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Campo Grande, Sexta-feira, 24 de Maio de 2019

02/11/2018 08:03

Há 26 anos, Nelson atravessa o cemitério sem medo e ainda hoje se emociona

Thailla Torres
Encarregado Nelson da Silva trabalha no cemitério Parque das Primaveras há 26 anos. (Foto: Henrique Kawaminami)Encarregado Nelson da Silva trabalha no cemitério Parque das Primaveras há 26 anos. (Foto: Henrique Kawaminami)

Não há descanso para quem trabalha em cemitérios, especialmente os particulares onde as limpezas são diárias. Mas o caso do encarregado Nelson da Silva, de 39 anos, com o lugar fúnebre vai muito além do ofício. Ele trabalha no Parque das Primaveras há quase três décadas e nunca abandonou o emprego porque garante que ali é um local de paz.

São 26 anos no cemitério, profissão que ficou de herança do pai que trabalhou ali de 1989 a 2010, um ano antes de falecer. Nelson começou fazendo limpeza aos 14 anos, depois ganhou o registro em carteira e permaneceu no local desempenhando outras funções.

O tempo de trabalho surpreende as pessoas. Apesar de tantas histórias, ele não é do tipo que acredita em mistérios e garante que nunca viu nada diferente entre as covas. “Eu nunca tive medo, nunca vi nada estranho. Tenho um amigo que mora no fundo do cemitério, eu já atravessei inteiro à noite e nunca aconteceu algo. Isso é lenda”, conta.

Ele diz que apesar dos mistérios, nunca viu e nem ouviu nada estranho. (Foto: Henrique Kawaminami)Ele diz que apesar dos mistérios, nunca viu e nem ouviu nada estranho. (Foto: Henrique Kawaminami)

Por isso, ele nunca abriu mão da profissão. “Eu não tenho uma profissionalização, não tive faculdade, então a gente tem que sobreviver. Mas esse trabalho sempre foi bom para mim, os funcionários são bons e meu pai sempre foi muito respeitado, isso me dá orgulho”.

O pai de Nelson também era encarregado da limpeza, adorava trabalhar no cemitério pela tranquilidade, mas se emocionava tanto quanto o filho toda vez que um carro chegava com caixão para as despedidas. “Ele gostava muito daqui. Mas parou por causa de um acidente”, conta ao lembrar do pai que estava de bicicleta quando foi atropelado por um carro. "Perdeu os sentidos e a memória, ficou cerca de um ano em casa até que sofreu uma parada cardíaca". 

O pais foram enterrados no mesmo cemitério, em que nos intervalos Nelson faz uma oração. “Visito, converso com eles, não abro mão disso. Acho importante manter o carinho”.

Mas nem tudo são flores. O difícil, ao longo desses anos, é segurar a emoção toda vez que uma família chega para enterrar um ente querido. “Principalmente sepultamento de mães e pais, que deixam crianças pequenas, geralmente as crianças ficam perguntando o que está acontecendo, isso faz a gente se emocionar muito”. Mas nessa hora o profissionalismo obriga Nelson a segurar a onda. “Mas eu não choro, porque em primeiro lugar preciso respeitar todas as famílias, estamos lidando com a dor das famílias”.

E todos os dias faz o mesmo trajeto, sem medo de passar entre as covas. (Foto: Henrique Kawaminami)E todos os dias faz o mesmo trajeto, sem medo de passar entre as covas. (Foto: Henrique Kawaminami)

No dia a dia o silencia é constante, para dar liberdade aos visitantes. “Procuro ficar em silêncio sempre, só falo algo que se o cliente me chamar. Quando estou limpando e um cliente chega, eu já me afasto porque esse é um momento importante para ele, temos que respeitar”.

Sorrisos e histórias engraçadas também têm destaque dentro do cemitério, mas são raridades. “Algumas famílias encaram isso de um jeito mais tranquilo, até dão risada em algumas situações. Uma vez, por exemplo, entrou um grilo debaixo do véu da pessoa que havia falecido, quando uma pessoa chegou perto o grilo pulou, foi aquela gritaria e todo mundo riu”, lembra.

Para o funcionário, a tranquilidade do lugar também está ligada ao cuidado. “Aqui a gente cuida do gramado, das plaquinhas, das flores. Acho que isso deixa o lugar melhor para os clientes se sentirem em paz, mesmo que alguém querido tenha morrido”.

Por isso, deixar o cemitério nunca esteve nos planos. “Daqui eu não saio, gosto muito de trabalhar aqui. Essa história de que em cemitério tem assombração não existe. Aqui respeitamos os mortos”, finaliza.

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