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Campo Grande, Sábado, 20 de Abril de 2019

15/04/2019 07:15

Quando Alzheimer bateu à porta, Zazá só não esqueceu a dança e o amor dos filhos

Zazá ganhou fama como dono de uma das esquinas mais tradicionais da cidade; quem se lembra do "Esquina 20"?

Thailla Torres
Isaías, nos últimos dias do Esquina 20. (Foto: Arquivo Campo Grande News)Isaías, nos últimos dias do Esquina 20. (Foto: Arquivo Campo Grande News)

Há dois meses, Isaías não dança mais nas festas de família. Sua esposa, Luzinete, não nega a saudade de ver os pezinhos dele arrastando pelo chão. A história do marido releva o porquê. Foi dos homens mais queridos na vida boêmia da cidade como dono do antigo “Esquina 20” que, há cinco anos, após diagnóstico do Alzheimer, viu sua mobilidade diminuir, mas sem esquecer o que sempre contagiou: a dança.

Na porta principal da Santa Casa, encontramos a filha e esposa de Isaías Furtado, de 80 anos, internado após sofrer dois AVC’s (Acidente Vascular Cerebral) e recém diagnosticado com pneumonia. Por alguns minutinhos elas toparam falar com o Lado B para dar notícias do Isaías, carinhosamente chamado de Zazá, pelos amigos e clientes que ele ganhou nas últimas décadas.

Isaías atendendo no balcão. (Foto: Arquivo Pessoal)Isaías atendendo no balcão. (Foto: Arquivo Pessoal)

Casada com Isaías desde que começou a trabalhar com ele no Esquina 20, Luzinete Oliveira Silva, de 66 anos, viu a vida mudar quando descobriu que o marido estava doente. Hoje, ela quem faz tudo, com muito carinho na busca de vencer a evolução da doença e prolongar os dias felizes ao lado dele.

“É uma doença que mexe muito com você e leva a pessoa que você mais ama devagarinho”, começa ao lembrar como tudo mudou de fevereiro pra cá. “Há dois meses ele ainda estava rindo, dançando, curtindo com a família, embora os movimentos tenham diminuído”, diz.

Os primeiros sinais da doença chegaram há quase 6 anos, quando Isaías ainda estava no Esquina 20. “Ele saía do bar e se pedia uma quadra depois, não conseguia voltar. Também esquecia onde estava enquanto dirigia”, lembra.

O primeiro diagnóstico foi de demência senil após diversos exames e sintomas como tontura, esquecimento e hemorragia nasal. Um ano depois, a reposta dos médicos foi Alzheimer, doença que mostrou avanços no dia a dia.

Nos últimos anos o declínio foi mesmo na memória, o que confortava Luzinete, ao ver que a alegria de Isaías ainda existia. “Ele conseguia andar e comer, com dificuldades, mas conseguia comer. Sorria, falava o que viesse na cabeça e dava muitas gargalhadas”.

Hoje, Isaías não fala, nem anda ou alimenta sozinho. Mas algumas cenas despertam reações que fazem Luzinete chorar de alegria. Isso porque a doença não foi capaz de levar a dança e o amor dos filhos. “Ele não lembra o nome, mas reconhece bem os filhos. Enquanto andava, ele não abria mão de dançar, hoje, quando colocamos música, ele balança os pezinhos na cama”.

Isaías não esqueceu a dança devido ao passado, como garçom e dono de bar lembra a esposa. Na década de 80, ele participou do grupo Nus Tivagos, cantando nostalgias da música e servindo bebidas como ninguém. “Ele contava de alguns clientes que eram músicos e frequentavam barzinhos, teatro, encontros da cidade. Foi quando uma das participantes do grupo chamou Isaías para fazer um show e ele foi participar também como garçom deles, pelo carisma e pelo profissionalismo. Foi um momento muito importante para ele”.

Grupo que Isaías participou. (Foto: Arquivo Pessoal)Grupo que Isaías participou. (Foto: Arquivo Pessoal)

Até pouco tempo, Isaías também acordava às 4h dizendo que tinha algo para fazer, mas não se lembrava. “Era o mesmo horário em que ele acordava para abrir o bar, por isso, a lembrança. Em seguida eu dizia que o bar fechou e ele merecia descansar”.

Mas emoção mesmo foi em fevereiro, conta Luzinete. “Ele perguntou meu nome, em seguida, deu muitas gargalhadas. Quando questionei o motivo, ele me disse que era o nome da sua mulher. Na hora veio um misto de emoções no peito. Senti realmente que ele também não me esqueceu”.

Hoje, o medo é substituído pelo amor, diz a filha Sueli Levandoski Furtado, de 52 anos. “Quando ele começou adoecer surgiu um medo muito grande, uma indignação. Confesso que até hoje não entendo a doença, não aceito, mas, ao ver ele sorrindo, sendo amado pelas pessoas até mesmo depois do fechamento do bar, isso aquece o coração da gente”.

Isaías segue internado, mas assim que tiver melhoras no quadro da pneumonia, a família espera levá-lo para casa. “Lá vamos continuar fazendo de tudo e proporcionando qualidade de vida para ele. Sempre com muito amor. A gente sabe que essa doença é difícil, os avanços são inesperados, mas no nosso coração o desejo de vê-lo bem é enorme e isso move nossa esperança”, finaliza.

História – Isaias ganhou fama na esquina das ruas 7 de Setembro e 13 de Junho. A soma das duas batizou o bar “Esquina 20”, point para o campo-grandense, que tinha pipoca de graça na mesa. Anos mais tarde, o reforço para o sucesso foi feijoada na cumbuca, servida todos os sábados.

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