Conhece a Rota dos Pioneiros? Trilha aquática passa por 6 municípios de MS
Aventura percorre cerca de 400 km pelo Rio Paraná e percurso completo exige de 16 a 27 dias para ser concluído
Entre águas, matas e trechos percorridos a pé ou de bicicleta, uma das maiores experiências de ecoturismo do Brasil atravessa Mato Grosso do Sul. A Rota dos Pioneiros, considerada a maior trilha aquática do país, percorre cerca de 400 quilômetros pelo Rio Paraná e passa por seis municípios sul-mato-grossenses: Taquarussu, Jateí, Naviraí, Itaquiraí, Eldorado e Mundo Novo.
RESUMO
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A Rota dos Pioneiros, maior trilha aquática do Brasil, percorre cerca de 400 quilômetros pelo Rio Paraná, atravessando três estados e seis municípios de Mato Grosso do Sul. O percurso combina canoagem, mountain bike e caminhada, conectando o Parque Estadual do Morro do Diabo ao Lago de Itaipu, e pode ser realizado em etapas, com apoio em portos fluviais como o Porto Caiuá, em Naviraí.
O percurso completo tem entre 388,8 e 407 quilômetros, dependendo da configuração do trajeto, e pode exigir de 16 a 27 dias de expedição. A rota também passa por municípios de São Paulo e do Paraná, conectando o Parque Estadual do Morro do Diabo, no território paulista, ao Lago de Itaipu, no Paraná.
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A rota combina caminhada, mountain bike e navegação pelo Rio Paraná, passando por paisagens naturais e locais que preservam a história de povos indígenas, das missões jesuíticas, das expedições de bandeirantes e da ocupação da região ao longo dos séculos.
Em Mato Grosso do Sul, o trajeto ganha características próprias ao passar por áreas preservadas e portos fluviais que servem como pontos de entrada para quem pretende conhecer apenas parte da rota.
Um caminho que atravessa três estados - A Rota dos Pioneiros está dividida em três regiões e oito setores. O viajante pode percorrer todo o trajeto ou escolher trechos específicos, de acordo com o tempo disponível e o nível de experiência.
Em São Paulo, a rota passa por Teodoro Sampaio, Euclides da Cunha Paulista e Rosana. Depois, entra em Mato Grosso do Sul por Taquarussu, Jateí, Naviraí, Itaquiraí, Eldorado e Mundo Novo. No Paraná, o caminho segue por Terra Rica, Diamante do Norte, Marilena, São Pedro do Paraná, Querência do Norte, Icaraíma, Altônia, Guaíra e Mercedes.
O traçado acompanha o Rio Paraná e seus afluentes, entre eles os rios Ivinhema, Piquiri e Paranapanema. Ao longo do percurso, a paisagem alterna rios, ilhas, várzeas, áreas de Mata Atlântica e trechos de ocupação rural e urbana.
A rota também passa por sete Unidades de Conservação: Parque Estadual do Morro do Diabo, Estação Ecológica do Caiuá, Área de Proteção Ambiental das Ilhas e Várzeas do Rio Paraná, Parque Estadual das Várzeas do Rio Ivinhema, Parque Natural Municipal de Naviraí, Parque Nacional de Ilha Grande e RPPN Ernesto Vargas Baptista.
Passagem por Mato Grosso do Sul - No Estado, um dos destaques é o Parque Estadual das Várzeas do Rio Ivinhema, uma das áreas protegidas associadas ao percurso. O parque preserva um importante conjunto de ambientes de várzea e está inserido na região dos rios Ivinhema, Baía e Paraná.
Naviraí também funciona como uma das principais portas de entrada para a rota em Mato Grosso do Sul. O município abriga o Porto Caiuá, apontado como um dos pontos de apoio para os aventureiros que percorrem o trajeto pelo rio.
Outros acessos estão espalhados pela faixa sul-mato-grossense do Rio Paraná. Em Itaquiraí, estão entre as opções a Praia da Amizade e o Porto Santo Antônio. Já em Eldorado, o Porto Morumbi é um dos pontos de acesso ao percurso.
A estrutura permite que o visitante não precise necessariamente iniciar a expedição no começo da trilha. A proposta da Rota dos Pioneiros é justamente possibilitar que os trechos sejam acessados, iniciados ou interrompidos a partir dos diferentes portos existentes ao longo do Rio Paraná.
Para quem parte de Campo Grande ou de outras regiões do Estado, o deslocamento até os pontos de acesso pode ser feito por rodovias que se conectam à BR-163 e às estradas estaduais da região sul.
Muito antes do turismo, um território indígena - O cenário atualmente explorado por praticantes de canoagem, cicloturismo e trekking carrega uma história que começa muito antes da criação da própria rota turística.
A região do Rio Paraná e de seus afluentes foi habitada por povos indígenas, entre eles guaranis, caiouás e caingangues, e durante o período colonial esteve ligada aos territórios sob domínio da Coroa espanhola.
Um dos capítulos mais marcantes ocorreu com a criação de Ciudad Real del Guairá, em 1556, próxima à foz do Rio Piquiri. A partir de 1610, jesuítas passaram a estabelecer missões na região, entre elas San Ignacio Miní e Loreto.
O território chegou a reunir 18 missões jesuíticas e uma população estimada em cerca de 200 mil indígenas.
