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Campo Grande, Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018

29/03/2017 07:40

Nem dentro da delegacia por 17 anos, Rosa teve força para denunciar violência

Mas hoje ela encontrou um amor diferente e os anos de sofrimento ficaram no passado

Thailla Torres
O sofrimento ficou no passado e hoje Rosa é uma das mulheres que lutam diariamente contra a violência doméstica. (Foto: Alcides Neto)O sofrimento ficou no passado e hoje Rosa é uma das mulheres que lutam diariamente contra a violência doméstica. (Foto: Alcides Neto)

"Ele me batia em frente de qualquer pessoa. Na rua até me empurrava e eu me escondia", conta Rosa Maria Batista Santos, de 56 anos. As lembranças são do primeiro casamento, marcado por 17 anos de violência doméstica. Hoje, a condição de vítima ficou no passado, mas ela abre o coração na busca de um basta para o sofrimento de tantas outras mulheres.

Foi a filha quem descreveu no Facebook a vida de Rosa marcada pelo preconceito, pobreza e violência doméstica, mas superada em momentos como a que vive agora, um dos mais importantes de sua vida, o sonho de entrar em uma universidade. A história ela conta agora, na Voz da Experiência.

Comemorando a nova fase como caloura de uma universidade pública. Comemorando a nova fase como caloura de uma universidade pública.

Me casei pela primeira vez aos 22 anos. Na mesma época insisti no sonho de prestar concurso para a Polícia Civil.

Foram anos atuando como papiloscopista e presenciando casos de violência. Mas ninguém imaginava o que eu passava dentro de casa. Foi muito sofrimento e 17 anos de violência. Quando eu casei, é claro que não imaginava que isso aconteceria, mas só depois ele foi mostrando quem realmente era. 

Lembro que muitas vezes dentro da delegacia tentava buscar forças, tanto quanto as mulheres que denunciavam, mas o medo falava mais alto. Tinha dias que eu atendia mulheres que passavam pela mesma coisa que eu, mas como eu estava no meu ambiente de trabalho, eu pensava que tinha que dar forças somente a elas e não conseguia me abrir. E assim fui camuflando aquele sofrimento. 

As agressões não tinham hora e nem lugar para acontecer. Era tapa mesmo, não era só discussão. Eu apanhava no fundo do quintal e em qualquer lugar que ele resolvesse me agredir.

Com o tempo, fui me calando cada vez mais e entrei em depressão, principalmente, depois de perder duas gestações. Eu nasci com má formação congênita, depois que minha mãe tomou Talidomida na gestação, um medicamento conhecido pelos casos de focomelia, uma síndrome caracterizada pelo encurtamento dos membros junto ao tronco.

Eu já tinha a deficiência física e realmente tudo pra mim era mais difícil, mas eu não desistia. Meu forte sempre foi lutar e insistir pelo melhor. No fundo, além do medo, assim como tantas mulheres que estão na mesma situação, a gente acredita que as coisas podem melhorar.

Mas nada mudava, foram 17 anos de agressão física e psicológica. Eu tinha muito medo porque ele me ameaçava. Dizia que se eu contasse para alguém, ele matava minha família. Eram ameaçam que colocavam medo e acabava ficando sempre calada por isso.

Apesar do contato com a delegacia, nunca denunciei. Foi graças a um casal de amigos, que um dia ele tive força para dizer um basta a violência dentro de casa. Na época, não tinha lei que amparava como hoje e nem as mesmas informações. Eu sabia que ele ia continuar me batendo. Mas como ele não tinha medo de nada, quem viu tudo de fora que acabou me ajudando. Um dia um casal de amigos foi quem me disse que eu não precisava daquilo.

Foi nesse momento que bati o pé pela separação, mesmo diante de tantas ameaças. Eu precisava sair de tudo aquilo. Ele me ameaçou de todas as formas, mas graças a Deus tudo ficou na ameça. Depois de um tempo ele foi viver a vida dele e eu segui com a minha. 

Agora, entrei na universidade após tantos anos longe de sala de aula. Sou acadêmica de Turismo da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul). A gente tinha muita dificuldade de estudos. Somos em cinco irmãos, lembro de uma fase que dois estudavam de manhã e o restante à tarde, mas só tínhamos dois uniformes e dividíamos para os dois turnos.

Apesar de ter realizado o sonho de passar em concurso, a faculdade nunca saiu dos meus planos. Mas o sofrimento deixou tudo de lado. Primeiro pela violência e depois as responsabilidades dentro de casa, por isso eu fui deixando de cuidar de mim. 

A faculdade veio por incentivo das filhas. Eu achava que não tinha mais capacidade. Mas acabei fazendo o Enem e passando. Minha primeira opção era Serviço Social, mas acabei caindo no Turismo de paraquedas e me apaixonando. Com minha filhas criadas e felizes, agora eu também vou viver esse momento.



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