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Campo Grande, Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018

19/02/2017 07:05

Mesmo vítimas de tragédias, famílias são atacadas em "tribunal" da internet

Paula Maciulevicius
Estes foram alguns dos comentários dos leitores. E ainda teve gente que foi além. (Foto: Reprodução Facebook)Estes foram alguns dos comentários dos leitores. E ainda teve gente que foi além. (Foto: Reprodução Facebook)

Dois casos policiais dos mais tristes geraram muita repercussão nas redes sociais e não foi só pela comoção. Em tempos em que a internet trouxe liberdade, também deu aos usuários o "direito" de julgarem a vida alheia e de vítima, eles passaram a condenados, mesmo não estando nem aqui para se defender.

Assassinados, o empresário Adriano e o adolescente Wesner acabaram "julgados" pelo tribunal online. Só no Facebook, os comentários mostram o quanto a gente regrediu em termos de humanidade.

A notícia postada no último dia 16, baseada no laudo que a defesa do PRF Ricardo Hyun Su Moon, o “Coreia” anexou ao processo, mostra que Adriano tinha “elevados níveis de álcool no sangue”, havia usado drogas e um remédio para ansiedade antes de se envolver na confusão que acabou na sua própria morte.

Adriano Correia do Nascimento, assassinado no dia 31 de dezembro e de repente, no tribunal virtual, deixou de ser vítima para se tornar culpado.Adriano Correia do Nascimento, assassinado no dia 31 de dezembro e de repente, no tribunal virtual, deixou de ser vítima para se tornar culpado.

Pronto. Depois de noticiar que foi detectado no sangue coletado a presença de 2,33 g/L de álcool, metilenodioximetenfetamina (ecstasy) e Setralina (substância encontrada em medicamentos para ansiedade), os comentários na página do Campo Grande News no Facebook, expuseram como o público se subsidiou das informações como argumentos que justificassem a conduta do policial.

Foram mais de 800 comentários e vários em defesa da atitude de Moon, como se o empresário tivesse premeditado a própria morte e que merecesse os tiros por ter ingerido bebida alcoólica ou ido à uma casa noturna. Querem justificar o injustificável.

"Não era nem um santo né". "PRF agiu em legítima defesa". "Está provado que o cara estava sob efeito de drogas no trânsito com um automóvel que poderia matar várias pessoas saindo da balada. E ainda querem jogar a culpa no PRF que estava indo para o trabalho? E ainda querem jogar a culpa no PRF que estava indo para o trabalho. Ele não deveria ter matado, mas ia atirar à toa?"

Estes foram alguns dos comentários dos leitores. E ainda teve gente que foi além, avaliando outras manifestações e declarando "Meu Deus, todos estão defendendo o bêbado e drogado e acusando o policial". 

Laudo deu aos leitores argumentos que justificassem conduta do PRF. (Foto: Simão Nogueira)Laudo deu aos leitores argumentos que "justificassem" conduta do PRF. (Foto: Simão Nogueira)

E ainda "agora está cada vez mais claro que o PRF agiu de forma correta, talvez um pouco exagerada, mas correta, uma vez que pelo áudio dá para ouvir ele falando que estava ameaçando para cima dele. Uma pessoa com tais substâncias no sangue certamente não estava calma", avaliou um leitor.

Ao ler "convenhamos que qualquer pessoa em situação semelhante agiria igual" dá até medo de pensar nas pessoas que podemos cruzar na rua. Ou ainda aqueles que tentam reverter, colocando a culpa na vítima até mesmo numa situação que não chegou perto de acontecer.

"Caso o policial tivesse deixado o bêbado e drogado ir embora e na próxima esquina ele tivesse matado um ente da família de vocês, os mesmos estariam aqui sacrificando o policial por não ter feito nada para impedir tal fato. Obs: criminoso é quem bebe e dirige, colocando a vida dos outros em risco".

O Lado B ouviu o amigo de Adriano e sobrevivente ao episódio, o supervisor comercial Agnaldo Espinosa da Silva, de 48 anos. Ele era um dos ocupantes do veículo. No Facebook, Agnaldo tem acompanhado as manifestações dos "juízes" virtuais. 

Wesner, de 17 anos, que foi vítima de agressão em lava jato (Foto: Arquivo pessoal)Wesner, de 17 anos, que foi vítima de agressão em lava jato (Foto: Arquivo pessoal)

"Quem está fazendo críticas é porque não conheceu o Adriano, não conviveu com ele. Isso não condiz com ele. Cada um tem a sua opinião, mas é mais fácil julgar quando não se conhece", disse ao telefone.

Até o Campo Grande News sofreu ataques por ter divulgado o laudo, como se de alguma forma estivéssemos "tomado partido" em favor do PRF. O que não aconteceu e como repórteres, é da nossa alçada divulgar os detalhes da investigação. A notícia foi baseada no que o laudo revelou e que fora anexado pela defesa e é o que o advogado do Coreia vai sustentar.

No outro caso, as reportagens da morte trágida do adolescente Wesner, depois de ser agredido com uma mangueira de compressão, também mostraram o pior lado das pessoas. Tio do garoto, como se não bastasse toda dor das circunstâncias do assassinato e como o episódio fora encarado como "brincadeira" de início, a família ainda tem de lidar com "piadinhas" nas redes sociais.

"Estamos atentos a tudo o que estão falando e rebatendo também. Tudo o que a gente vê que seja de maldade ou que esteja denegrindo as imagens, a gente já printa e manda para o advogado", fala o tio da vítima, Elson Ferreira Silva, de 52 anos.

Entre o que ele tem lido, estão piadinhas de que o garoto seria homossexual. "Isso não existe e o que a gente quer é saber quem é a pessoa, para poder processar. Estamos acompanhando de perto e a única coisa que queremos é justiça", clama.



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