Décadas depois, em 1631, a região foi palco do chamado Êxodo Guairenho. Diante dos ataques de bandeirantes paulistas, milhares de indígenas deixaram as reduções e seguiram pelos rios Paranapanema e Paraná em busca de segurança.
A fuga envolveu aproximadamente 12 mil indígenas e cerca de 700 embarcações, em uma das grandes jornadas fluviais registradas na história das Américas.
Hoje, o mesmo sistema de rios é percorrido por caiaques, botes e outras embarcações utilizadas pelos chamados novos pioneiros.
Do período colonial às revoluções - A história associada à rota não se limita às missões jesuíticas. No século 18, portugueses construíram o Posto Militar de São José da Pedra Furada do Piquiri, entre 1772 e 1773, em uma região estratégica para o controle do território.
Já no século 20, o Rio Paraná voltou a ser cenário de conflitos durante a Revolução de 1924. Nas proximidades de Porto São José, no Paraná, e Porto Rico, existem registros de estruturas e objetos relacionados aos confrontos.
Entre os pontos de interesse está o chamado “Fundão”, em Porto São José, uma formação subaquática que chega a aproximadamente 18 metros de profundidade. Relatos de expedições de mergulho apontam ainda para a localização de restos de embarcações, armas e outros objetos associados ao período.
A história da região continuou a ser construída posteriormente com a chegada de imigrantes e cafeicultores ao noroeste do Paraná, responsáveis por novas transformações na ocupação das margens do Rio Paraná.
Natureza é outro atrativo - Embora carregue forte componente histórico, a Rota dos Pioneiros tem na natureza um de seus principais atrativos.
Durante a expedição, os visitantes podem praticar observação de aves, contemplar animais e vegetação, conhecer mirantes e formações naturais, tomar banho em rios e cachoeiras e visitar grutas, museus, cidades históricas e propriedades ligadas ao turismo rural.
O trajeto também cruza o Trópico de Capricórnio, uma das referências geográficas mais conhecidas do planeta. A linha imaginária atravessa o percurso durante a navegação pelo Rio Paraná.
Outro elemento cultural encontrado no caminho é a erva-mate. A região de Guaíra, no Paraná, é considerada área tradicional da planta, conhecida pelos guaranis como Ca'á. O costume de consumir a erva permanece presente na cultura regional, especialmente por meio do chimarrão e do tereré.
Rota pode ser feita por etapas - Apesar de a expedição completa exigir planejamento e vários dias de viagem, não é necessário percorrer os quase 400 quilômetros de uma só vez.
A existência de diferentes portos e pontos de apoio permite escolher setores específicos. Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, o visitante pode organizar uma experiência concentrada nos trechos próximos a Naviraí, Itaquiraí ou Eldorado.
A estrutura disponível ao longo do caminho inclui locais para abastecimento, alimentação e, em determinados pontos, acampamento. Entre os pontos de apoio citados estão o Balneário Municipal de Rosana, em São Paulo; Porto Maringá e Porto São José, no Paraná; Porto Caiuá, em Naviraí; e o Centro Náutico Marinas, em Guaíra.
A flexibilidade também permite combinar diferentes modalidades. Há setores mais adequados à navegação e outros que podem ser percorridos de bicicleta ou a pé.
Apesar do caráter turístico e de aventura, a Rota dos Pioneiros exige planejamento. A recomendação é não navegar sozinho e, sempre que possível, realizar o percurso com guias experientes ou participar de expedições organizadas.
A previsão do tempo deve ser acompanhada durante todo o trajeto, principalmente porque as condições do Rio Paraná podem mudar rapidamente. Tempestades e períodos de baixa visibilidade devem ser evitados.
Entre os equipamentos recomendados estão colete salva-vidas, apito de emergência, remo reserva, GPS com mapas previamente salvos, carta náutica da AHRANA, kit de primeiros socorros, proteção contra o sol e equipamentos adequados para acampamento.
Também é necessário planejar o manejo dos resíduos produzidos durante a expedição, especialmente nos trechos inseridos em áreas protegidas.
Outro cuidado importante é verificar previamente as regras de cada Unidade de Conservação. Os locais autorizados para visitação e pernoite podem variar e, em áreas protegidas, acampamentos em locais proibidos podem resultar em multas e causar impactos ambientais.
Uma das 246 trilhas de longo curso do Brasil - A Rota dos Pioneiros faz parte de uma rede nacional de trilhas de longo curso. Atualmente, o Brasil conta com 246 trilhas desse tipo, que atravessam 327 Unidades de Conservação e somam mais de 25 mil quilômetros planejados.
Embora as caminhadas sejam a atividade mais tradicional nesse tipo de percurso, as trilhas de longo curso podem reunir diferentes modalidades de turismo de natureza, como cicloturismo, canoagem, montanhismo, corrida, camping e observação de fauna, flora e formações geológicas.
É justamente essa combinação que diferencia a Rota dos Pioneiros. Em vez de acompanhar apenas uma trilha terrestre, o percurso usa o Rio Paraná como eixo principal e permite ao viajante conhecer, ao longo de centenas de quilômetros, diferentes paisagens e capítulos da história do interior do Brasil.
Para Mato Grosso do Sul, a presença de seis municípios no trajeto coloca o Estado em posição estratégica dentro do circuito. Entre rios, unidades de conservação e cidades às margens do Paraná, a rota transforma uma das principais paisagens naturais da região em caminho para conhecer não apenas a natureza, mas também as marcas deixadas pelos povos que ocuparam e atravessaram esse território ao longo de séculos.


