Pescadora fez do rio sua sobrevivência e se tornou referência no setor
Maria Antônia se casou ainda criança e criou filhos sozinha; hoje, não larga a pesca por nada
O discurso é conhecido, quase um clichê repetido todos os anos: mulheres são sinônimo de força, coragem e luta. Mas para muitas delas, a luta foi a única opção que restou para a sobrevivência.
RESUMO
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Maria Antônia Poliano, de 63 anos, presidente da colônia de pescadores de Fátima do Sul, construiu sua história de superação ao longo de 45 anos como pescadora profissional. Casada forçadamente aos 12 anos, enfrentou violência doméstica e encontrou na pesca seu meio de sustento, criando sozinha seus filhos após deixar o relacionamento abusivo. Em outra história de superação, as irmãs Daila e Denise da Silva, filhas de família humilde, transformaram suas vidas através do trabalho na Eldorado Brasil. Começando como aprendizes, conquistaram crescimento profissional, simbolizando a mudança de realidade para mulheres em setores tradicionalmente masculinos.
Entre jornadas duplas, filhos que foram criados por elas sozinhas e casas sustentadas com trabalho duro, o 8 de março, Dia Internacional da Mulher acaba sendo apenas um pequeno reconhecimento diante de tantas histórias de resistência.
O Campo Grande News foi atrás de histórias reais que traduzem esse cotidiano de batalha, e encontrou a pescadora Maria Antônia Poliano, de 63 anos, presidente da colônia de pescadores de Fátima do Sul.
Há 26 anos à frente da entidade e pescadora profissional há 45 anos, ela construiu sua trajetória vivida nos rios de Mato Grosso do Sul.
Nascida em Glória de Dourados, Maria Antônia conta que a infância não foi fácil. Ainda muito jovem, antes mesmo de completar 12 anos, foi obrigada a casar e fugiu de casa para viver com um homem, de 26 anos. “Eu fiquei com ele até os 19 anos, até eu pegar maioridade e larguei dele”, lembrou.
O relacionamento era marcado pela violência e pelo alcoolismo do homem, que não trabalhava. Para conseguir sobreviver, ela precisou abandonar a escola e aprender a pescar.
“Ele era alcoólatra e não trabalhava. Para poder sobreviver, eu fui obrigada a aprender a pescar, saí da escola, não estudei mais. Meu diploma foi um casal de filhos. O carinho que eu tinha era uma surra de manhã, outra à tarde”, contou.
A primeira filha nasceu quando Maria tinha apenas 15 anos. Mesmo enfrentando agressões constantes e pressão para interromper a gravidez, ela decidiu levar a gestação adiante. Dois anos depois, nasceu o segundo filho, quando ela tinha entre 17 e 18 anos.
Foi com pescadores amigos da época, que ela aprendeu o ofício que mudaria sua vida. “Os amigos da época, já morreram quase tudo, me ensinaram a pescar. Eu não largo minha pescaria por serviço nenhum, amo meu trabalho. É uma vida sofrida, ainda mais com essas normas do nosso Estado. Eu sei fazer outras coisas, sei cozinhar, limpar casa, mas para mim o trabalho que amo é a pesca, criei meus filhos todos na pesca.”
Durante muitos anos, a pesca foi a única fonte de renda da família, e ainda é. Na época, segundo ela, os rios eram muito mais fartos. “Pintado, pacu, dourado, a gente vendia por 60 centavos o quilo. Tinha muito peixe, não tinha essa degradação que tem hoje. Isso era quando eu tinha entre 12 e 20 anos”, relatou.
Ela conta também que agora, vai para o rio pescar de 6 a 7 vezes por ano. De acordo com Maria, o quilo do pintado, por exemplo, é vendido por 50 reais, 60 reais, dependendo da época.
Entre os episódios que marcaram sua vida, Maria Antônia lembra de um acidente no Rio Miranda. Grávida de seis meses da filha, navegava em uma canoa a remo, quando a embarcação virou em uma corredeira.
“A canoa tombou nas águas do Miranda e eu fiquei imprensada embaixo dela. Meu irmão vinha atrás com a canoa cheia de peixe e conseguiu me tirar”, recordou.
Depois de deixar o relacionamento abusivo, ela montou um barraco na beira do Rio Miranda, no km 21, onde passou a viver com os filhos. Ficou ali por anos, pescando para sustentar a família. Quando as crianças chegaram à idade de estudar, a família se mudou para Aquidauana. Mesmo assim, a pesca continuou sendo o principal meio de sobrevivência.
Em 1998 ela se mudou para Fátima do Sul. Na época já tinha experiência com o trabalho junto aos pescadores na colônia de Aquidauana, onde ajudava principalmente com o seguro defeso. Foi assim que conheceu o ex-prefeito da cidade, apresentado por pescadores que buscavam auxílio.
