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Comportamento

Eduardo e Agenor somam 102 anos de trabalho na mesma empresa

Agenor celebra 5 décadas na Sanesul; Eduardo troca o uniforme para se despedir após 52 anos de trajetória

Por Thailla Torres | 06/08/2026 09:27
Eduardo e Agenor somam 102 anos de trabalho na mesma empresa
Eduardo Rodrigues soma 52 anos de empresa e prepara a despedida em outubro. (Foto: Osmar Veiga)

Há algumas semanas, Eduardo Rodrigues começou a chegar ao trabalho com camisetas diferentes. Em vez do uniforme que vestiu durante mais de meio século, escolhe uma peça comum, dessas que qualquer pessoa usaria para sair de casa. Parece um detalhe, mas é parte de um treinamento emocional.

RESUMO

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Eduardo Rodrigues, 75 anos, e Agenor Vicente Martins, 70, somam juntos 102 anos de serviço na Sanesul, empresa de saneamento de Mato Grosso do Sul. Eduardo se prepara para deixar a empresa em outubro, enquanto Agenor afirma querer continuar enquanto tiver saúde. Ambos defendem que a experiência de trabalhadores mais velhos é um patrimônio que não deve ser desperdiçado pelas empresas.

Aos 75 anos e com mais de 52 anos dedicados à Sanesul, ele já tem data para deixar a empresa: outubro. Até lá, tenta se acostumar com a ideia de que, em breve, não precisará mais escolher a roupa de trabalho na noite anterior.

“Eu estou até deixando de usar o uniforme da empresa. É para ir me acostumando”, conta.

No mesmo setor está Agenor Vicente Martins, de 70 anos, que acaba de completar 50 anos na mesma empresa. A data rendeu festa, balões, presentes e homenagens dos colegas e da chefia. Diferentemente de Eduardo, Agenor ainda evita pensar em despedida.

“Enquanto eu tiver força e saúde para trabalhar, quero ficar até o fim”, afirma.

Eduardo e Agenor somam 102 anos de trabalho na mesma empresa
Pontual e dedicado, Agenor diz que vestir a camisa fez diferença na carreira. (Foto: Osmar Veiga)

Somado, o tempo de empresa dos dois chega a 102 anos. Como resume Eduardo, juntos eles carregam mais de um século de trabalho. Mas a história não se explica apenas pelos números. Entre hidrômetros, redes de água, mudanças políticas, madrugadas de serviço e amizades espalhadas pelo Estado, os dois construíram também uma maneira de enxergar o trabalho.

Agenor entrou na empresa em 1976, quando ainda tinha 19 anos e o serviço de saneamento de Campo Grande era ligado à prefeitura. Na carteira profissional, há somente dois registros: um período de seis meses como vendedor da Coca-Cola e, depois, o emprego que mantém até hoje.

Ele havia acabado de sair do Exército quando pediu ajuda a um cunhado para conseguir trabalho. Foi apresentado a um chefe e começou praticamente no dia seguinte.

“O chefe nem perguntou o meu nome. Só falou para a equipe: ‘Ele vai trabalhar com vocês’. Eu disse que precisava avisar na Coca-Cola, e ele respondeu: ‘Depois você passa lá e avisa’.”

Eduardo e Agenor somam 102 anos de trabalho na mesma empresa
No laboratório, Agenor celebra cinco décadas dedicadas à mesma empresa. (Foto: Osmar Veiga)

Agenor começou como motorista e viveu uma rotina pesada. Em algumas épocas, trabalhava até perto da meia-noite e voltava ao serviço poucas horas depois. Chegou a pensar que não conseguiria continuar, mas ouviu do chefe que precisava aguentar mais um pouco.

“Aguentei, e as coisas melhoraram.”

Em 1990, foi para o laboratório de hidrômetros. Atualmente, atua na parte administrativa do setor, acompanhando os equipamentos que chegam de fábrica e precisam passar por testes antes de serem encaminhados aos municípios.

