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Campo Grande, Domingo, 16 de Dezembro de 2018

02/12/2018 08:28

Para apagar passado homofóbico, Marcus começou do zero nas redes sociais

Gay, ele voltou às postagens antigas e percebeu o quanto era preconceituoso, atacava para negar quem realmente era, estratégias de muitos nas redes sociais

Thailla Torres
Marcos se livrou do Facebook antigo por um motivo especial.Marcos se livrou do Facebook antigo por um motivo especial.

Algumas pessoas tiveram o primeiro contato com as redes sociais em um momento que as coisas estavam bem amadurecidas na cabeça e no coração. Mas entre 2008 e 2012, quando maior parte dos brasileiros passou a usar o Facebook, muito adolescente se debruçou na plataforma para expressar de tudo, sem ideia de quando estaria transformado no futuro. Hoje, ao voltar aos primeiros anos da linha do tempo, algumas pessoas já não se reconhecem ao perceberem como eram equivocados em muitas avaliações.

O jornalista Marcus Moura foi um dos que resolveu ler tudo desde o início e dar um basta ao passado preconceituoso do qual ele nem se lembrava mais. A decisão foi radical, ele excluiu o perfil de anos no Facebook e começou do zero nas redes sociais. Gay, antes de sair do armário ele atacava a homossexualidade para negar o que era. Como foi essa ruptura, ele conta no Voz da experiência.

Explicação que ele deu aos amigos quando apareceu com rede social nova. Explicação que ele deu aos amigos quando apareceu com rede social nova.

Semana passada eu tive uma discussão com minha irmã devido a um post que ela fez. Na publicação, tinham vários comentários homofóbicos, em que as pessoas não enxergavam como preconceito. Tudo era apenas uma brincadeira, “não dá para levar tudo ao pé da letra nessa vida”, diziam eles.

Aquilo me fez pensar em quantas publicações preconceituosas eu tinha no meu Facebook. Resolvi me desfazer do perfil antigo porque de certa forma as nossas redes sociais se tornam parte da gente, como um recorte nosso. No meu, haviam muitas coisas feias publicadas há cerca de 7 anos.

Vi o quanto era preconceituoso. Existe uma falsa máxima de que quando a pessoa é LGBT a chance dela ser preconceituosa é menor, ou quase nula, mas não. Eu era um LGBT transfóbico, que acreditava que deveríamos nascer e morrer com o “corpo que Deus nos deu”. Era bifóbico por acreditar que a bissexualidade era promiscuidade. Sinto-me meio envergonhado ao olhar para trás, mas fico feliz ao ver que não fui resistente a mudança.

Depois que a gente se resolve, vai percebendo e aceitando os erros. Isso também não quer dizer que eu seja uma pessoa 100% resolvida, acho que todos nós durante a vida temos que evoluir aos poucos e tudo são aprendizados. Pode soar clichê, mas como diria o poeta: “prefiro ser essa metamorfose ambulante”, sempre para melhor, é claro.

Eu sou de uma cidade interiorana muito preconceituosa. Estudei grande parte da vida em colégios católicos. Não quero me eximir da responsabilidade das minhas ações, mas cresci dentro de uma igreja católica e todos os membros sempre corroboravam com o pensamento preconceituoso.

Quando acabei o terceiro ano do Ensino Médio, eu coloquei na cabeça que precisava sair de lá para poder me assumir, literalmente, sair do armário. Nos meus primeiros seis meses em Campo Grande fazia Direito e negava veementemente que era gay.

Tenho uma amiga que me falava na época: “Marcus, você é gay, aceita logo, migo”. Depois que fui fazer uma faculdade de humanas de verdade, me libertei e arrombei esse armário.

Minha mãe nunca me pressionou a falar sobre sexualidade, ela esperou meu tempo e isso foi a melhor coisa do mundo. Sempre muito aberta, receptiva e amorosa, ela foi fundamental para que eu voltasse a me amar. Hoje ela é minha melhor amiga, não temos nenhuma barreira para debater e conversar.

Só fiz um “post” nessa nova fase do meu Facebook, mas já sei que quero dedicá-lo a posts sobre animais, plantas e reportagens interessantes que abordem nossa realidade. Vou refletir antes de postar porque é o meu cartão de visitas, é a primeira impressão que o mundo, tanto profissional, quanto pessoal terá de mim e acredito que isso é muito importante. Sem contar que agora tudo que eu falar e postar, serão verdadeiros.

Para quem pensa em dar a volta por cima em um passado da internet, a primeira coisa é não ter medo de se livrar do passado, mas de forma consciente, sem negá-lo. É preciso assumir os erros e fazer uma constante autoanalise. Apenas salvei as fotos importantes para mim, isso era a única coisa que me preocupava.



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