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Campo Grande, Sábado, 22 de Setembro de 2018

04/04/2018 07:23

Três Irmãs resolvem percorrer juntas Caminho de Santiago de Compostela

Thaís Pimenta
Miriam (esquerda), Geane (centro) e Márcia (direita) no início do caminho, antes de sentirem as dores e delícias da trilha. (foto: Acervo Pessoal)Miriam (esquerda), Geane (centro) e Márcia (direita) no início do caminho, antes de sentirem as dores e delícias da trilha. (foto: Acervo Pessoal)

A enfermeira aposentada Márcia Maria Machado Bueno quis, desde a adolescência, fazer uma das trilhas de fé mais famosas do mundo, o Caminho de Santiago de Compostela. Porém, as seguidas desculpas pessoais a fizeram deixar a vontade pouco a pouco de lado. Católica desde a infância, também se afastou da igreja. "Eu via coisas feias, injustas, posso dizer, dentro do hospital e comecei a duvidar da existência de Deus, tamanha era a injustiça que via em seus atos", comenta. Mas com a aposentadoria, aquela vontade voltou à tona, mas desta vez com um reforço e tanto, a companhia das 2 irmãs mais novas.

Márcia, Geane e Miriam partiram para a Espanha por motivos diferentes, desde as mais profundas, como encontrar paz interior, caso da irmã mais velha, como a vontade de simplesmente passear, como foi o caso de Geane.

Individualmente foram gastos cerca de R$ 10 mil, contando com a passagem. Mas no fim da aventura de 32 dias caminhando, todas dizem ter saído transformadas da experiência, para a melhor. 

Márcia mostra o certificado de participação da Caminhada. (foto: Thaís Pimenta)Márcia mostra o certificado de participação da Caminhada. (foto: Thaís Pimenta)

Elas contam que os 12 primeiros dias de trilha foram os mais difíceis. "É nesse período que as pessoas costumam desistir. O corpo estranha o caminho, o nível de dificuldade das trilhas, íngremes, em pedras, ou em terra, a temperatura, que varia de 2 graus a um calor insuportável nas partes de deserto pelas quais passávamos. O pé, como foi meu caso, encheu de bolhas, e tudo isso vai afastando os peregrinos de lá", diz Márcia.

Mas, justamente no 12º dia, tudo fica mais fácil. Com frases que imprimem certo simbolismo para com a vida, ela explica: "as bolhas viram calos e já não doem mais. A mochila que antes era pesada passa a abraçar você e sentia até falta dela".

O caminho era difícil, por vezes íngreme, quente ou muito frio. (foto: Acervo Pessoal)O caminho era difícil, por vezes íngreme, quente ou muito frio. (foto: Acervo Pessoal)

Geane completa: "e o caminho de Santiago continua na vida, onde a gente precisa aprender a carregar as nossas próprias mochilas da vida".

A rotina puxada envolvia caminhar de 20 a 30km por dia - parece pouco mas, segundo elas, o nível de dificuldade da trilha é o grande desafio. Acorda-se cedo, lá pelas 6 horas, o albergue oferece um café da manhã simples, com croissant, suco de laranja natural e café com leite, e o grupo ou a pessoa sozinha começava a caminhar. O que guia os peregrinos são as estátuas chamadas de "conchas", no meio do caminho francês.

As irmãs costumavam levar frutas para a caminhada, para não ter que comprar mais uma vez comida durante a trilha. "Quando acontecia de pararmos, comíamos a mesma coisa do café da manhã, que era o que serviam". Os fieis chegavam em um novo albergue para dormir até às 19 horas, tomavam banho, jantavam o que lhe serviam ali ou iam até um local jantar. "Porque alguns albergues só te dão a cama e o banheiro coletivo".

A janta era uma sopa, uma proteína, uma batata ou um purê dela, uma garrafa de vinho e uma sobremesa. "Por albergue gastávamos por dia cerca de 10 euros. Escolhemos ficar no Albergue da Igreja porque por mais que fosse cerca de 5 euros a mais, era o que dava pra se descansar melhor. Por dia, nos programamos pra gastar de 30 a 50 euros, com alimentação e estadia".

A cada parada nas charmosas cidadelas espanholas, os peregrinos participavam de missas nas igrejinhas locais. "É importante dizer que você em determinados momentos anda junto a um grupo, em outros, anda sozinha. As vezes você fica pra trás, pra frente, é uma questão pessoal", explica Márcia.

De acordo com as irmãs, o caminho é tão transformador porque mostra uma face da vida diferente. "Ali todo mundo é igual, peregrinos. Todo mundo tá com, no máximo, duas mudinhas de roupa na mochila. Todos tem a mesma intenção, vibram a mesma energia. Não há luxo, você se desprende do conforto e do mundo lá fora".

Definitivamente, as irmãs no marco zero, o fim da Terra. (foto: Acervo Pessoal)Definitivamente, as irmãs no marco zero, o "fim da Terra". (foto: Acervo Pessoal)

Márcia conta que quando estava sozinha, ouvia passos caminhando ao seu lado e a concha que todos os peregrinos recebem no começo da viagem, pendurada na bolsa, emitia um leve som. "Eu me sentia acompanhada. Não sei dizer se era Cristo ou Santiago, mas era muito bonito".

As amizades construídas a cada parada tornavam mais fácil os momentos mais árduos de trilha. Segundo Miriam, tinha gente ali que fazia o mesmo caminho pela décima vez. "É como se fosse as férias das pessoas. Elas vão pra lá se renovar, tirar um momento pra si, de paz. Lá a gente esquece de tudo, de todos, até da nossa família, e focamos no nosso interior".

Quanto mais próximo chegavam, a ansiedade batia mais forte no peito das irmãs. Pisar em Santiago é, com certeza, o momento mais gratificante de todos. "A gente chega na cidade e somos recebidos com uma missa só para os peregrinos. Estamos todos fedidos, suados, e vamos pra lá assim mesmo", comenta Márcia. Para as irmãs, estar ali dentro é inexplicável. "É como se estivesse em outra dimensão mesmo, aquela igreja parece o céu", completa.

 

Compartilharam momentos, se sentiram iguais aos outros, e formaram amigos. (foto: Acervo Pessoal)Compartilharam momentos, se sentiram iguais aos outros, e formaram amigos. (foto: Acervo Pessoal)
Os amigos feitos no caminho davam força pra continuar. (foto: Acervo Pessoal)Os amigos feitos no caminho davam força pra continuar. (foto: Acervo Pessoal)

O abraço de gratidão das três irmãs no fim do desafio foi, para elas, o melhor momento de todos. "Chegar ali e agradecer por estarmos juntas, vivendo o mesmo momento, não tem o que se compare". Esse sentimento é que as irmãs aprenderam a levar consigo fora do Caminho de Santiago. "Olha a vida com gratidão, agradecer ao acordar, agradecer as relações humanas que se leva, cuidar do outro do amor, acho que isso que eu e elas podemos passar como experiência dessa viagem".

Do km 816, chegaram até o marco 0,00km, chamado de "o fim da Terra". Se fariam tudo de novo? As irmãs não hesitam: "com certeza, inclusive já  precisamos marcar". 

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As irmãs em frente à Catedral de Santiago de Compostela, no fim da viagem de mais de 32 dias de trilha. (foto: Acervo Pessoal)As irmãs em frente à Catedral de Santiago de Compostela, no fim da viagem de mais de 32 dias de trilha. (foto: Acervo Pessoal)


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