Foi dentro da empresa, como gosta de dizer, que criou as filhas Maiara e Fernanda. Também foi ali que atravessou mudanças na estrutura do saneamento, viu Campo Grande deixar de ser atendida pela estatal e acompanhou a expansão dos serviços no interior.

“Eu cresci junto com a Sanesul e criei minhas duas filhas aqui dentro. Para mim, é um orgulho muito grande. Eu tenho duas famílias: uma em casa e outra aqui.”

O casamento com Regina dura 47 anos. O “casamento” com a empresa já chegou aos 50. Em ambos, brinca, continua fiel.

Eduardo e Agenor somam 102 anos de trabalho na mesma empresa
Eduardo ajudou a desenvolver processos que ainda fazem parte da rotina da empresa. (Foto: Osmar Veiga)

Já Eduardo vive uma despedida ensaiada e ele chegou à empresa ainda mais cedo na história. Nascido em Campinas (SP), trabalhava desde os 7 anos e, antes de entrar no saneamento, era repositor de mercado.

Quando começou, ouviu que não suportaria o trabalho pesado. Era auxiliar de encanador e passava os dias abrindo valas, quebrando asfalto e retirando paralelepípedos. Em algumas noites, voltava para casa sem conseguir fechar as mãos por causa do impacto da picareta.

“Eu sofri para poder me adaptar. Tinha dia em que chegava em casa e não conseguia fechar a mão.”

Uma das lembranças é de um serviço na Rua Cândido Mariano. Sob o asfalto, a equipe encontrou uma antiga camada de paralelepípedos. Como as pedras precisavam ser retiradas inteiras, a vala ficou maior e o trabalho seguiu até as 22h.

Eduardo também acompanhou obras que mudaram a paisagem de Campo Grande. Recorda a canalização da Rua Maracaju e uma época em que a enxurrada invadia comércios e carregava até botijões de gás.

“A maioria dos moradores de Campo Grande não conhece como eram as enchentes na Maracaju. Hoje, as pessoas passam por ali e nem imaginam.”

Eduardo e Agenor somam 102 anos de trabalho na mesma empresa
Antes de começar o expediente, Eduardo mantém o hábito diário da leitura da Bíblia. (Foto: Osmar Veiga)

Dentro do laboratório, ajudou a desenvolver e aperfeiçoar processos relacionados à medição de água. Agora, antes de sair, treina dois funcionários para que o conhecimento acumulado não vá embora com ele.

“Eles vão receber tudo o que eu sei. Só não sei se vai dar tempo de recolher todas as informações.”

Eduardo já estava aposentado havia quase 18 anos, mas permaneceu trabalhando. Em outubro, ao completar a idade limite, terá de deixar definitivamente a rotina. A preparação começou pela camiseta.

Curiosamente, durante as férias, ele faz questão de se manter distante. Se precisa passar pela região da empresa, muda até o caminho. É a maneira que encontrou de separar as coisas. Mas sabe que, quando outubro chegar, o afastamento será diferente. A empresa não estará esperando por ele após 30 dias.

A dificuldade de parar não está ligada somente ao salário. Para Agenor, levantar cedo, tomar café e vestir a roupa de serviço são partes da própria identidade. Sem isso, teme não saber o que fazer com as horas.

“Às vezes, chega o domingo e eu já não vejo a hora de chegar segunda-feira para vir trabalhar. O que me preocupa é o dia em que eu tomar café e não puder mais vestir a roupa para vir ao serviço.”

Ele já viu colegas se aposentarem cheios de planos e, pouco tempo depois, enfrentarem a tristeza provocada pela perda da rotina. Por isso, admite que ainda não está preparado para passar as manhãs sentado em uma cadeira.

