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Diversão

Fora das ruas, banho de São João é feito na sala e com fiel de máscara

Pandemia apaga a tradicional festa pelas ruas de Corumbá, mas não esvazia o coração de festeiros

Por Thailla Torres | 24/06/2020 16:01
Dona Maria celebrou com a família na sala de casa. (Foto: Arquivo Pessoal)
Dona Maria celebrou com a família na sala de casa. (Foto: Arquivo Pessoal)

As bandeirolas não foram penduradas por toda a ladeira que seria palco para a descida de moradores e fieis que banhariam o santo nas águas do Rio Paraguai. A festa que há mais de 100 anos reúne religião e cultura popular, e é o tradicional calendário junino de Corumbá, também não aconteceu. O caminho até as águas ficou mais curto e teve gente que banhou São João na sala de casa, e de máscara

O cancelamento da festa de São João em Corumbá – a 428 quilômetros de Campo Grande – em função da pandemia do novo coronavírus resultou em mudanças na tradição. Milhares de famílias não saíram às ruas que todos os anos costuma lotar de festeiros, carregando andores com suas imagens.

Na manhã de ontem (23), dona Maria Paula da Silva, de 81 anos, amanheceu chorosa. Recebeu o abraço dos filhos e o calor de São João iluminado pelas velas na sala de casa. Ainda que a recomendação fosse não se aglomerar na beira do rio, dona Maria desejava manter a tradição, mas a família, por segurança, escolheu mudar os rituais e seguir com a comemoração dentro de casa, e com todos de máscara personalizada com a imagem do santo.

Família personalizou máscara para a celebração ao santo. (Foto: Arquivo Pessoal)
Família personalizou máscara para a celebração ao santo. (Foto: Arquivo Pessoal)

Todos os anos, conta a filha de dona Maria, a gerente Rosana Lídia da Silva Pereira, de 61 anos, era tradição a família acordar com um gigantesco e lotado café da manhã na véspera de São João. A festa seguia com um almoço caloroso e um churrascão no fim de tarde para saciar a fome e o afeto dos fiéis.

“Depois de muita oração e a tradicional reza antiga em latim que mamãe costuma fazer, nós íamos juntos levar São João para se banhar no rio. Esse ano foi diferente. Doeu em nossa mãe ver tudo acontecer na sala de casa, mas nada mudou a fé dela, que deu o banho ali mesmo, fez suas rezas e pediu para que tudo isso passe”, conta Rosa.

A tradição ‘mora’ na família há 85 anos. “Começou com a minha bisavó e hoje faz parte de toda a família. Choramos muito a saudade das ruas, do rio, mas entendemos que esse é um momento, mais do que nunca, de pensar no próximo”.

Tatiana banhando o santo na porta de casa. (Foto: Juan Felix)
Tatiana banhando o santo na porta de casa. (Foto: Juan Felix)

A repórter Tatiana Amorim, de 37 anos, amanheceu ansiosa, confessa. “A festa é uma tradição na família deixada pela minha avó. Somos da umbanda e pra mim São João também é Xangô. Rezamos para eles neste dia”, conta.

Ontem, por volta das 18 horas, ela reuniu cerca de 10 familiares em casa, todos de máscara, para celebrar o São João e banhar o santo. O caminho também foi diferente, o percurso foi em volta de uma fogueira e as águas vieram da torneira de casa. Tatiana confessa que no próximo ano vai tentar seguir o mesmo ritual. “A água que cai sobre ele é a mesma, a nossa fé a é a mesma, então pode ser que ano que vem continue sendo assim. Pra mim o importante é cumprir a promessa. Mesmo que ninguém quisesse, eu faria o ritual até sozinha”.

A casa de Tatiana é um show à parte com decoração por todos os lados. “Não abro mão da tradição”, finaliza.

Mesmo com o cancelamento, segundo o portal Diário Corumbaense, alguns festeiros foram até o rio banhar o santo, alguns, em grupo. Já a ladeira Cunha e Cruz, antes tomada por milhares de fiéis, ficou vazia.

Ladeira Cunha e Cruz, antes tomada por milhares de fiéis, ficou vazia. (Foto: Diário Corumbaense)
Ladeira Cunha e Cruz, antes tomada por milhares de fiéis, ficou vazia. (Foto: Diário Corumbaense)