ACOMPANHE-NOS    
JANEIRO, SEXTA  28    CAMPO GRANDE 21º

Comportamento

Quem conheceu o Bar Rharus, sabe do legado deixado por Márcia Zen

A empresária e ativista faleceu em abril e familiares a descrevem como alguém sempre disposto a ajudar

Por Bárbara Cavalcanti | 03/12/2021 10:34
Raquel à esquerda e Marcia, à direita, durante uma viagem. (Foto: Arquivo Pessoal)
Raquel à esquerda e Marcia, à direita, durante uma viagem. (Foto: Arquivo Pessoal)

Marcia Gomes de Moraes dedicou sua vida pela luta da causa LGBTQIA+ e pelos direitos básicos de várias outras minorias, especialmente na questão da saúde pública. No início dos anos 2000, abriu o Bar Rharus. O lugar teve dois endereços, na Afonso Pena e depois, na Mato Grosso e é considerado o primeiro bar gay da cidade.

Foi também a dona do Zen Bilhar, no Amambai, que, inclusive, lhe rendeu o apelido de “Marcia Zen”. Em abril deste ano, ela faleceu devido a um AVC, aos 56 anos de idade. Além da saudade, deixou entre a família e os amigos um profundo sentimento de admiração e respeito.

A irmã mais velha, Evania Moraes Marsiglia, rapidamente se emociona ao falar da irmã. “É doido, mas tenho um orgulho imenso da minha irmã. Ela foi um exemplo, só deixou orgulho. Ela era uma pessoa muito positiva em tudo o que ela fazia, queria e acreditava. Entre os sobrinhos, era respeito e admiração que ela tinha”, relembra, emocionada.

Marcia era lésbica e de acordo com Evania, dentro da família, isso nunca chegou a ser uma questão mal resolvida. “Minha irmã sofria muito preconceito. Mas minha irmã era feliz com as escolhas dela e isso nunca nos deixou envergonhados. Era muito presente na família, muito próxima de todos. E ela também não fazia distinção com ninguém. Minha irmã ajudava todas as pessoas que pudesse”, reforça.

Uma foto antiga de Marcia no bar. (Foto: Arquivo Pessoal)
Uma foto antiga de Marcia no bar. (Foto: Arquivo Pessoal)

Sobre a disposição de Marcia de ajudar quem pudesse, Evania ainda acrescenta que ela era discreta com o que fazia às pessoas. “Sabe aquilo que o que sua esquerda faz, a direita não fica sabendo? A Marcia era assim. Uma vez, no aniversário dela, eu dei R$ 200 de presente para ela. Com aquele dinheiro, ela comprou pão e leite. Quem ela ajudou com aquilo, eu nunca fiquei sabendo. Mas ela fazia o que ela podia. Acordava de madrugada pra levar pessoas ao médico, não tinha preconceito, não tinha medo”, acrescenta.

Na família, a dor da perda de Evania ainda foi ampliada quando a mãe dela, Dorilda de Moraes, de 71 anos, faleceu logo em seguida. “Minha mãe, infelizmente, faleceu pouco tempo depois da Marcia. Também era uma mulher forte, nos encorajava. A dor é grande”, lamenta.

Mas Evania enfatiza que Marcia ainda “vive”. “Quando minha irmã faleceu, todos os órgãos foram doados. Então, um pedacinho dela existe em cada pessoa, ela deu vida àquelas cinco pessoas. E a lembrança dela nunca morrerá, eu sei que ela está me ouvindo, eu sei que onde quer que ela esteja, ela está olhando. Ela deixou amor, esperança e dignidade. Minha irmã vive”, declara.

Um dos amigos próximos de Marcia foi Frank Rossatte da Cunha Barbosa, de 35 anos. Frank conheceu Marcia no Zen Bilhar e, ao longo dos anos, se aproximou dela na atividade política. Ambos chegaram a ser candidatos a vereador na mesma época, porém sem rivalidade.

