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Campo Grande, Sábado, 15 de Junho de 2019

10/06/2019 07:43

Há 8 anos, amigos provam em cafezinho de mercado que amizade exige dedicação

Todos os dias, turma com mais de 70 não abre mão da boa conversa para envelhecer bem

Thailla Torres
Para essa turma de amigos, o tempo que decidiram ficar juntos é importante demais para ser negligenciado. (Foto: Kísie Ainoã)Para essa turma de amigos, o tempo que decidiram ficar juntos é importante demais para ser negligenciado. (Foto: Kísie Ainoã)

Em tempos de correria e falta de tempo, é normal não conseguir achar momento durante a semana para reunir os amigos. Mas para essa turma de amigos o assunto é levado a sério. Há 8 anos, eles se reúnem em um supermercado da cidade, todos os dias, para continuarem juntos.

A desconfiança em relação à reportagem fez com que encontrássemos apenas José, Osvaldo, Josephino e Abrão, na mesa da praça de alimentação do supermercado. A maioria, ressabiada, preferiu fugir da entrevista. “Quando souberam não quiserem comparecer”, explica o advogado, Osvaldo Feitosa, de 70 anos.

Os quatro gostam de dizer que são amigos de longa data e citam a importância que Ademir, Paulo, Valdomiro, Ricardo, Euclides e Reginaldo, não presentes no dia, têm para o grupo.

Feitosa é quem lembra com detalhes como tudo começou. (Foto: Kísie Ainoã)Feitosa é quem lembra com detalhes como tudo começou. (Foto: Kísie Ainoã)
José é o memória da turma, que lembra dos fatos com nomes e endereços. (Foto: Kísie Ainoã)José é o "memória" da turma, que lembra dos fatos com nomes e endereços. (Foto: Kísie Ainoã)

Juntos, eles são a prova de que amizade exige dedicação. Eles formam uma turma que se conhece há décadas, e que tomou gosto pelo cafezinho, todo fim de tarde, às 18h, para uma boa conversa e risadas.

A escolha pelo supermercado se deu pela boa localização e a chance de ir às compras após uma ou duas horas de conversa. “Terminamos de conversar e vamos todos às compras”, explica Osvaldo.

A cena se repete todos os dias? Ele garante que sim. “Compramos um pãozinho e um leite para levar para casa. Às vezes um ‘veneninho’”, brinca, lembrando dos produtos mais açucarados que chamam atenção.

Tudo começou quando alguns, já conhecidos, começaram a se esbarrar no supermercado. “Desde então, a gente passou a sentar, confraternizar e tirar esse momento pra gente”.

Na visão deles, o tempo que decidiram ficar juntos é importante demais para ser negligenciado. “Às vezes, alguns faltam por causa do trabalho ou por algo mais importante como a família, mas a maioria faz de tudo para estar aqui”.

Por ali, eles já são conhecidos. Com idades entre 70 e 83 anos, ao longo dos anos, foram dando espaço para novos integrantes. “Alguns nós conhecemos aqui mesmo, graças à boa conversa”, reforça Osvaldo.

Joshepino, um apaixonado pela vida e a profissão. (Foto: Kísie Ainoã)Joshepino, um apaixonado pela vida e a profissão. (Foto: Kísie Ainoã)

Para fazer parte da turma, não há cobranças, mas há conselhos para uma boa convivência, explica o advogado, Josephino Ujacow, de 83 anos. “Aqui não pode ter briga. Temos pessoas de todo tipo, de diversas profissões, por isso, exigimos muito respeito”.

Mas o que realmente conta, na avaliação do grupo, é a quantidade de histórias produzidas no lugar que viram história para a vida toda. “Aqui, compartilhamos de tudo, desde futebol, política, economia, família e a Bíblia. Se faltar assunto, a gente arranja alguma coisa para tirar sarro um do outro”.

O encontro também virou estratégia para vencer qualquer marasmo em decorrência da velhice. “Esse momento renova cada um de nós e assim ninguém pensa que está envelhecendo, só que está ficando mais experiente. Confesso que é como se eu não visse o tempo passar”, pontua Osvaldo.

A felicidade dos amigos juntos é evidente numa sequência de gargalhadas. Entre uma conversa e outra, há aquele que tem uma memória surpreendente como o bancário José Maurity Lopes Chaves, de 80 anos, que lembra dos fatos com nome completo e endereço de cada personagem. Já o juiz Abrão Razuk, declaradamente vaidoso, é que se recusa a aparecer na fotografia, mas gosta de falar de poesia, Literatura, Filosofia e até dos timbres de “Bolero de Ravel”. Seu José fala da Bíblia aos amigos com encanto e explica passagens como ninguém. Josephino é também um dos mais sorridentes, apaixonado por Direito e disposto a viver até os últimos dias pela profissão.

“Aqui, a maior parte está em plena atividade, mesmo aposentada, porque nós continuamos defendendo que não podemos parar. Abraçamos a profissão por prazer e por amor à justiça”, defende o advogado.

Para Abrão, o encontro com os amigos é um prazer, mas a atividade só continua firme porque ao longo da vida fizeram de tudo para tornar ser inesquecível. “Recordar o passado dá vida ao homem velho. Porque o futuro e os sonhos são dos jovens. E se o nosso passado foi grandioso, nos sentiremos mais valiosos”, comenta.

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Mas o que realmente conta, na avaliação do grupo, é a quantidade de histórias produzidas no lugar que viram história para a vida toda. (Foto: Kísie Ainoã)Mas o que realmente conta, na avaliação do grupo, é a quantidade de histórias produzidas no lugar que viram história para a vida toda. (Foto: Kísie Ainoã)


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