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Comportamento

No 1º de maio, trabalhadores dão recado sincero aos chefes

O Lado B foi ao Centro conferir como anda o psicológico de mototaxistas e vendedores

Por Natália Olliver | 01/05/2026 07:13
No 1º de maio, trabalhadores dão recado sincero aos chefes
Antonio Flozindo Duarte é mototaxista desde 1997 (Foto: Juliano Almeida)

“Se eu pudesse dar um recado para algum chefe meu, faria para ele ser mais humano com o funcionário dele. Para ele pensar que um dia ele também foi um empregado CLT e hoje é empresário. Que ele precisa se recordar disso. O funcionário, quando sai de casa, vai para uma batalha diária com tudo aquilo que ele carrega: casa, contas, dívidas, metas. Olhe para ele com mais humanidade, é só isso que eu peço. Seja humano com o ser humano”.

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Em reportagem sobre o Dia do Trabalhador, profissionais de diferentes setores relatam o desgaste da saúde mental e física no mercado de trabalho. Os entrevistados destacam a carga horária excessiva, a baixa remuneração e a falta de humanidade dos gestores como principais causas de estresse e esgotamento. Enquanto trabalhadores autônomos e CLT enfrentam a pressão por metas, alguns defendem a satisfação pessoal e a educação financeira como caminhos para enfrentar a exploração laboral.

Emerson Gomes, de 53 anos, é o dono do recado sincerão para o chefe. No dia 1º de maio, Dia do Trabalhador, o Lado B foi ao Centro para dar voz a quem ocupa esse lugar de fala e saber como anda o psicológico do trabalhador.

Ele está há quase 30 anos no setor de vendas e há 5 anos na área de colchões. Emerson conta que escuta diariamente reclamações dos clientes, que desabafam sobre como a saúde mental está debilitada e como estão cansados e sobrecarregados com a função que exercem.

No 1º de maio, trabalhadores dão recado sincero aos chefes
Emerson Gomes vende colchões há 5 anos no Centro (Foto: Juliano Almeida)

“Eu, como vendedor, preciso entrevistar os clientes para indicar a melhor opção de colchão. Eu os vejo muito cansados de trabalhar muito. As pessoas falam que trabalham muito em pé, até 14h. Muitos motoristas de aplicativo também. O trabalhador está muito cansado”.

Hoje, ele assegura que o próprio psicológico está razoável e pode até dizer que está bem, mas nem sempre foi assim. “Já trabalhei em muitas empresas que me exploravam e eu realmente cheguei muito perto de ter a síndrome de burnout. Ganhava-se pouco e trabalhava muito. Era assim que me sentia: um trabalhador escravo”.

Segundo ele, a estratégia para se livrar de empregos que sugaram “até a alma” foi escolher vagas que se encaixassem melhor na vida que ele gostaria de ter. Um dos fatores que deixam os trabalhadores sem chance de mudança é a situação financeira, segundo ele.

“Eu fui tendo uma educação financeira para não depender mais de carga excessiva de trabalho. Fui procurando empresas que se encaixavam dentro do perfil mais humanizado de trabalhador, que dessem mais condição de trabalho e recebimento. Eu já passei por vários segmentos, desde indústria até loja”.

No 1º de maio, trabalhadores dão recado sincero aos chefes
Edmir Soares  também é mototaxista desde o início da profissão  em Campo Grande (Foto: Juliano Almeida)

Antonio Flozindo Duarte, 67 anos, mototaxista desde 1997, resume o sentimento coletivo com franqueza. Ele afirma estar bem, mas faz um alerta sem rodeio: há um “desânimo total” e generalizado. “Eu estou tranquilo, mas os trabalhadores em geral não estão não. É um desânimo total do pessoal. Trabalha muito e ganha pouco, essa é a maior reclamação, a maioria está infeliz”.

Hoje, a dificuldade para ele é disputar com os aplicativos. Antes de ser autônomo, Antonio já foi CLT, era motorista do Samu e mototaxista. Viveu jornada dupla por anos, até que se aposentou em um e segue até hoje no outro.

“Eu nunca tive problema com chefe, então não daria um recado para nenhum, só que ele continue fazendo o trabalho dele. O trabalhador é o alicerce dos ricos. Sem eles, o mundo não vai para frente. Quem fabrica o avião que o rico anda? O pobre. A roupa de marca que ele usa? Quem limpa a mansão dele? O pobre tem que ter mais consciência de que ele é importante”.

