Olney viu Medicina mudar, mas nunca deixou de ouvir os pacientes
Filha relembra médico que chegou a Campo Grande nos anos 1960 e dedicou décadas aos pacientes da APAE

Quando Olney Cardoso Galvão chegou a Campo Grande, no fim da década de 1960, a neurocirurgia ainda dava os primeiros passos na cidade. Segundo a filha, a médica Viviane Galvão, não havia a divisão de especialidades encontrada atualmente e o pai precisava transitar por diferentes áreas. Atendia crianças e adultos, fazia neurocirurgias e, quando necessário, lidava até com questões psiquiátricas e aconselhamento dos pacientes.
RESUMO
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O neurocirurgião Olney Cardoso Galvão, um dos pioneiros da especialidade em Campo Grande, morreu em 25 de julho de 2026, aos 86 anos. Formado em 1964, em Minas Gerais, ele chegou à cidade no fim da década de 1960 e atuou por décadas na APAE, sendo lembrado pela filha, a médica Viviane Galvão, pela dedicação aos pacientes e pela paciência com estudantes. Deixou esposa, três filhos e cinco netos.
As limitações não estavam apenas na quantidade de especialistas. Os hospitais tinham poucos recursos para diagnóstico e para acompanhar pacientes no período posterior às cirurgias. Viviane conta que não havia tomografia nem ressonância magnética disponíveis.
Em algumas situações, além do raio X, um dos poucos recursos para auxiliar na avaliação era o exame de fundo de olho. A dificuldade de conduzir os casos cirúrgicos nesse cenário pesou na decisão de Olney de deixar gradualmente as operações e dedicar a maior parte da carreira à clínica.
Formado em medicina em 1964, em Minas Gerais, Olney especializou-se em neurocirurgia antes de retornar ao então Mato Grosso. Em Campo Grande, tornou-se o segundo neurocirurgião da cidade e trabalhou ao lado de Naidor João da Silva, considerado pioneiro da especialidade. Também participou do ensino médico e acompanhou as mudanças que transformaram a neurologia e a neurocirurgia ao longo das décadas.
Parte importante dessa trajetória ocorreu na APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), onde permaneceu por décadas atendendo pessoas com deficiência e acompanhando famílias. Para Viviane, não se tratava apenas de mais um local de trabalho.
“Ele amava a Apae, era o lugar que ele mais gostava de ir. Acompanhou muitas famílias e as crianças amavam ele”, lembra. Até a festa junina da instituição tinha lugar especial no calendário do médico e ele a aguardava todos os anos.
Mais do que procedimentos ou diagnósticos, Viviane identifica na maneira de atender um dos principais legados deixados pelo pai. Olney reservava tempo para ouvir, anotar e examinar cada paciente.
“Sempre escutei que ele não tinha tempo ruim para os pacientes. Sentava, escutava, anotava e examinava, sempre com muita paciência.” A disposição também aparecia na relação com estudantes. Quando alguém não entendia uma explicação, ele repetia “quantas vezes fossem necessárias”.
A medicina, porém, ocupava tanto espaço na rotina que também fazia parte da vida familiar. “Dividíamos o pai com a Medicina”, resume Viviane. Dentro de casa, ela descreve Olney como rígido, disciplinado, trabalhador, apaixonado por livros, “revolucionário e sonhador”. Era pouco afeito a demonstrações de carinho, segundo a filha, mas mantinha atenção constante ao bem-estar da família, inclusive dos parentes que não estavam tão próximos.

Foi nesse ambiente que Viviane começou a se aproximar da profissão que mais tarde também escolheria. Quando ela era criança, o pai lhe dava blocos de anotação, canetas e pequenas amostras de pomadas entregues por representantes de medicamentos.
A brincadeira despertou o interesse pelo cuidado com os pacientes. Ela observava ainda a satisfação das pessoas quando deixavam uma consulta depois de receber um diagnóstico e iniciar um tratamento.
A rotina médica daquele período também entrava em casa literalmente pelo telefone. Viviane recorda que pacientes ligavam para o número fixo da família nos fins de semana em busca de orientações e eram atendidos. Médicos também faziam consultas domiciliares. Para a filha, acompanhar essa relação próxima entre profissional e paciente ajudou a formar a imagem que carregou da medicina e teve influência em sua própria escolha profissional.
Depois de 50 anos de convivência, entretanto, a lembrança que ganhou maior peso para Viviane não está ligada a um hospital, diagnóstico ou aula. Nos últimos tempos, foi o próprio Olney quem passou à condição de paciente.
A filha diz ter ficado impressionada com a maneira como ele enfrentou a doença. “O que mais me impressionou foi a sua força ao enfrentar sua doença. Encarou sem medo e com uma grande vontade de viver.”
Olney morreu em 25 de julho de 2026, aos 86 anos, deixando três filhos, cinco netos e a esposa Maria da Conceição Alves Sampaio. Para Viviane, ficam duas dimensões de uma mesma trajetória: o médico que participou de uma época em que a neurocirurgia em Campo Grande ainda funcionava com recursos escassos e o pai cuja vida familiar esteve inevitavelmente misturada à profissão
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