maior medo era de que acabasse a bateria. No fundo, todo mundo se sentia um pouco 'guardião' do João. 

Nesta quinta-feira (19), acabaram meus dias de João. Foi uma aventura e tanto. Descobri que quebra-vento é melhor que ar condicionado, por exemplo e que um dos problemas que levou João para a oficina, persiste. Ele buzina do nada. "Eu acho que é um jeito dele se comunicar comigo", brincou Júlia.  

Até pensei em sugerir uma troca maior, que Júlia ficasse com meu carro para me deixar mais uns dias de fusca azul. "Na real, meu maior medo não foi de você ficar com o João, mas dele te deixar na mão", ela me disse. 

"Depois que tive o fusca, você se apega ao carro. A felicidade de ver ele funcionando é tanta, que a gente nem se importa com o que vai quebrando", finaliza a dona do João.

E no caminho para devolver o carro, deixei o João sem gasolina em plena Afonso Pena.E no caminho para devolver o carro, deixei o João sem gasolina em plena Afonso Pena.
Presente que ganhei da Júlia, dona do fusca. Uma lhama para trazer sorte. Presente que ganhei da Júlia, dona do fusca. Uma lhama para trazer sorte.

Um adendo - deixei acabar a gasolina do fusca

Tive a certeza de que o fusca socializa as pessoas no trânsito e desperta solidariedade. O ponteiro do combustível não funcionava e eu, no caminho de levar o fusca para a dona, deixei a gasolina acabar. Em plena Avenida Afonso Pena. Não acreditei que fosse combustível e o que me tranquilizou foi que ninguém buzinou e de imediato, o taxista que estava ao meu lado estacionou para empurrá-lo para mim.

Virei na Rua Paraíba para dar o "tranco" na descida. Pegou e na pressa, mal agradeci quem tanto me ajudou. O João andou só mais duas quadras e parou exatamente no meio do cruzamento da 7 de Setembro com a Bahia. Eu gritei para um pedestre e o rapaz se prontificou a empurrar, de novo, até a esquina.

Não tinha ninguém do jornal passando por lá. Peguei o galão de combustíveis - aí entendi o porque a Júlia o deixa no carro - e fui até o posto perto da Prefeitura. Enchi, voltei e no caminho, pedi ajuda aos rapazes que estavam na operação tapa buraco. Abri meu melhor sorriso e falei: 'alguém pode me ajudar'?

Todo mundo veio, já com uma garrafa para servir de funil. Pensaram que o carro fosse um Honda Civic à frente do fusca e riram quando mostrei o João. "Moça, é o fusca? Esse aí é só cuspir, não precisa de funil e nem mangueira", me disse um deles.

Depois da gentileza, eles ainda perguntaram se eu precisava de ajuda para dar um tranco. Eu disse que tentaria sozinha. Deu certo. E quanta gente disposta encontrei no caminho. A eles o meu muito obrigada. À Júlia, também. De quebra, ganhei um chaveirinho: uma lhama para me dar sorte.

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*Matéria editada 12h05 para acréscimo de informação. Ps: fiquei sem gasolina em plena Afonso Pena.

Nem precisava, mas a galera do tapa-buracos improvisou até um funil. Nem precisava, mas a galera do tapa-buracos improvisou até um funil.


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