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Campo Grande, Quarta-feira, 19 de Fevereiro de 2020

24/09/2019 08:22

Obsessão por passado se fortalece por medo do futuro, diz filósofo

Hans Ulrich Gumbrecht, professor de literatura comparada da Universidade de Stanford lotou auditório do Marco

Danielle Valentim
Hans destaca que o futuro já não aparece como um livro aberto e que está ocupado de ameaças que vão se aproximando. (Foto: Danielle Valentim)Hans destaca que o futuro já não aparece como um livro aberto e que está ocupado de ameaças que vão se aproximando. (Foto: Danielle Valentim)

Pela primeira vez em Campo Grande, um dos principais teóricos da literatura em atividade hoje no mundo, o alemão Hans Ulrich Gumbrecht, passou pela cidade para falar sobre “Filosofia da Presença” na cultura contemporânea. Entre diversas suposições, o professor de literatura comparada da Universidade de Stanford/EUA destacou o porquê de tanto apego ao passado, uma questão que o brasileiro anda dominando bem na era Jair Bolsonaro.

Não é anúncio do apocalipse nem nada, mas o futuro imprevisível causa pânico, com previsões negativas para meio ambiente, por exemplo. Assim, o apego ao passado gera conforto, avalia Hans Gumbrecht, o que talvez explique a onda conservadora que reforça o que parecia debate ultrapassado, como a questão da sexualidade. 

O assunto é bem complexo, mas a todo o momento, o alemão, que fala muito bem português, se preocupa em saber as pessoas acompanham a conversa.

O auditório do Marco (Museu de Arte Contemporânea) ficou lotado de alunos, professores e demais interessados em mergulhar nos pensamentos do filósofo.

Antes de qualquer coisa, ele define presença. “Normalmente, quando se usa presente ou presença a gente fala de temporalidade, no meu caso vocês vão ver que é possível que a presença tenha mais a ver com espaço”, pontua.

Ele explica que até o "objeto intencional" tem o seu poder. "Que é qualquer percepção física. A gente registra a temperatura, mas não se está fazendo objeto intencional porque a gente não pensa naquilo. Mas agora, por exemplo, espero que minha voz seja objeto intencional, porque vocês estão prestando atenção nela”, explica.

Para ele, a nova geração é induzida a um desejo de qualquer que seja o tipo de presença, de proximidade e também de ter um envolvimento intenso com o passado. Mas na contramão dessa necessidade, aparecem ruídos, como as mídias digitais, cheias de “experiências estéticas” com o outro. "A comida tem de ser bonita, hoje em dia. Até ouvir música pode ser uma experiência estética", completa o filósofo. O problema está em perder o tempo de se conectar. “Só um homem que se auto-observa pode conservar sua independência", frisa.

Mas também exite o lado bom de tanta exposição, pontua. As pessoas trans, por exemplo, sempre existiram, mas hoje em dia a coisa mudou. "Coisas que pareciam impossíveis hoje são normais. Os professores falam mal do Wikipédia, mas isso é o onisciência".

Hans avalia que essas são conquistas maravilhosas, mas ao mesmo tempo têm consequências na política, porque as pessoas passaram a se comportar como torcidas organizadas. “As pessoas têm a necessidade de se agarrar a um discurso. Mas acho que a política correta seria admitir que não há soluções”, finaliza.

A palestra com Hans foi organizada pelo Grupo de Pesquisa Literatura, História e Sociedade, da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul).

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