Há 15 anos, Lado B prova que toda esquina pode esconder uma história
Ângela Kempfer criou o canal em 2011, fez da vida de gente comum sua marca e ainda ouve: “Isso é matéria?”
Há 15 anos, uma jornalista cansada de fazer mais do mesmo saiu andando pelo Centro de Campo Grande. Não tinha uma grande coletiva marcada, autoridade esperando para dar entrevista ou acontecimento extraordinário para cobrir. Tinha a Rua 14 de Julho, a Calógeras e gente. Muita gente. Ângela Kempfer voltou daquele primeiro rolê com 11 pautas.
Era agosto de 2011 e começava ali o Lado B, editoria do Campo Grande News criada por ela para fazer um jornalismo diferente daquele que ocupava boa parte da rotina das redações. O chamado hard news, o noticiário dos acontecimentos imediatos, como política, polícia, economia, acidentes e tudo aquilo que precisa ser contado enquanto acontece, já não dava conta do tipo de história que Ângela queria encontrar. Ela queria olhar para o lado. E encontrou.
“Eu lembro que andei três quarteirões e encontrei quatro histórias”, recorda. Uma delas era de uma dupla sertaneja que havia vendido a casa e estava morando dentro de um carro. Durante o dia, os músicos distribuíam CDs para divulgar o trabalho. À noite, dormiam ali mesmo.
Depois veio uma loja com sapatos infantis pela metade do preço. Mais alguns passos e apareceu uma personagem que entraria definitivamente para o folclore do Lado B: a Turca da Calógeras.
Ângela entrou na loja e encontrou uma comerciante de batom forte que não economizava palavras nem quando desconfiava dos próprios clientes. Como ignorar aquilo?
“Aí as pessoas perguntam: ‘Ângela, mas por que isso é matéria?’. Como não é matéria, gente?”, lembra. Para ela, claro que é. E nesses 15 anos provavelmente não houve semana em que alguém não tenha perguntado isso ao jornal.
Como a história de uma senhora sentada na calçada pode ser matéria? Como a casa diferente que todo mundo passa em frente pode render reportagem? Por que conversar com quem vende milho há anos na mesma esquina? Por que mostrar a festa de uma família, a roupa que virou febre entre adolescentes, um boteco escondido, uma receita de vó ou uma pessoa que simplesmente tem uma história boa para contar?
Porque o Lado B nasceu acreditando que jornalismo também é isso. A editoria chegou ao Campo Grande News falando de cultura, entretenimento e amenidades, mas foi no comportamento que encontrou uma de suas maiores identidades. Alguém resolveu ir para a rua e, pasmem, perguntar sobre a vida de gente comum.
Essa pessoa era Ângela.
Virginiana, teimosa o suficiente para não desistir da ideia e disposta a provar que havia notícia muito além das pautas tradicionais, ela fez praticamente sozinha o Lado B durante mais de um ano, até a chegada dos primeiros repórteres dedicados exclusivamente à editoria. De lá para cá, muita gente passou por aqui. E veio muita história junto.
Teve choro, riso, amor, separação, festa, polêmica, gente incomodada e uma Campo Grande muito mais diversa do que aquela que costumava aparecer nas páginas de um jornal.
A arquitetura acabou virando uma das meninas dos olhos do Lado B. Não necessariamente pelos projetos milionários ou pelas casas perfeitas de revista, mas porque descobrimos que paredes também guardam histórias.
Às vezes passamos durante anos diante do mesmo prédio sem saber quem viveu ali. Uma fachada antiga pode explicar uma época da cidade. Uma casa aparentemente comum pode guardar quatro gerações de uma família. Um quintal pode dizer muito mais sobre Campo Grande do que qualquer documento oficial.
Comportamento virou território praticamente sem cerca. Cabe amor, sexo, juventude, envelhecimento, tendências, relacionamentos, família, diversidade, internet, comportamento estranho, comportamento bonito e aquelas coisas que aparecem e fazem a redação perguntar: “Será que isso dá matéria?”. Normalmente dá.
Na Diversão, estão os rolês que fazem Campo Grande sair de casa. No Faz Bem, saúde ganha uma linguagem para gente de verdade entender. No Sabor, comida boa não precisa chegar em prato de porcelana de restaurante granfino. Às vezes está na marmita, na feira, na cozinha de casa ou naquela receita que alguém aprendeu olhando a avó cozinhar.
Tem arte, música, games, consumo e tudo mais que aparecer pelo caminho. Principalmente gente.
Uma matéria que mudou uma vida
Entre as lembranças que Ângela carrega desses 15 anos está a história de um cabeleireiro encontrado em uma pequena sala no Centro. A reportagem mostrou as condições simples em que ele trabalhava e teve uma repercussão que ninguém poderia prever.
“No mesmo dia que a gente soltou a matéria, à tarde, as mulheres fizeram fila na frente do salão dele para fazer escova. Foi uma coisa muito emocionante.”
Para Ângela, aquele episódio ajudou a confirmar algo em que acreditava quando criou o canal.
“Eu pensava, e ainda penso, que o campo-grandense tem dificuldade de criar vínculos. Então, se eu consigo colocar na vida deles histórias de pessoas que normalmente eles não parariam para conversar, de alguma forma eu acho que acrescento na vida de todo mundo.”
Talvez esteja aí uma definição melhor do Lado B do que qualquer uma que pudéssemos escrever para uma comemoração de aniversário.
Neste domingo, 23 de agosto, são 15 anos desde a primeira reportagem publicada no Lado B. Nesse tempo, mudaram os repórteres, as câmeras, os celulares, as redes sociais, as gírias, os lugares onde Campo Grande se encontra e até a maneira como as pessoas consomem notícia. Mas uma coisa ficou: a nossa liberdade de olhar.
“Várias pessoas passaram pelo canal, contaram histórias, mostraram festas, eventos, de uma maneira bem nossa, que é uma maneira sem padrão. Com a personalidade de quem conta, com o olhar de quem conta, sem tentar enquadrar ninguém”, diz Ângela.
Quinze anos depois, ela voltou ao mesmo Centro onde tudo começou para gravar o vídeo que acompanha esta reportagem. E talvez seja simbólico que o aniversário termine justamente onde começou: na rua. Porque enquanto alguém passar apressado por uma história achando que aquilo não é notícia, provavelmente haverá alguém do Lado B parando para perguntar o nome.
E, se depois de ler uma reportagem você ainda perguntar “mas isso é matéria?”, tudo bem. Há 15 anos a gente responde sem medo que sim.
Para Ângela, a resposta ainda tem um toque pessoal. “O Lado B é o que faz a minha carreira como jornalista valer a pena”, finaliza.
Vida longa ao Lado B!
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