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Morte de bebê abre investigação em maternidade que faz 60% dos partos

Procedimento também analisa óbitos fetais e neonatais registrados na unidade

Por Gustavo Bonotto | 05/03/2026 21:16
Morte de bebê abre investigação em maternidade que faz 60% dos partos
Bebê nasceu morto e no ombro marca do machucado causado no parto. (Foto: Arquivo pessoal)

MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) abriu inquérito civil para apurar a qualidade da assistência obstétrica na Maternidade Cândido Mariano, em Campo Grande. A investigação começou após denúncia sobre a morte de um bebê durante o parto, em outubro de 2025. O caso chegou à Ouvidoria do órgão e levantou suspeita de negligência médica e falta de atendimento humanizado.

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O Ministério Público de Mato Grosso do Sul instaurou inquérito civil para investigar a qualidade da assistência obstétrica na Maternidade Cândido Mariano, em Campo Grande. A investigação foi motivada pela morte do bebê Ravi durante o parto em outubro de 2025, levantando suspeitas de negligência médica. A maternidade, que realiza cerca de 650 partos mensais, está sob investigação após identificação de outros óbitos fetais e denúncias de violência obstétrica. O MPMS solicitou informações à unidade, à Secretaria Municipal de Saúde e ao Conselho Regional de Medicina para avaliar protocolos de atendimento e possíveis falhas na assistência.

A apuração ocorre na 76ª Promotoria de Justiça da Capital. A maternidade é administrada pela AAMI (Associação de Amparo à Maternidade e à Infância) e responde por cerca de 60% dos partos realizados na cidade. A unidade registra em média 650 nascimentos por mês.

O procedimento começou como Notícia de Fato. A promotoria ampliou a investigação após identificar outros óbitos fetais e neonatais recentes. Relatos públicos, matérias jornalísticas e um dossiê elaborado por famílias também apontam situações de violência obstétrica na instituição.

O órgão solicitou informações à maternidade e à Sesau (Secretaria Municipal de Saúde). O órgão quer detalhes sobre protocolos de atendimento, notificações aos sistemas oficiais de vigilância e atuação dos comitês de prevenção da mortalidade materna e infantil.

O CRM/MS (Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso do Sul) também recebeu pedido de informações. A promotoria quer dados sobre sindicâncias relacionadas a mortes de bebês e denúncias de violência obstétrica. O órgão também pediu vistoria na unidade.

O Ministério da Saúde deve enviar parâmetros nacionais sobre taxas de óbitos fetais e neonatais. Os dados vão permitir comparação com os indicadores registrados em Campo Grande.

A portaria de abertura cita ainda a Rede Alyne, criada em 2024 para fortalecer a rede de atenção materna e infantil. O documento também menciona a Política Nacional de Humanização, voltada à qualificação da assistência e à redução da mortalidade de mães e bebês.

Em nota, o Ministério afirma que o parto deve ocorrer com equipes qualificadas, "[...] em ambiente adequado e com respeito à dignidade da mulher, à autonomia da gestante e à segurança do bebê". O inquérito tramita em sigilo porque envolve dados de pacientes e familiares.

A investigação tem caráter inicial e não aponta responsabilidade neste momento. O objetivo é reunir informações técnicas para avaliar possíveis falhas no atendimento e definir medidas, como recomendações ou termos de ajustamento.

Procurada pela reportagem, a maternidade informou que não irá se manifestar neste momento, já que o caso está sob investigação do Ministério Público, onde os esclarecimentos serão prestados.

Relembre - O caso que motivou a denúncia ocorreu em 16 de outubro de 2025. Conforme noticiado pelo Campo Grande News bebê Ravi nasceu morto após parto. A família afirma que médicos insistiram no parto normal mesmo após exames indicarem que o bebê pesava cerca de 3,5 quilos.

Segundo a maternidade, a gestante Cláudia Batista da Silva, de 33 anos, chegou à unidade no dia anterior com 40 semanas e quatro dias de gestação e bolsa rota. A instituição informou que ela já havia tido dois partos normais e recebeu acompanhamento da equipe médica e de enfermagem.

Durante o parto, houve distócia de ombro, complicação obstétrica considerada grave e imprevisível. A maternidade informou que, apesar das tentativas da equipe, o bebê morreu no momento do nascimento e que não identificou falha no atendimento. A unidade abriu apuração interna por meio das comissões de ética e de óbito.

A família, no entanto, contesta a versão e alega que o parto deveria ter sido cesáreo. Miriam Souza, de 49 anos, avó paterna do bebê, disse que a gestante apresentou exames mostrando que Ravi já tinha cerca de 3,5 quilos. “Mesmo sabendo que o neném era grande, resolveram induzir o parto normal. Durante o parto, o pai contou que o bebê nasceu com a cabeça torta e morreu no momento do nascimento. Eles colocaram o neném em cima da mãe, e ele não chorou”, relatou Miriam.

José Eduardo de Souza, de 28 anos, pai de Ravi, acompanhou todo o trabalho de parto e afirmou que o bebê sofreu por causa da demora e da insistência no parto normal. “Desde os primeiros exames, eles não fizeram outro ultrassom para tirar a medida certa. O bebê estava grande e gordo; não tinha como um parto normal ser realizado. Ficamos horas esperando. Ela tomou um remédio para dilatar mais e ficou nessa luta”, contou.