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Campo Grande, Sexta-feira, 24 de Maio de 2019

01/04/2019 07:55

Quase 80 anos depois, Hatsué ainda guarda cartas de amor escritas por Toshio

Tradicional, a união foi arranjada pela família Miyahira e durou exatos 62 anos e 3 dias antes da despedida inesperada do homem que sobreviveu a 2º Guerra Mundial.

Kimberly Teodoro
Hatsué ainda guarda as palavras de amor, mesmo amareladas pelo tempo (Foto: Henrique Kawaminami)Hatsué ainda guarda as palavras de amor, mesmo amareladas pelo tempo (Foto: Henrique Kawaminami)

A primeira vez que Irene Hatsué e Antônio Toshio Miyahira se viram, os dois ainda eram crianças. Hoje, quase meio século e três décadas depois, os detalhes ainda se fazem presentes na memória dela, que na época tinha apenas 11 anos, enquanto ele tinha 13. A data exata ficou perdida no tempo, mas a ocasião que trouxe Hatsué de Lins, interior de São Paulo, até Campo Grande, foi um casamento, desses bem tradicionais que reúnem a família toda.

Ainda menina, a última coisa que poderia imaginar era que aquele moleque travesso cresceria para se tornar o homem com quem ela dividiria a vida durante exatos 62 anos e 3 dias.

Hatsué e Toshio nasceram aqui, mas pertencem a uma das famílias de colonos mais antigas do estado. Os Miyahira chegaram ao Brasil no segundo navio a deixar o Japão trazendo para este lado do mundo aqueles dispostos a desbravar este lado do mundo em busca de uma vida melhor.

Durante a adolescência, os dois pouco se encontraram, exceto pelas poucas visitas feitas por Toshio a São Paulo, nas quais costumava passar pela casa de Hatsué, filha de um primo de terceiro grau do pai dele. Na época, ela conta não prestar muita atenção às visitas, já que nenhum dos dois conhecia as intenções dos pais a respeito de uma futura união. Tradicionais, os Miyahira seguiam antigos costumes, principalmente quando o assunto era casamento.

Casamento entre Hatsué e Toshio foi a moda antiga, arranjado pela família e durou 62 anos (Foto: Kísie Ainoã)Casamento entre Hatsué e Toshio foi a moda antiga, arranjado pela família e durou 62 anos (Foto: Kísie Ainoã)

Foi tudo arranjado depois que Toshio voltou da Segunda Guerra Mundial por um tio, que de acordo com Hatsué, era o responsável por cuidar do bem estar de toda a família e alguns casos de administrar até o dinheiro e propriedades. O pedido foi feito em nome do filho e em pouco tempo todos os detalhes foram acertados, sem a opção de dizer “não”, ela conta ter ficado nervosa, pois ainda se lembrava da imagem de bagunceiro reforçada por Toshio a cada breve encontro. “Fiquei nervosa com a notícia, porque não sabia como ele seria no casamento, ele aprontava muito”, revela.

O tempo e a guerra haviam transformado o jovem que aos 18 anos precisou deixar o país para lutar em terras italianas. Integrante do esquadrão de engenharia, Toshio fazia parte do pequeno grupo que precedia a infantaria, era responsabilidade dele desarmar minas terrestres, construir pontes e o que mais fosse necessário para desobstruir o caminho das tropas, um processo no qual viu a morte de muitos companheiros e a sua própria de perto muitas vezes.

Provavelmente o hábito de escrever aos que amava veio desses dias sombrios, além das cartas destinadas a Hatsué, as filhas Roseli e Mara, atuais guardiãs da história dos pais, também preservam outras “missivas” trocadas entre Toshio e velhos companheiros de guerra, costume que ele manteve por muitos anos. As folhas já amareladas pelos anos, trazem uma prática perdida no tempo, chamando atenção pela linguagem delicada, muitas vezes poética, com caligrafia impecável e margens cuidadosamente alinhadas.

Quem ajuda a contar a história é a filha Roseli, que fez um acervo dedicado ao pai (Foto: Henrique Kawaminami) Quem ajuda a contar a história é a filha Roseli, que fez um acervo dedicado ao pai (Foto: Henrique Kawaminami)

Ao longo do noivado, não é possível ter certeza de quantas vezes Toshio escreveu para Hatsué. Em uma caixinha de metal, sob a cama, sobraram apenas três ou quatro, que hoje fazem parte do acervo em que Roseli criou para organizar a história do pai e contar para as próximas gerações um pouquinho da personalidade do homem que se foi há quase dez anos, mas não deixou uma única memória triste aos que se lembram dele, apenas saudade.