Frank e Marcia em um evento. (Foto: Arquivo Pessoal)
Frank e Marcia em um evento. (Foto: Arquivo Pessoal)

“A gente fazia campanha um para o outro. Ela falava para as pessoas: ‘Não quer votar em mim? Tudo bem, então vote nele’. Eu falava a mesma coisa. Nossa amizade era assim, muito forte”, comenta.

Uma das características mais fortes de Marcia, de acordo com Frank, era todo esse cuidado que ela tinha com as pessoas ao redor dela. “Era uma mãezona, sabe? Nossa amizade envolvia ela me dar muitos conselhos. Ela sempre falava naquele tom de mãe: “Guri, presta atenção”. Mas nós tínhamos o mesmo conceito das coisas. Ela era uma pessoa boa, que ajudava todo mundo e o que eu sinto por ela é um amor eterno”, ressalta.

Raquel de Oliveira, de 40 anos, conhecia Marcia desde os 14 anos. “Ela foi minha professora, por coincidência, também conhecia minha irmã e assim, ficou amiga de toda minha família. Ela foi muito importante pro meu crescimento, porque ela sempre me ajudou em questões pessoais, sempre falava em ser uma pessoa honesta, que a vida é feita de escolhas e que tudo tem um preço. É um sentimento de irmã que eu tenho por ela”, diz.

Raquel também relembra que estar com Marcia era sinônimo de momentos alegres. “A gente viajava muito juntas e era sempre alegria. Lembro de uma vez que fizemos um time chamado “Hogras Futebol Clube”, que era pra jogar futebol, cartas e sinuca. Lembro que a gente era sedentário, mas que é uma lembrança bem engraçada”, se diverte.

E também relata sobre a bondade de Marcia. “O que se destacava na Marcia era o coração que não cabia nela. Ela vendia bombons, fazia feijoadas no bar, tudo sempre pra ajudar alguém. Quando ela não conseguia ajudar, ela sofria com aquilo. Ela deixou esse legado, de se propor a ajudar o outro, custe o que custar”, reforça.

Jucyllene de Macedo Barros, 41 anos, diz que passaria dias contando histórias e falando sobre o quanto ela foi importante para tantas pessoas. “A Marcia era uma pessoa incrível, não tem como falar dela sem se emocionar, sem sentir saudades. Foi uma perda muito dolorosa e repentina que pegou muita gente de surpresa”, detalha.

Último registro que Jucyllene (à esquerda) tem de Marcia (à direita). (Foto: Arquivo Pessoal)
Último registro que Jucyllene (à esquerda) tem de Marcia (à direita). (Foto: Arquivo Pessoal)

Jucyllene ainda acrescenta que apesar de conhecida pelos bares voltados ao público LGBTQIA+, Marcia era mais que apenas empresária. “Ela lutava pelos direitos do índio, do negro, das crianças, do direito à saúde e ao lazer, era incrivelmente disponível para ajudar as pessoas. Na época, a gente era tudo moleque e ia de moto para o bar. Ela recolhia nossas chaves, colocava lençóis e travesseiros nas mesas de sinuca e fazia a gente dormir no bar pra gente não dirigir bêbado". relembra.

"Ela era uma excelente amiga, uma mãe para todo mundo. Ela sempre tinha uma palavra de conforto, ela te chamava atenção, dava bronca, abraçava, ela era incrível, incrível demais. Às vezes, quando me sinto mal, eu ouço os áudios das nossas conversas. A cidade perdeu um grande ícone e eu perdi também uma grande amiga”, lamenta.

Jucyllene também reforça que nunca deixou de demonstrar seu amor por Márcia, o que era mútuo. No último áudio enviado por Márcia, ela expressa o carinho por várias amigas e encerra a gravação com: “Tenha certeza disso que vocês estão no meu coração para a minha vida eterna”.

Curta o Lado B no Facebook. Tem uma pauta bacana para sugerir? Mande pelas redes sociais, e-mail: ladob@news.com.br ou no Direto das Ruas através do WhatsApp do Campo Grande News (67) 99669-9563.

Nos siga no Google Notícias
Regras de comentário