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Diversão

Sem espaço, produtores culturais veem no Morenão chance de virada

Expectativa é de avanço com organização, investimento e diálogo entre setores

Por Thailla Torres | 28/03/2026 07:10
Sem espaço, produtores culturais veem no Morenão chance de virada
Arquibancadas do Morenão mostram sinais de desgaste após anos sem uso regular. (Foto: Osmar Veiga)

A retomada do Estádio Morenão pelo Governo do Estado, anunciada nesta semana, reacendeu uma discussão antiga em Campo Grande: por que a Capital ainda não consegue entrar de vez na rota dos grandes shows nacionais e até internacionais?

Para além da expectativa em torno da reativação do estádio, produtores culturais que atuam há anos, alguns há décadas, na cidade apontam um problema recorrente: falta de estrutura. Ou, mais especificamente, falta de um espaço adequado.

A reportagem ouviu nomes que movimentam diferentes cenas, do rock ao sertanejo, passando por MPB, pagode, funk e hip hop. A leitura é praticamente unânime: Campo Grande tem público, tem demanda, tem produtores muito interessados, mas ainda esbarra em gargalos que vão da infraestrutura à logística.

“Sem dúvida, falta espaço adequado”

Para Gustavo Arruda, o Cegonha, produtor cultural conhecido na cidade, o diagnóstico é direto. “Sem sobra de dúvida, o maior desafio é a falta de um espaço adequado, que tenha facilidade de logística de fluxo das pessoas e, principalmente, que seja legalizado pelos órgãos competentes”, afirma.

A avaliação é compartilhada por Valter Júnior, da Santo Show, que neste ano encara o desafio de trazer o Guns N’ Roses para Campo Grande, apostando em uma megaestrutura no Autódromo.

“Falta um espaço apropriado para receber grandes eventos, com estacionamento, logística de chegada, banheiros, piso, uma série de fatores. E o principal deles é um estádio, tanto para a parte esportiva quanto para eventos culturais”, pontua Valter.

Já Marcus Barão, da ABP Eventos, detalha o impacto prático dessa ausência. “Hoje não há uma casa de shows estruturada. No Bosque dos Ipês, por exemplo, você tem espaço, mas não tem estrutura. Precisa montar tudo: camarim, iluminação, palco. O mesmo acontece em buffets e outros locais. Isso encarece muito o evento”, explica.

Além disso, ele chama atenção para outro gargalo pouco discutido: a logística aérea.

“Não temos voo direto do Rio de Janeiro para Campo Grande. Isso encarece muito. Hoje, só de passagem aérea, você dificilmente faz um show com menos de R$ 100 mil. Fora transporte de cenário, equipamentos...”, completa.

Burocracia, custos e desânimo

Para Jean Medina, o Paçoca, produtor de eventos de pop, funk e hip hop, o problema vai além da estrutura física. “A maior dificuldade é a burocracia e o alto custo na emissão de alvarás. Isso desanima empresários e faz casas de shows fecharem. São poucos locais regularizados para grandes eventos”, afirma.

Patrick, da 93 Produções, acrescenta outro ponto: a falta de espaços intermediários. “Hoje a gente não tem lugares para eventos de mil, duas mil pessoas. E quando encontra, é impagável. Estou há seis meses tentando modelar um show e não consigo viabilizar”, relata.

Ele faz uma conta simples para ilustrar o cenário: “Se você tem mil pessoas pagando R$ 100, são R$ 100 mil bruto. Dependendo da banda cobra R$ 60 mil. Sobram R$ 40 mil, e ainda tem hotel, passagem, imposto. A conta não fecha.”

Cidade perde shows e dinheiro

A consequência disso é clara: Campo Grande fica fora do circuito. “A falta desse espaço implica na retirada da cidade da rota dos grandes eventos turísticos e de negócios. Isso impacta diretamente a economia, hotéis, restaurantes, empregos”, afirma Cegonha.

Valter reforça: “Campo Grande vem perdendo há muito tempo grandes eventos e grandes jogos. E o impacto econômico de um evento desse porte é absurdo.”

Para Paçoca, o reflexo é visível no calendário. “Dá para contar no dedo os grandes shows que temos ao longo do ano.”

Patrick amplia a análise para além do entretenimento. “Quando você limita eventos, você limita o consumo de cultura, a circulação de pessoas, o crescimento da cidade. Isso afeta todo o giro econômico”, diz.

