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Comportamento

Dois anos após acidente, Rayssa sonha em voltar a andar, dirigir e estudar

Por Paula Vitorino | 28/02/2012 10:25

Jovem sofreu acidente de carro em 2009 e agora luta para dar continuidade a vida normal

Sempre com sorriso no rosto, Rayssa luta a cada dia por melhoras
Sempre com sorriso no rosto, Rayssa luta a cada dia por melhoras

Com um sorriso no rosto, flor no cabelo e a família ao redor, a jovem Rayssa Favaro, de 21 anos, é a prova de que milagres existem. Quase três anos após ficar 69 dias em coma por causa de um acidente de carro, a jovem tem, a cada dia, novas conquistas e não vê a hora de dar continuidade aos sonhos que foram interrompidos.

“Eu acho que estou progredindo bem, mas eu quero mais. Não vejo a hora de voltar a fazer as mesmas coisas de antes, principalmente, poder andar, dirigir e fazer faculdade”, deseja.

Rayssa teve de reaprender a comer, a andar, a falar e a raciocinar como uma jovem de 21 anos depois de sofrer traumatismo craniano, em acidente na manhã do dia 21 de abril de 2009. O trauma provocou o que a medicina chama de lesão axonal difusa no tronco cerebral-hipotalamo.

A doença de nome difícil significou uma revolução na vida da jovem, que contrariando o que se pode imaginar, revela com bom humor que quer voltar a dirigir. “O que me deixou assim é uma das coisas que mais quero fazer: não vejo a hora de dirigir”.

A reconquista dos movimentos antigos depende de tratamento médico, mas principalmente de muita paciência, que precisou ser incorporada por toda a família.

“Aos poucos ela vai fazendo pequenas conquistas. Mas hoje ela estar aqui, viva e conversando, já é um milagre”, diz o pai, o policial rodoviário federal Valter Favaro.

Ele frisa que Rayssa já deu "muitos sustos", referindo-se as melhoras, quando quase ninguém mais tinha esperanças. "Ela acordou quando ninguém esperava, foi um susto, e a cada dia ela tem avanços, coisas que hoje ela faz e a gente nem imaginava", diz.

Por isso, a família frisa que não existe prazo para a recuperação total, já que cada dia representa uma surpresa.

Hoje, Rayssa conversa com dificuldade e precisa da cadeira de rodas para se locomover, mas já dá alguns passos com andador. Ela sofre de ataxia, o que provoca “tremedeiras” nas mãos e dificulta o equilíbrio nos movimentos.

Para passar as intermináveis horas do dia sem nada para fazer, como ela define, a internet é um das alegrias, já que ler no papel é difícil por conta da ataxia e voltar a estudar ainda não é possível devido ao atraso no cognitivo.

“Estou de férias forçadas”, frisa. A mãe, Nara Favaro, acrescenta que tudo depende de tempo e que aos poucos o seu cognitivo vai voltando ao normal.

Mas para o próximo semestre a agenda de atividades deve aumentar com a autorização clínica, e aulas de inglês, artesanato e culinária estão na lista de prioridades.

Rayssa com o pai e a mãe comemoram conquistas após acidente. (Fotos: Paula Vitorino)
Rayssa com o pai e a mãe comemoram conquistas após acidente. (Fotos: Paula Vitorino)

Balança - No início deste mês, Rayssa voltou de mais uma sessão de tratamento no Hospital SARAH, em Brasília. A cada sete meses ela viaja com a família para passar um mês em tratamento intensivo no hospital, referência na reabilitação de traumas neurológicos e oferece os serviços gratuitamente.

Como a lesão sofrida não é muscular e, sim, cerebral, a rotina de tratamento consiste em treinos para melhorar o equilíbrio, exercitando a independência da jovem nos movimentos do dia a dia, além de exercícios físicos e cognitivos.

Uma das principais lutas da jovem é contra a balança. Rayssa chegou a engordar 15 quilos após o coma e hoje pesa 74 quilos, o que não é o bastante para chamá-la de “gordinha”, mas está longe do ideal de 61 kg, o que ela pesava antes do acidente.

Ela conta que logo que voltou para casa tinha vontade de comer tudo o que via pela frente, pois nunca se sentia satisfeita com a alimentação, uma das seqüelas provocadas pela lesão cerebral.

“Tudo que me davam eu comia”, diz. Mas também fazia pedidos de chocolates e outras guloseimas aos pais, que de pronto eram atendidos.

Deixando os mimos de lado, o pai explica que a perda de peso é uma das orientações do hospital e é fundamental para a melhora clínica, já que quanto mais leve estiver melhor para praticar os exercícios, entre eles, o feito no andador.

Amigos e família - Rayssa encontra força para enfrentar as lutas diárias nos amigos e familiares. Ela conta que adora receber as visitas das velhas amigas, além de sair para churrascos e outras reuniões.

“É muito importante, a gente percebe que não está sozinho. Gosto de ouvir as novidades, contar as minhas”, afirma.

A irmã, Lariane Favaro, de 20 anos, explica que a família está sempre por perto, mas os amigos são fundamentais para Rayssa conversar e dividir os momentos compartilhados entre amigos.

"É muito legal ver que elas conversam como se nada tivesse acontecido. Não são todas as amigas, mas a maioria trata ela não como uma coitadinha, mas como a amiga de sempre", diz.

Carro de Rayssa após o acidente.
Carro de Rayssa após o acidente.

Já para a família, o acidente também foi sinônimo de superação e união. “A gente vivia muito disperso, cada um tinha suas atividades e quando se encontrava era para brigar. Por causa da Rayssa tivemos que nos unir”, diz a mãe.

Rayssa mora com a mãe e irmã, em Campo Grande.

Superação - Olhando com bons olhos para a tragédia, Nara agradece a Deus por terem conseguido superar todos os acontecimentos e conclui que foi um milagre.

“Acredito que foi um milagre. O jeito como tudo aconteceu e depois foi se resolvendo, todas as portas foram se abrindo, sempre tivemos ajuda. Parece que fomos carregados no colo por Jesus, porque nunca nos sentimos desamparados”, afirma.

Durante o período em que Rayssa esteve internada os familiares e amigos realizaram correntes de oração pedindo a recuperação da jovem.

A irmã ainda ensina que “se você não souber olhar as coisas boas de uma tragédia como essa, você não consegue superar”.

Como está - O processo sobre o acidente ainda não foi encerrado. A Justiça está ouvindo as partes envolvidas, mas ainda não tem data para a próxima audiência.

No dia 21 de abril de 2009, Rayssa diriga um Fiat Uno pela rua Bahia, quando o veículo colidiu com o Honda Civic dirigido por Marcelo Olendzki Broch, que seguia pela avenida Mato Grosso. A colisão jogou os carros a 36 metros do ponto de impacto.

Enquanto esperam o julgamento, a mãe afirma que nada vai apagar o sofrimento vivido pela família, mas que espera "que seja feita a Justiça".

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