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Comportamento

Na era das chamadas ignoradas, ligações telefônicas agora soam como invasão

Medo de golpes, ansiedade e preferência por mensagens explicam mudança de comportamento

Por Inara Silva | 04/01/2026 12:09
Na era das chamadas ignoradas, ligações telefônicas agora soam como invasão
Tela do celular mostra bloqueio de ligação desconhecida (Foto: Juliano Almeida)

Quando o telefone celular toca hoje, a reação já não é automática. Mesmo com o aparelho sempre à mão, no bolso ou sobre a mesa, muitas chamadas seguem sem resposta e acabam na caixa postal. A cena, que antes indicava apenas uma ausência momentânea, tornou-se comum mesmo quando a pessoa está disponível.

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O uso do telefone para chamadas de voz tem diminuído significativamente, com muitas pessoas optando por ignorar ligações, especialmente de números desconhecidos. A preferência atual é pela comunicação via mensagens de texto, que permite maior controle do tempo e das respostas. O fenômeno é atribuído a diversos fatores, incluindo o excesso de ligações indesejadas de telemarketing, a rotina profissional que exige silêncio e a praticidade das mensagens instantâneas. Segundo especialistas, essa mudança também reflete uma nova forma de organizar o tempo e gerenciar as interações sociais.

O toque deixou de representar proximidade ou urgência e passou a provocar desconfiança, ansiedade ou simples incômodo. Atender uma ligação virou um gesto pensado, avaliado e, muitas vezes, evitado.

Esse deslocamento de sentido ajuda a entender por que o telefone, embora presente o tempo todo, perdeu protagonismo como forma de contato. Hoje, a ligação costuma ser associada a cobrança, oferta insistente, telemarketing, bancos ou situações que exigem resposta imediata, quase sempre fora de hora. Em contrapartida, mensagens, textos e áudios ganharam espaço por permitirem algo cada vez mais valorizado: controle do tempo e da atenção.

Esse é o caso de Ana Luísa Oliveira de Macedo, de 25 anos. No celular, ela optou por uma configuração simples que bloqueia chamadas de números desconhecidos. “Eu bloqueio as ligações de números que não conheço.

O telefone é mais para trocar mensagem”, afirma. Segundo ela, o uso do aparelho é frequente ao longo do dia, mas quase sempre para ler e enviar textos. Ainda assim, Ana Luísa diz não se incomodar quando alguém conhecido liga. “Não tenho esse problema”, resume, indicando que a rejeição não é ao ato de falar, mas ao tipo de ligação que chega e à forma como ela interrompe a rotina.

Para quem viveu a era do telefone fixo, das chamadas raras e caras, a relação poderia ser outra. No entanto, Athayde Marques, de 71 anos, diz que hoje fala pouco ao telefone, embora receba ligações em excesso. “Da operadora de telefone principalmente, oferecendo plano. Perturba”, relata. Segundo ele, chamadas de bancos e ofertas de crédito consignado também são frequentes.

Embora no passado fosse alguém que ligava mais, Athayde conta que se adaptou às novas formas de comunicação. “Hoje uso mensagem e áudio. Sou o que mais manda áudio no WhatsApp”, diz, mostrando que a mudança não é apenas geracional, mas também resultado da saturação do canal telefônico.

Na era das chamadas ignoradas, ligações telefônicas agora soam como invasão
Ana Luísa Oliveira de Macedo, de 25 anos, usa bloqueador de chamadas no celular (Foto: Juliano Almeida)

Controle do tempoPara a psicóloga Evelyn Madruga, a preferência pelas mensagens está diretamente ligada à forma como as pessoas organizam o tempo e lidam com as próprias emoções.

“A mensagem permite que a pessoa responda no seu tempo. Ela pode ler, refletir sobre o que está sendo pedido ou demandado e elaborar uma resposta mais adequada”, explica. Segundo ela, isso reduz a pressão por respostas imediatas e ajuda a evitar reações impulsivas, especialmente em situações nas quais dizer “não” é difícil.

O ambiente de trabalho também reforça esse comportamento. Em muitas profissões, o celular permanece no modo silencioso durante boa parte do dia, e as ligações acabam sendo vistas apenas depois.

“A pessoa consegue ver quem ligou, mas escolhe quando e se vai retornar”, afirma a psicóloga. Nesse contexto, aplicativos de mensagens fortalecem a sensação de controle sobre a própria disponibilidade, algo que a ligação telefônica não oferece.

Outro fator apontado por Evelyn é o geracional. Jovens que já nasceram em um período de tecnologia avançada tiveram pouco ou nenhum contato com a comunicação analógica, marcada por limitações técnicas e custos elevados. “Eles não viveram a dificuldade de se comunicar. Para eles, a informação é rápida, abundante, global.

O ritmo é mais acelerado”, diz. Esse cenário impacta também habilidades sociais ligadas ao telefone, como iniciar e encerrar uma conversa, algo que nem sempre é estimulado no cotidiano. A presença constante da internet e da tecnologia, lembra a psicóloga, influencia praticamente todos os aspectos da vida diária.

Na era das chamadas ignoradas, ligações telefônicas agora soam como invasão
Athayde Marques ao lado do filho Lúcio Flávio André Marques. (Foto: Juliano Almeida)

Bloqueio ineficiente - A percepção de que a ligação deixou de ser um canal neutro aparece no relato do servidor público do Judiciário Lúcio Flávio André Marques, de 31 anos. Para ele, o celular perdeu parte da função original. “A ligação às vezes a gente não pode atender em qualquer momento. A mensagem não atrapalha”, afirma.

Ele cita situações cotidianas para explicar a escolha. No cinema ou durante uma pausa rápida, a mensagem cabe; a ligação, não. “Dependendo da situação, a ligação me incomoda. Por que não manda mensagem? Não sabe se eu estou podendo ou não?”, questiona.

Lúcio também aponta as chamadas automáticas como fator decisivo para evitar atender ligações. “Hoje tem muita questão de bots fazendo ligações sem a gente solicitar. A gente acaba até evitando atender, porque já imagina que seja telemarketing ou banco oferecendo empréstimo”, relata. Mesmo com bloqueadores de chamadas instalados, ele afirma que o problema persiste. “Não é eficaz como anunciado pela empresa. As ligações continuam.”

Por fim, o que todo mundo diz é que atender ou não atender já não é apenas um hábito, mas uma escolha consciente em um ambiente em que o toque do celular raramente chega sem custo.

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