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Meio Ambiente

MPF investiga retirada de vegetação em área de harpias no Maciço do Urucum

Inquérito apura autorizações do Imasul e possíveis impactos da expansão minerária sobre ninhos da espécie

Por Inara Silva | 23/08/2026 11:25
MPF investiga retirada de vegetação em área de harpias no Maciço do Urucum
Harpia sobre galho da árvore que contém seu ninho (Foto: Ibama/Arquivo)

O MPF (Ministério Público Federal) abriu inquérito civil para investigar possíveis irregularidades em autorizações para retirada de vegetação no Maciço do Urucum, em Corumbá, no Pantanal de Mato Grosso do Sul. A apuração também alcança eventuais impactos sobre áreas utilizadas pela harpia (Harpia harpyja), espécie ameaçada de extinção e considerada a maior águia das Américas.

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O Ministério Público Federal abriu inquérito civil para investigar possíveis irregularidades em autorizações de supressão de vegetação no Maciço do Urucum, no Pantanal de Mato Grosso do Sul, incluindo impactos sobre ninhos da harpia, maior águia das Américas. O Imasul e as mineradoras LHG Mining, Vetria Mineração e 3A Mining têm 15 dias para apresentar documentos ao MPF.

A investigação foi formalizada por portaria e tem entre os pontos apurados autorizações concedidas pelo Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul) para supressão de vegetação, a partir de 2024, sem anuência prévia do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).

Segundo a portaria, a investigação teve origem em informações encaminhadas pela Superintendência do Ibama em Mato Grosso do Sul e os elementos reunidos até o momento apontam para autorizações de retirada de vegetação de Mata Atlântica em estágio médio e avançado de regeneração, em áreas superiores a 50 hectares, sem anuência prévia do órgão federal.

Ao fundamentar a apuração, o MPF cita o artigo 14 da Lei nº 11.428/2006, a Lei da Mata Atlântica. O inquérito deverá esclarecer as circunstâncias em que as autorizações foram concedidas e se houve irregularidades no procedimento.

Ninhos ativos - A presença da harpia no Maciço do Urucum também entrou no centro da investigação. A portaria menciona uma nota técnica recente do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) que, segundo o MPF, confirmou a existência de ninhos ativos da espécie na região e apontou que seus territórios de caça coincidem com áreas de expansão minerária autorizadas.

O MPF passou, então, a apurar possíveis impactos sobre os locais de reprodução e as áreas utilizadas pelas aves. A portaria, no entanto, não conclui que os ninhos tenham sido atingidos ou que tenha ocorrido dano ambiental.

Alerta dos pesquisadores - A presença da harpia no Maciço do Urucum foi registrada pela primeira vez em 2009 e, em 2025, pesquisadores localizaram um raro ninho no local. Desde agosto daquele ano, a equipe responsável pela pesquisa tinha autorização do Imasul para monitorá-lo.

Em reportagem publicada pelo Campo Grande News em outubro de 2025, a pesquisadora Tânia Sanaiotti, criadora do Projeto Harpia e que à época acumulava 28 anos de trabalho com pesquisa e proteção da espécie, explicou que a ave é extremamente rara no Pantanal e no Cerrado, mas vinha se reproduzindo na região. Também havia registro de ninho na Serra da Bodoquena.

Na ocasião, Sanaiotti defendia que a expansão da mineração no Maciço do Urucum fosse avaliada de maneira a permitir a coexistência da atividade econômica com a conservação da espécie.

Reprodução lenta - A harpia pode alcançar cerca de 2,2 metros de envergadura e pesar até 7 quilos. A ave depende de áreas de mata para alimentação e reprodução e, segundo os pesquisadores, alterações na vegetação podem afetar tanto os locais de nidificação quanto os territórios utilizados para caça e a disponibilidade de animais que fazem parte de sua alimentação, como macacos-prego e bugios.

Outro fator que aumenta a preocupação é o lento ciclo reprodutivo. Sanaiotti explicou, em 2025, que a harpia alcança a maturidade sexual por volta dos sete anos e pode gerar apenas um filhote a cada três anos.

A questão dos territórios de caça volta agora ao centro da discussão porque a portaria do MPF registra possível coincidência entre áreas utilizadas pelas harpias e áreas de expansão de mineração.

Autorizações analisadas - Como parte das diligências, o MPF determinou que o Imasul encaminhe a íntegra dos processos administrativos relacionados a três autorizações ambientais: AA nº 1572/2025, AA nº 2388/2023 e AA nº 239/2024.

O órgão estadual também deverá justificar técnica e juridicamente a dispensa da anuência prévia do Ibama e informar se foram realizados estudos específicos para identificar ninhos de harpia ou territórios utilizados pela espécie antes da emissão das autorizações.

O prazo estabelecido na portaria é de 15 dias. Além do Imasul, aparecem como investigadas no inquérito as mineradoras LHG Mining Corumbá S.A., Vetria Mineração S.A. e 3A Mining S.A. As empresas deverão prestar esclarecimentos e apresentar a documentação solicitada pelo MPF.

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