Fui atrás de uma guerra esquecida e encontrei minhas origens
Entreguei em Santa Catarina livro que meu pai escreveu sobre batalha camponesa, visitei fronts e belas cidades

Para o Voz da Experiência de hoje, a jornalista Maristela Brunetto escreveu um relato que mistura memória, história e homenagem. Filha de um pesquisador apaixonado pela Guerra do Contestado, ela percorreu cidades do interior de Santa Catarina para entregar exemplares do livro que o pai dedicou mais de 50 anos para escrever sobre um dos conflitos mais marcantes, e menos conhecidos, da história do Brasil. No texto, ela compartilha a emoção da viagem, os encontros pelo caminho e a sensação de cumprir um desejo que o autor não teve tempo de realizar em vida.
No interior de Santa Catarina, em meio a morros e estradas sinuosas, escondem-se municípios que foram cenários de uma guerra que o Brasil esqueceu, pouco se falou sobre essa revolta popular país afora. Pois meu pai, descendente de italianos, nasceu nessa região, a terra contestada, e durante toda sua vida leu de forma ávida sobre o assunto, buscando livros em sebos e bibliotecas do Exército e pouco antes de falecer deixou pronta sua versão sobre a Guerra do Contestado. Ele não conseguiu ver o livro publicado, mas fizemos isso por ele e decidi ir até às cidades levar sua obra À Sombra das Araucárias- Contestado: a guerra camponesa no Sul do país.
O livro tem mais de 400 páginas, fruto de mais de 50 anos de estudos. Minha ideia foi entregar nas bibliotecas e museus das cidades onde houve batalhas e também levar todas essas obras que meu pai foi adquirindo ao longo de décadas. Entregá-las foi um dos momentos marcantes e que conto adiante.
Assim como a Guerra de Canudos, a do Contestado teve elementos de insatisfação popular com um novo jeito de governar, com o fim da Monarquia e a chegada da República, e uma influência messiânica. Só que no interior catarinense houve um elemento a mais, o desterro com a perda de áreas doadas pelo governo para a companhia estrangeira que abriu caminhos e instalou a ferrovia São Paulo Rio Grande, uma modernidade que custou caro para os moradores e para a natureza, com a retirada em larga escala das araucárias para uso e venda da madeira.
No caso da guerra do interior da Bahia, talvez pela relevância do estado na época, Euclides da Cunha fez a cobertura como jornalista e deixou o clássico Os Sertões. Lendo o livro do meu pai, me lembrei de Cem Anos de Solidão e confirmei que a realidade sempre é mais fantástica.
Comecei minha jornada por Irani, onde houve a primeira batalha, em 1912- a guerra durou 4 anos. Já na entrada da cidade dá para ver como o confronto é uma marca na região, como uma ferida permanentemente aberta. Ali, logo na chegada há um museu, uma casa antiga de madeira, cheia de fotos e materiais, como roupas e armas. Ao lado, há um cemitério de combatentes, onde se vê a ação do tempo, cruzes de madeira desgastadas e lápides de pedra cobertas de vegetação.
Perto dali, foram mantidos locais onde houve as batalhas. As pessoas podem percorrer os trechos, há placas informando os confrontos. O visitante se vê no front. A história dessa guerra envolve a liderança religiosa de três homens, o primeiro e verdadeiro monge José Maria; um segundo, que participou do começo das batalhas, morreu em Irani e prometeu ressuscitar e o terceiro, que captou a revolta popular e teve maior influência no acirramento dos ânimos.
É uma história com tantas camadas, que sequer imaginava me surpreender tanto, já que desde pequena ouvia sobre o tema, sobre os livros que meu pai lia, as descobertas que fazia, as obras raras que conseguia. Acho que conhecer profundamente a Guerra do Contestado tenha sido sua grande busca, por isso foi tão importante ir até às cidades levar sua obra e, no final das contas, descobrir mais sobre a região onde nasceu, as cidades que percorreu, os hábitos e a cultura.
Em Campos Novos descobri uma cidade linda, uma praça central, a igreja, ruas e calçadas limpas, clima frio. Deixei os livros no Museu Histórico e Arqueológico Sebastião Paes de Almeida, um lugar cheio de referências históricas e das tradições locais.
Dali, segui para Curitibanos, a cidade mais importante da região. Por ali passaram, no século 18, tropeiros que transitavam com mercadorias e gado. Por volta de 1840, a cidade foi campo de batalha na Revolta Farroupilha e local onde foi presa Anita Garibaldi — há até um local no meio de uma mata que é um marco dessa batalha, o Capão da Mortandade.
Na Guerra do Contestado, os camponeses incendiaram prédios e se alojaram no que era uma vila, expulsando moradores. A igreja de madeira foi preservada e no mesmo local foi erguida a matriz da cidade. Ao lado está o Museu Antônio Graneman de Souza, um sobrado lindo, com objetos dos primeiros moradores e muitas armas antigas utilizadas nas batalhas. Vi um obus, arma que lembro que meu pai descreve no livro.