Naquele período, oito pescadores de Fátima do Sul viajavam até Aquidauana para dar entrada no benefício. O ex-prefeito então perguntou se ela toparia montar uma colônia no município. A ideia saiu do papel anos depois: em 2020 foi fundada a colônia de pescadores e, em 2021, saiu a documentação oficial.
Mesmo atuando em um ambiente tradicionalmente dominado por homens, Maria Antônia diz que conquistou respeito.
“Não é fácil trabalhar no meio de homem muito machista, que acha que mulher nasceu para esquentar a barriga no fogão de noite e esfriar de dia no tanque. Mas eu sou respeitada. Eu gosto, eu amo o que eu faço, amo brigar pela pesca”, disse com orgulho.
Hoje ela olha para trás com orgulho da trajetória. A filha mais velha mora na França. Outro filho se tornou cabeleireiro. O terceiro filho que nasceu de outro casamento, trabalha com pesca junto com ela.
“Minha vida sempre foi de dificuldade, mas nunca tive medo da luta. A luta da gente é difícil, mas sempre tem que agradecer a Deus por estar vivo. Além de criar meus filhos, criei meus netos também. Meu diploma são meus filhos, eu só estudei até a terceira série.”
Ela agradece a Deus por não precisar depender mais de um homem. "Graças a Deus estou só há 9 anos. Sou casada com a minha categoria pescador profissional artesanal" disse.
Gerações - Histórias de luta feminina também aparecem em outras gerações, desde os mais jovens. As irmãs Daila, de 28 anos, e Denise da Silva, de 26, cresceram em uma família simples, vendo os pais transformarem o pouco que tinham em muito. Filhas de um carpinteiro e de uma mãe que sustentava a casa com serviços de limpeza, aprenderam desde cedo o valor do esforço.
Foi com trabalho que elas viram a vida mudar. Entram na Eldorado Brasil como aprendizes e foram sendo promovidas.

Daila entrou na empresa em 2020, mas a conquista não veio fácil. Antes disso, participou de cinco processos seletivos sem sucesso, até conseguir.
“Eu sempre falo que foi insistência mesmo. Eu fiz cinco processos seletivos. Na quinta vez deu certo. Então, se a gente quer muito uma coisa, não pode desistir na primeira porta fechada”, contou.
Ela iniciou como jovem aprendiz no Controle Florestal, analisando dados de plantio e apoiando a gestão da área. Ao final do contrato foi efetivada e passou a crescer dentro da empresa: assistente 1, assistente 2 e depois analista na área de Silvicultura.
Formada em Administração, com foco em Gestão de Pessoas, Daila sempre dizia que queria trabalhar com Recursos Humanos.
“Desde quando eu entrei, eu falava: eu gosto muito da área de pessoas e eu fui plantando essa semente até a oportunidade certa surgir”, lembrou ela. A chance veio em 2024, quando passou a atuar na área de Desenvolvimento Organizacional, dentro do RH (Recursos Humanos).
Foi também com inspiração na irmã que Denise decidiu seguir caminho semelhante. Em 2022, entrou como jovem aprendiz na mesma área de Controle Florestal. Formada em Geografia e atualmente cursando Engenharia Ambiental, ela diz que a trajetória de Daila serviu de incentivo.
“Quando minha irmã entrou na empresa, senti essa vontade de fazer parte, porque eu via o crescimento dela e pensava: é um lugar onde eu também posso crescer”, disse.
Ao fim do contrato de aprendiz, Denise não foi efetivada. Mesmo assim, não desistiu. Depois de 3 meses, recebeu um convite para voltar em um contrato temporário de seis meses para cobrir uma licença-maternidade.
“Eu sabia que era temporário, que tinha risco. Mas pensei: é uma oportunidade, eu vou agarrar.”
A realidade acabou se tornando outra, o temporário se transformou na efetivação. Denise lembra com emoção de quando mostrou a carta de promoção ao pai.
“Ele olhou e falou que era mais do que ele já tinha ganhado para sustentar os quatro filhos. Aquilo mexeu muito comigo. A gente viu que estava mudando a nossa realidade. Mudou a estrutura da nossa família”, destacou.
Ao falar da família, ela também lembra do esforço silencioso dos pais. “Nossa mãe sempre ganhou um salário-mínimo. Meu pai sempre trabalhou muito pesado. Mesmo assim, eles pagaram a van para que a gente pudesse ir e voltar da faculdade do início ao fim. A gente chegava quase 11 horas da noite, cansada, e tinha comida pronta esperando. Eles nunca deixaram a gente desistir”, ressaltou.
Em um setor associado à predominância masculina, a mensagem para outras mulheres é clara.
“Acreditem na capacidade de vocês, porque no final o que vale é a competência, dedicação e os seus valores”, finalizou.
Mudanças como essas também aparecem dentro da própria empresa. Entre 2023 e 2024, a Eldorado registrou aumento de 14% no número de mulheres em seu quadro de funcionários.
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