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Comportamento

Há 8 anos, amigos provam em cafezinho de mercado que amizade exige dedicação

Todos os dias, turma com mais de 70 não abre mão da boa conversa para envelhecer bem

Por Thailla Torres | 10/06/2019 07:43
Para essa turma de amigos, o tempo que decidiram ficar juntos é importante demais para ser negligenciado. (Foto: Kísie Ainoã)
Para essa turma de amigos, o tempo que decidiram ficar juntos é importante demais para ser negligenciado. (Foto: Kísie Ainoã)

Em tempos de correria e falta de tempo, é normal não conseguir achar momento durante a semana para reunir os amigos. Mas para essa turma de amigos o assunto é levado a sério. Há 8 anos, eles se reúnem em um supermercado da cidade, todos os dias, para continuarem juntos.

A desconfiança em relação à reportagem fez com que encontrássemos apenas José, Osvaldo, Josephino e Abrão, na mesa da praça de alimentação do supermercado. A maioria, ressabiada, preferiu fugir da entrevista. “Quando souberam não quiserem comparecer”, explica o advogado, Osvaldo Feitosa, de 70 anos.

Os quatro gostam de dizer que são amigos de longa data e citam a importância que Ademir, Paulo, Valdomiro, Ricardo, Euclides e Reginaldo, não presentes no dia, têm para o grupo.

Feitosa é quem lembra com detalhes como tudo começou. (Foto: Kísie Ainoã)
Feitosa é quem lembra com detalhes como tudo começou. (Foto: Kísie Ainoã)
José é o "memória" da turma, que lembra dos fatos com nomes e endereços. (Foto: Kísie Ainoã)
José é o "memória" da turma, que lembra dos fatos com nomes e endereços. (Foto: Kísie Ainoã)

Juntos, eles são a prova de que amizade exige dedicação. Eles formam uma turma que se conhece há décadas, e que tomou gosto pelo cafezinho, todo fim de tarde, às 18h, para uma boa conversa e risadas.

A escolha pelo supermercado se deu pela boa localização e a chance de ir às compras após uma ou duas horas de conversa. “Terminamos de conversar e vamos todos às compras”, explica Osvaldo.

A cena se repete todos os dias? Ele garante que sim. “Compramos um pãozinho e um leite para levar para casa. Às vezes um ‘veneninho’”, brinca, lembrando dos produtos mais açucarados que chamam atenção.

Tudo começou quando alguns, já conhecidos, começaram a se esbarrar no supermercado. “Desde então, a gente passou a sentar, confraternizar e tirar esse momento pra gente”.

Na visão deles, o tempo que decidiram ficar juntos é importante demais para ser negligenciado. “Às vezes, alguns faltam por causa do trabalho ou por algo mais importante como a família, mas a maioria faz de tudo para estar aqui”.

Por ali, eles já são conhecidos. Com idades entre 70 e 83 anos, ao longo dos anos, foram dando espaço para novos integrantes. “Alguns nós conhecemos aqui mesmo, graças à boa conversa”, reforça Osvaldo.

Joshepino, um apaixonado pela vida e a profissão. (Foto: Kísie Ainoã)
Joshepino, um apaixonado pela vida e a profissão. (Foto: Kísie Ainoã)

Para fazer parte da turma, não há cobranças, mas há conselhos para uma boa convivência, explica o advogado, Josephino Ujacow, de 83 anos. “Aqui não pode ter briga. Temos pessoas de todo tipo, de diversas profissões, por isso, exigimos muito respeito”.

Mas o que realmente conta, na avaliação do grupo, é a quantidade de histórias produzidas no lugar que viram história para a vida toda. “Aqui, compartilhamos de tudo, desde futebol, política, economia, família e a Bíblia. Se faltar assunto, a gente arranja alguma coisa para tirar sarro um do outro”.

O encontro também virou estratégia para vencer qualquer marasmo em decorrência da velhice. “Esse momento renova cada um de nós e assim ninguém pensa que está envelhecendo, só que está ficando mais experiente. Confesso que é como se eu não visse o tempo passar”, pontua Osvaldo.

A felicidade dos amigos juntos é evidente numa sequência de gargalhadas. Entre uma conversa e outra, há aquele que tem uma memória surpreendente como o bancário José Maurity Lopes Chaves, de 80 anos, que lembra dos fatos com nome completo e endereço de cada personagem. Já o juiz Abrão Razuk, declaradamente vaidoso, é que se recusa a aparecer na fotografia, mas gosta de falar de poesia, Literatura, Filosofia e até dos timbres de “Bolero de Ravel”. Seu José fala da Bíblia aos amigos com encanto e explica passagens como ninguém. Josephino é também um dos mais sorridentes, apaixonado por Direito e disposto a viver até os últimos dias pela profissão.

“Aqui, a maior parte está em plena atividade, mesmo aposentada, porque nós continuamos defendendo que não podemos parar. Abraçamos a profissão por prazer e por amor à justiça”, defende o advogado.

Para Abrão, o encontro com os amigos é um prazer, mas a atividade só continua firme porque ao longo da vida fizeram de tudo para tornar ser inesquecível. “Recordar o passado dá vida ao homem velho. Porque o futuro e os sonhos são dos jovens. E se o nosso passado foi grandioso, nos sentiremos mais valiosos”, comenta.

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Mas o que realmente conta, na avaliação do grupo, é a quantidade de histórias produzidas no lugar que viram história para a vida toda. (Foto: Kísie Ainoã)
Mas o que realmente conta, na avaliação do grupo, é a quantidade de histórias produzidas no lugar que viram história para a vida toda. (Foto: Kísie Ainoã)