Nesse ponto da viagem, vivi uma experiência incrível. Eu e meu marido fomos recepcionados pelo responsável pelo museu, Antônio Carlos Popinhaki, que contou a história da cidade. Seu entusiasmo me fez contar a ele que eu tinha no carro uma caixa cheia de livros antigos sobre a Guerra que meu pai adquiriu ao longo da vida e que gostaria que escolhesse alguns. Foi uma alegria ver o quanto ficou satisfeito ao ver obras raras, que o ajudariam a aprofundar seus estudos.
A próxima parada foi em Lebon Régis (SC), onde descobri o quanto a comunidade ainda é envolvida com as memórias sobre a guerra. As crianças têm uma semana de atividades na escola; até um documentário conseguiram fazer, e ele entrou no Globoplay.
Moradores me contaram que antepassados participaram do combate ou ainda que famílias fugiram com crianças por medo, atravessando rio com elas para buscar um lugar seguro. Muitos perderam as áreas que possuíam. Ali, vi que ainda dói para muitos lembrar da batalha, mais de um século depois. A comunidade é unida em torno da memória, com pontos demarcados no campo para lembrar onde houve confrontos.
Na vizinha Caçador está o principal museu da Guerra do Contestado, instalado dentro da antiga estação ferroviária. É até curioso, porque a chegada do trem, com a perda das áreas pelos colonos para a companhia estrangeira, foi um dos principais pontos para a revolta. Ali ficou a caixa com os livros que ainda restavam de uma vida inteira de leituras do meu pai.
O monge, seja o primeiro ou os dois que vieram depois e participaram da guerra, segue cultuado até hoje pelas comunidades. Em Fraiburgo há uma gruta dentro da cidade em homenagem ao homem que ouviu todas as queixas e acolheu as pessoas. Ali se formou o Reduto do Taquaruçu, um dos locais onde o terceiro monge e seus seguidores se esconderam durante as batalhas.
Um vale, um rio, o trem – A pequena Ibicaré, de pouco mais de 3 mil habitantes, foi a última cidade da jornada. Meu pai nasceu em um distrito, Vista Alegre. Fui à prefeitura, entreguei livros para ficarem na biblioteca, do ex-morador que partiu cedo para estudar em seminários, como era tradição nas famílias de imigrantes italianos. A prefeitura e a escola são belos prédios antigos em pleno processo de recuperação.

Vi a velha estação ferroviária que meu pai descreve no livro, nas memórias de sua primeira ida à cidade. Daquele local, nunca se esqueceu da imagem da infância e que o acompanhou até o fim: da locomotiva cuspindo fagulhas e fumaça e avançando no vale, trazendo progresso, mas também um preço alto pago pelos camponeses que estavam onde passariam os trilhos. Cena que ele eternizou em seu livro.
Turismo da melhor qualidade – Embora minha viagem tenha sido para cumprir uma missão, de entregar o livro do meu pai e todo seu acervo sobre a Guerra do Contestado ao lugar que melhor pode utilizá-lo, pude conferir como a região é rica em opções de turismo, inclusive para conhecer a história da guerra e os fronts de batalha. Para além disso, é como se fosse uma viagem a pequenas cidades da Europa. Clima frio, construções antigas preservadas, montanhas, pinheiros, até plátanos com as folhas avermelhadas com o clima ameno pude ver. Comi pinhão, joelho de porco, queijo e salames coloniais, geleias rústicas ou chimias como os alemães chamam, e eu sempre ouvia essa palavra quando ia e ficava na parte da família que é de origem germânica.
Fraiburgo surgiu com a chegada de uma família francesa, que primeiro explorou a atividade madeireira, mas depois decidiu apostar na cultura da maçã. Para isso, trouxe um agrônomo francês. Para atender ao desejo da família, ele construiu uma casa que é um pequeno castelo e hoje sedia um hotel boutique exatamente com esse nome. Um lugar lindo, aconchegante, com aquecimento e um jardim totalmente encantador, com cenários no estilo do Jardim de Giverny, de Monet, ou mesmo da sacada de Julieta, em Verona, para casais e realização de cerimônias. A cidade tem um lago imenso, a biblioteca parece uma casa de bonecas.

As cidades ficam a curta distância umas da outras; é possível escolher um ponto para hospedagem e passear pelas vizinhas. Em Videira há a tradição vinícola. Um museu conta a história do vinho e da produção artesanal, como meu avô fazia no porão da sua casa, na mesma região, com barris, gamelas de madeira para amassar a uva com os pés. A própria casa de madeira que abriga o museu é uma beleza, com sótão e porão.
Ao lado, uma ampla praça com a Igreja Matriz Imaculada Conceição, construção belíssima da década de 1940. A mim, pareceu ser a cidade com a melhor experiência gastronômica, com restaurantes e bistrôs à margem do Rio do Peixe na antiga e belamente reformada estação ferroviária. Na estrada, há vinícolas para serem visitadas.
Em Joaçaba (SC), outra cidade que se espalhou em meio a morros, no topo de um deles há o monumento em homenagem ao Frei Bruno, uma estátua de 37 metros, de onde se tem uma vista da região. Lembro-me de que meu pai contava sobre a fama do frei alemão de se teletransportar: as pessoas o viam na estrada a pé e, quando chegavam, ele já estava dentro da cidade.
Mas a cidade mais turística da região é Treze Tílias, formada por famílias austríacas que decidiram se mudar para o Brasil nos anos 1930, vieram de navio em pelo menos 6 viagens. Toda a arquitetura da cidade lembra a região do Tirol, com muita madeira. A cidade, inclusive, é famosa por ter vários escultores. Ali, há cervejarias, artesanato de madeira, queijos coloniais, licores de frutas, cucas e outras guloseimas típicas. Não tem tantos atrativos como Gramado ou Campos do Jordão, mas é uma bela cidade serrana, onde se percebe o valor da cultura original e chama atenção a receptividade com que recebem quem quer conhecer a história da cidade e de seus moradores.
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