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Manoel vende sorvetes há 9 anos, mas antes disso, nunca teve problemas com chefes (Foto: Juliano Almeida)

Já Manoel Mendes, de 65 anos, apresenta um contraponto. Para ele, o trabalho é motivo de satisfação. A rotina é intensa, começando ainda de madrugada e terminando no início da noite, mas não há queixa. Pelo contrário. Ele diz se sentir bem porque gosta do que faz. Na visão dele, o trabalho ocupa a mente e dá propósito. O problema não está na carga de trabalho, mas em não fazer o que se gosta.

“Minha cabeça como trabalhador está ótima. O trabalho é gratificante. Todo mundo que tem um pouco de consciência tem que incentivar o trabalho. Eu acordo 4h20 da manhã, chego 5h20 aqui e vou embora às 18h e me sinto uma criança perante o que faço, porque eu gosto. Difícil é não gostar do que faz, aí cansa mesmo”.

Manoel também deu um recado ao chefe, para que ele continue sendo um bom patrão e um bom chefe, porque, se não for, não funciona. “O trabalho gratifica a pessoa, parabéns aos trabalhadores, aos patrões também”.

Edmir Soares de Souza, de 64 anos, também é mototaxista desde o início da profissão. Ele reforça o peso do cansaço. O problema, segundo ele, não é só físico. Ele avalia que o psicológico dos trabalhadores está abalado, com níveis altos de estresse e pouca permanência nos empregos.

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José Alencar tranalhava em fazendas e chácaras nas redondezas de Campo Grande (Foto: Juliano Almeida)

“É o cansaço do trabalho que mais pega para mim, trabalha e trabalha e não rende o ganho. Sou mototaxista desde quando começou a profissão, em 1997. Antes eu fazia entrega de moto. Hoje não lembro muito de chefe, faz muito tempo que sou autônomo. Eu falaria que sinto muito, mas que não vou mais trabalhar como empregado, vou ser autônomo”.

José Alencar Alves da Silva, de 52 anos, atualmente está desempregado e destaca outro fator que pesa no psicológico: as relações no ambiente de trabalho. Segundo ele, há dificuldade de convivência entre colegas, o que afeta o desempenho e o bem-estar. Apesar disso, afirma nunca ter tido grandes problemas pessoais com o trabalho e defende relações mais respeitosas e equilibradas entre chefes e funcionários.

“O que pegava para mim era o cansaço físico. Trabalhava na chácara, fazendo de tudo. Mas depende da maneira de trabalhar, não pode ser aquela pessoa que ultrapassa seus limites, tem que ter uma produção adequada”.

José nunca teve problemas com chefe e, se pudesse, diria que eles precisam trabalhar de forma correta e manter uma boa relação com os funcionários. “Trabalhar de forma correta, em comunhão, tranquilo, sem agressões ou palavras tortas, para que possa produzir bem e ter uma boa relação entre funcionário e chefe. Para poder trabalhar feliz e sem enrolação”.

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O que diz a psicologia?

Na visão da psicóloga Cristiane Lang, o Dia do Trabalho hoje traz um alerta importante. Ao mesmo tempo em que comemora conquistas, também mostra como muita gente está adoecendo por causa do próprio trabalho. Ela explica que problemas como burnout, ansiedade e cansaço extremo não são fraqueza. São resultado de uma rotina pesada, com muita cobrança, pouca valorização e quase nenhum tempo para descansar.

Com a tecnologia, o trabalho invadiu até os momentos de folga, e descansar passou a dar sensação de culpa. Cristiane também destaca que jornadas como a 6x1 dificultam ainda mais esse equilíbrio, já que sobra pouco tempo para recuperar o corpo e a mente. Para ela, essa discussão vai além de dinheiro; é uma questão de saúde.

"O que antes era símbolo de dignidade e sobrevivência, hoje, para muitos, tornou-se fonte de exaustão, ansiedade e perda de sentido. Jornadas extensas, metas inalcançáveis. Vivemos sob a lógica da produtividade constante. A tecnologia, que prometia facilitar a vida, acabou por dissolver as fronteiras entre trabalho e descanso. Mensagens fora do expediente, demandas urgentes a qualquer hora, a cultura do “sempre disponível” , tudo isso contribui para um estado permanente de alerta".

Ela pontua que um dos dilemas do trabalhador contemporâneo talvez seja: trabalhar para viver ou viver para trabalhar? "Talvez o maior desafio do nosso tempo seja ressignificar o trabalho. Não como sacrifício inevitável, mas como parte equilibrada da existência. Não como fonte de sofrimento, mas como possibilidade de realização sem que isso exija o esgotamento".

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