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Campo Grande, Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017

09/08/2017 06:05

Há anos ao lado do Imol, Marinês acha curioso o interesse dos outros pela morte

Simpática, Marinês se tornou uma boa ouvinte das histórias tristes

Thailla Torres
Há 10 anos Marinês vende salgado, suco e pastel na região. (Foto: André Bittar)Há 10 anos Marinês vende salgado, suco e pastel na região. (Foto: André Bittar)

Quem já passou pelo Imol (Instituto de Medicina e Odontologia Legal) certamente já viu o trailer onde trabalha Marinês, há 10 anos vendendo salgado, suco e pastel. Com simpatia, mas a voz com evidente timidez, ela até parece tranquila com entra e sai de funerárias do estabelecimento que rotineiramente recebe pessoas que já faleceram a espera de reconhecimento.

Aos 47 anos, Marinês de Oliveira já atendeu todo tipo de pessoa, que lamentavelmente, entra ali por uma situação de violência. São mulheres agredidas, mães que precisam reconhecer os corpos do filhos com diferentes histórias para contar.

A coxinha de mandioca é um dos salgados preferidos da clientela. (Foto: André Bittar)A coxinha de mandioca é um dos salgados preferidos da clientela. (Foto: André Bittar)

Ela não fala muito. É na base da confiança que Marinês vai dizendo o que vê por ali, mas com cuidado nas palavras como quem sabe da triste realidade de quem passa no lugar.

O fato de trabalhar ao lado do Imol já não faz diferença para ela e a família, só a clientela fica curiosa e a enche de pergunta sobre o que já viu ali dentro. Atitude que até assusta Marinês diariamente. "Nesses 10 anos todo mundo pergunta: a senhora já deve ter visto muito corpo, né? Mas é óbvio que eu nunca vi, o trabalho é restrito a quem está lá dentro e eu também nem faço questão", afirma.

Impressionada com o lado mórbido do ser humano, ela prefere o silêncio. Passa o dia atendendo os clientes e quando tem uma folga se dedica ao tricô. Mas o tempo acabou fazendo dela uma ouvinte para outras famílias.

Ao atender um cliente ela se depara, na maioria das vezes, com uma situação triste. "Tem gente que chega para reconhecer o corpo do filho, fica esperando por horas a liberação e acabam vindo aqui desabafar. Eu não falo nada, só escuto e no fim do dia coloco essa pessoa nas minhas orações", diz.

A violência é tanta que Marinês chega a sonhar com tudo que vê. "Todo dia aparece alguém nessa delegacia ao lado em busca do veículo que foi roubado. Eu fico com tanto medo que já sonhei com isso. Me dá um tristeza muito grande, porquê a gente trabalha tanto, para a violência tirar tudo da gente", lamenta.

No entanto, alguns episódios até diverte o expediente, entre eles, os casos de DNA que passam também pelo Imol. "Ali no fundo tem um laboratório forense, muita gente chega aqui para fazer DNA. As vezes a pessoa conta até em tom de humor que aos 50 anos descobriu uma nova família e sai daqui feliz. Acho que é a única coisa engraçada, no resto a gente só vê história triste".

Apesar dos relatos, nada tira da cabeça de Marinês aumentar o ponto. Há 10 anos ela chegou ali através de um conhecida depois de voltar de Portugal onde trabalhou por um ano. "Eu peguei o meu acerto trabalhista e fui para Portugal juntar dinheiro, mas até lá a vida não é fácil, então voltei e vim vender salgado aqui", conta.

Casada e mãe de um filho, ela sonha em voltar a servir almoço para os trabalhadores. "Eu fazia no começo, mas hoje o movimento é baixo, preciso que as coisas melhorem. Todo mundo fala que está sem dinheiro e eu preciso ter outra pessoa para me ajudar", diz.

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Marinês virou ouvinte de todo tipo de história que passa pelo lugar. (Foto: André Bittar)Marinês virou ouvinte de todo tipo de história que passa pelo lugar. (Foto: André Bittar)



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