Durante o período marcado pela distância, Toshio escreveu com delicadeza e um romantismo que já não se encontra. “Querida noiva Hatsué, Saudades mil. É para mim grande a satisfação em poder dirigir-lhe novamente a missiva que levará ao teu coração toda a minha alegria e a minha saudade. Quisera estar perto de você para sentir como outrora o prazer, ouvindo-lhe a fala e o seu sorriso meigo, que veio cativar o meu coração. Longe estamos, é bem verdade, mas muito em breve estaremos juntos novamente. Isso tudo é o meu consolo.”

Reservada, Hatsué manteve apenas para si as palavras de Toshio por muito tempo, se dele era o hábito de escrever, o dela era o de preservar o passado, cuidadosamente guardado em uma caixinha de metal embaixo da cama. “Eu tinha tudo, até os boletins de escola das crianças. Não sei porque, é algo que sempre fiz”, justifica sem dar muitos detalhes ou revelar qualquer coisa além do que foi questionado.

Em outro trecho, Toshio despede-se com o carinho permitido pela formalidade de um noivado da época: “Hatsué, que estará você fazendo enquanto eu escrevo num dia tão chuvoso? Escreva-me sempre que puder, escreverei novamente quando obtiver resposta sua, segue junto uma foto. Desejando a você e aos meus, saúde e felicidade termino. Aceite deste que não te esquece, um forte abraço e um beijinho. De Toshio”. Se algum dia ela respondeu, manteve a carta apenas para si.

 

Quando mais novo, Toshio tinha porte de galã (Foto: Henrique Kawaminami)Quando mais novo, Toshio tinha porte de galã (Foto: Henrique Kawaminami)
Registro do último aniversário de Toshio, a festa de 85 anos (Foto: Henrique Kawaminami)Registro do último aniversário de Toshio, a festa de 85 anos (Foto: Henrique Kawaminami)

O casamento aconteceu em Campo Grande, no cartório do 2º ofício, seguindo para a Capela São João Bosco. A recepção foi na casa dos pais de Toshio, em uma festa que durou três dias. Hatsué conta ter chegado na cidade pouco antes do casamento, ansiosa e sem saber o que esperar do futuro. O vestido feito de sonho foi presente de uma prima, que também foi madrinha do casal, ela costurou e escolheu os tecidos de acordo com os gostos da noiva. Apesar dos medos e receios, os anos seguintes foram muito bons para o casal. “Depois do casamento ele mudou muito, ficou mais responsável e sempre foi dedicado a família”.

Sem deixar transparecer as marcas da guerra, Toshio é lembrado como um homem alegre e comunicativo, que adorava a casa cheia com os filhos e sobrinhos correndo de um lado para o outro. Não é como se não soubesse ser rígido, já que “apesar de brincalhão, ele era o tipo que só precisava de um olhar” para que os sete filhos entendessem o recado e passassem a se comportar. Entre as lembranças, os passeios de domingo na kombi, único carro capaz de transportar os sete filhos até as já extinta sorveteria Torino, na Rua 14 de Julho e mercearia Califórnia na Rua Dom Aquino, depois de almoçar fora. Apesar de japonês, Toshio sempre adorou comida árabe, comunidade em que tinha muitos amigos.

Registro da comemoração de casamento de Toshio e Hatsué (Foto: Kísie Ainoã)Registro da comemoração de casamento de Toshio e Hatsué (Foto: Kísie Ainoã)

A despedida foi inesperada, pouco depois da festa de 62 anos de casamento. O infarto fulminante levou Toshio Miyahira, deixando mais que saudade, uma lição de como encarar a vida com o peito aberto à felicidade, mesmo depois de ter visto os horrores da guerra de perto. “No fim, ele voltou a ser menino. Sempre gostou de estar bem vestido, comprava cortes de tecido e levava em segredo ao alfaiate de confiança, para a minha mãe não descobrir, ela dizia que ele gastava muito dinheiro. E não era só roupas, viva escondendo doces pela casa, coisa que ele não podia comer, e quando recebia os netos fazia uma festa com as caixas de bombons e balas, independente da proibição dos filhos de dar doces para as crianças por causa dos dentes”, conta Roseli.

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Nos jornais da época, mais de uma homenagem aos combatentes (Foto: Kísie Ainoã)Nos jornais da época, mais de uma homenagem aos combatentes (Foto: Kísie Ainoã)
Entre as recordações, mais de uma carta escrita por Toshio ao longo da vida (Foto: Henrique Kawaminami)Entre as recordações, mais de uma carta escrita por Toshio ao longo da vida (Foto: Henrique Kawaminami)


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