Se nem na própria cidade o cantor regional encontra palco, o que sobra?
Fã-clube da cantora Gleici Helena pede espaço para artista de Aquidauana na programação principal da Exposição
Uma campanha iniciada nas redes sociais por fãs da cantora Gleici Helena, de Aquidauana, trouxe à tona uma discussão antiga no cenário cultural e expõe a dificuldade enfrentada por artistas regionais para conquistar espaço nos grandes eventos da própria cidade.
Na última semana, fãs da artista movimentaram o Instagram pedindo que Gleici tivesse a chance de se apresentar no palco principal da Exposição Agropecuária de Aquidauana, uma das maiores vitrines da música sertaneja na região, marcada para acontecer entre os dias 13 e 16 de agosto.
Aos 30 anos, Gleici carrega uma relação antiga com a música. Nascida em Campo Grande e criada em Forte Coimbra, ela começou a cantar ainda criança, aos 7 anos, dentro da igreja Nossa Senhora do Carmo. Mais tarde, já morando em Aquidauana desde 2013, continuou ligada à música em ministérios religiosos e nunca imaginou transformar aquilo em profissão.

“Eu nunca quis seguir carreira profissional. Foi um padrinho meu que insistiu para a gente começar a cantar. Aí acabou dando certo e eu continuei”, conta.
O primeiro projeto musical veio em um grupo sertanejo da cidade. Depois, Gleici decidiu seguir em frente ao lado do baterista Bob, que já integrou a equipe da dupla Alex e Yvan. Hoje, o grupo dela também conta com o violeiro Wendel e o sanfoneiro Ricardo.
Mesmo consolidada na cena regional, a cantora afirma que o caminho ainda é cheio de barreiras, especialmente por ser mulher. “Para mulher nunca é fácil. Muita gente desacredita do trabalho. Já teve contratante perguntando se eu não podia levar um homem junto, como se isso mudasse alguma coisa”, relata.
Apesar das dificuldades, Gleici diz que encontrou apoio no público da cidade e nos próprios artistas locais. Foi justamente essa rede que deu início à campanha pela presença dela no palco principal da exposição.
Segundo a cantora, os fãs passaram a marcar organizadores, prefeitura e páginas oficiais nas redes sociais pedindo a participação dela no espaço reservado aos artistas nacionais.
A mobilização acabou abrindo diálogo com representantes municipais e, agora, Gleici guarda uma resposta oficial dos organizadores da feira.
Segundo ela, o desejo vai além de um reconhecimento pessoal. Para a cantora, artistas da cidade merecem mais visibilidade em eventos que movimentam milhares de pessoas e atraem público de diversas regiões do Estado.
“Não é só por mim. Tem muitos artistas daqui, com anos de estrada, que merecem essa oportunidade por serem da cidade e levarem o nome de Aquidauana para outros lugares”, defende.
A discussão ganhou força porque, historicamente, músicos locais acabam ficando restritos à chamada “tenda”, um palco secundário montado após os shows principais. Muitas apresentações acontecem entre 3h e 6h da manhã, quando grande parte do público já deixou o local.
“Às vezes, a gente toca praticamente sem público. E quem quer mostrar o trabalho acaba perdendo uma oportunidade enorme”, pontua.
Segundo Gleici, o palco principal representa uma chance de gerar novos contratos, fortalecer a carreira e produzir registros profissionais diante de grandes plateias.
Ao longo da trajetória musical, ela já fez abertura para artistas como Gusttavo Lima, Amado Batista e a dupla Guilherme & Benuto, além de participações em programas de televisão. Ainda assim, sente que os artistas regionais seguem lutando por espaços que deveriam surgir de forma mais natural.
“Por um lado, fico chateada por precisar pedir para isso acontecer. Mas, ao mesmo tempo, fico feliz por saber que existem pessoas lutando pela gente”, afirma.
A campanha em torno de Gleici também reacendeu uma reflexão maior sobre a valorização da “prata da casa”. Enquanto grandes nomes nacionais chegam, se apresentam e vão embora, artistas locais seguem sustentando a cena cultural da cidade durante o ano inteiro, muitas vezes sem o mesmo reconhecimento ou estrutura.
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