Eduardo e Agenor somam 102 anos de trabalho na mesma empresa
No laboratório, Agenor celebra cinco décadas de dedicação. (Foto: Osmar Veiga)

Agenor também teve oportunidades de aderir a programas de desligamento voluntário, mas nunca considerou a ideia.

“Isso nunca entrou na minha cabeça. Enquanto eu conseguir trabalhar, tiver força e saúde, quero continuar.”

Agora, observam uma geração que troca de emprego com mais frequência e mantém relações profissionais cada vez menos duradouras.

Para Agenor, o segredo está em assumir responsabilidades e valorizar a oportunidade.

“É vestir a camisa da empresa, assumir as funções com determinação e responsabilidade. Não é trabalhar para se matar, mas trabalhar e fazer bem feito.”

Eduardo acrescenta outra qualidade: saber ouvir.

Durante os cursos que fez pelo país, conta que costumava permanecer em silêncio. Alguns colegas perguntavam se ele era mineiro, por falar pouco. A resposta era simples: estava ali para coletar informações.

“Se você me passar algo que eu já sei, talvez eu consiga dar um retoque e melhorar. Mas, se eu deixar você falar, pode me passar muito mais do que eu preciso aprender.”

Para ele, receber orientação não deve ser interpretado como diminuição.

“Quando você é comandado por alguém que está fazendo você crescer, isso é maravilhoso. Você pode aprender com pessoas que têm mais experiência e levar isso para a vida toda.”

Eduardo e Agenor somam 102 anos de trabalho na mesma empresa
Agenor acena para mais um dia de trabalho, rotina que mantém há 50 anos. (Foto: Osmar Veiga)

Experiência não tem data de validade

A permanência de Agenor e Eduardo também chama atenção em um mercado no qual profissionais acima dos 50 anos frequentemente precisam provar que ainda são capazes. Enquanto empresas discutem inovação, produtividade e tecnologia, trabalhadores mais velhos continuam sendo descartados justamente quando acumulam mais conhecimento.

Eduardo reconhece que a tecnologia mudou os processos e eliminou determinadas funções. Mas argumenta que, em áreas como o saneamento, equipamentos modernos não substituem completamente a experiência humana.

“Uma das coisas mais importantes que existem é o conhecimento. As pessoas mais velhas têm muito conhecimento. Se você explorar isso, terá informações muito ricas para alimentar quem está começando agora.”

Para ele, manter pessoas mais velhas no mercado não é apenas oferecer uma oportunidade individual. É impedir que décadas de conhecimento desapareçam sem serem transmitidas.

Agenor acredita que a idade nunca o afastou porque continuou demonstrando disposição. Aos 70 anos, mantém o rigor com os horários e se incomoda quando não consegue concluir uma tarefa.

“Antes que o chefe precise me chamar a atenção, eu quero fazer bem feito.”

Nenhum dos dois apresenta a própria trajetória como receita universal. Eles sabem bem que os tempos mudaram, assim como as relações de trabalho. Permanecer meio século em uma empresa não depende apenas da dedicação do funcionário, mas também de encontrar um ambiente que reconheça seu valor e permita que ele continue crescendo.

Agenor diz que os colegas e as chefias sempre o respeitaram. Das viagens ao interior, guardou amizades que reaparecem todos os anos durante a festa da empresa.

“Quando chego à festa, tenho que cumprimentar um por um. Essa amizade é outra riqueza que construí aqui.”

Eduardo levará consigo as obras que ajudou a realizar, os processos que desenvolveu e as informações que tenta, agora, repassar aos colegas. Agenor continuará chegando cedo, morando a apenas seis quadras do trabalho e esperando que a segunda-feira não demore.

Em outubro, um deles finalmente guardará o uniforme. O outro ainda seguirá vestindo o seu. Antes da despedida, porém, Eduardo faz um pedido às empresas:

"Eu só acho que envelhecer não apaga a capacidade de produzir, ensinar e encontrar sentido no que se faz", finaliza.

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