Sem estrutura fixa, produtores se adaptam como podem. “Ficamos reféns das agendas dos poucos espaços disponíveis. Conciliar data de artista com espaço é um dos primeiros desafios”, explica Cegonha.

Na prática, isso significa improviso. “Hoje usamos autódromo, espaços abertos, áreas de eventos, estruturas temporárias. Mas sempre falta alguma coisa: conforto, logística ou estrutura técnica”, diz Marcos Yule, da F5 Produções. “O custo sobe muito para adaptar esses lugares. Isso encarece o evento e limita o que dá pra trazer.”

Valter resume: “O melhor espaço hoje é o Bosque Expo do Bosque dos Ipês, mas ele também é limitado pela capacidade.”

E Paçoca completa: “Eu continuei fazendo eventos, mas precisei diminuir estrutura. Eventos de 10 mil pessoas, como já fiz no autódromo, hoje estão difíceis.”

Sem espaço, produtores culturais veem no Morenão chance de virada
Gramado tomado pela vegetação evidencia o abandono do estádio nos últimos anos. (Foto: Osmar Veiga)

Morenão pode ser a virada, mas não sozinho

A possível reativação do Morenão surge, então, como esperança, mas com ressalvas.

“Com certeza o Morenão pode se tornar um dos melhores espaços para grandes eventos, como acontece em estádios no mundo todo. Mas precisa estar adequado e sem entraves burocráticos”, afirma Cegonha.

Para Barão, o caminho passa por adaptar o modelo de arenas multiuso. “Hoje existem soluções para proteger gramado, melhorar acústica e receber shows. Se isso fosse aplicado no Morenão, seria perfeito.”

Patrick aprofunda essa visão com uma proposta mais estrutural. “Se você reativa um estádio, ele tem um competidor natural, que é o futebol. Então precisa de uma administração híbrida, com alguém que entenda de esporte e alguém que entenda de eventos”, defende.

Ele também destaca que o problema não é apenas a estrutura física. “A falta de estrutura não é tanto problema. A falta de conversa, sim. É preciso diálogo.”

Além disso, ele aponta outros pontos essenciais: estacionamento, segurança, cobertura de gramado, iluminação e organização do trânsito. “Agetran, Prefeitura, todo mundo precisa estar preparado. Não pode haver falhas.”

Para os produtores, o debate vai além do Morenão. “Campo Grande tem Morenão, Jacques da Luz e Guanandizão. Se bem administrados, dá para trazer 20, 30 shows por ano”, afirma Patrick.

Marcos Yule reforça a importância da gestão. “Não é só estrutura. É gestão profissional, calendário organizado e abertura para o mercado. Isso faz toda a diferença.”

Já Cegonha aponta que falta também visão estratégica do poder público. “A classe produtora precisa ser vista como setor que fomenta a economia. São Paulo investe em grandes eventos, o Rio contrata atrações internacionais. Campo Grande pode entrar nesse circuito.”

Barão completa com outro ponto-chave: “A gente precisa melhorar a malha aérea. Ter voos diretos ajudaria muito a reduzir custos e atrair grandes produções.”

Sem espaço, produtores culturais veem no Morenão chance de virada
Operário em campo; expectativa de time é também jogar em casa e ver Morenão lotado de público(Foto: Felipe Surto)

Já no esporte e na visão de quem vê a bola rolar, a expectativa também é alta. Para Eduardo Maluf, agente exclusivo e diretor de negócios do Operário MS SAF (Sociedade Anônima de Futebol), o Morenão é um símbolo e uma necessidade prática. “Primeiro que é um patrimônio histórico do nosso País. Eu torço muito para que esse projeto dê certo. Falando do Operário, a gente precisa de um espaço, da nossa casa. Fizemos 4 ou 5 jogos fora porque aqui não tinha lugar”, relata. Para ele, a reestruturação do estádio precisa priorizar o esporte, sem perder a dimensão coletiva do espaço. “Eu defendo que ele seja preparado para o esporte, mas a simbologia do Morenão engloba tudo e todos”, completa.

Na mesma linha, o presidente do Comercial, Marlon Brandt, aponta que a situação do esporte em Campo Grande reflete um problema que se arrasta há anos. “Para nós, campo-grandenses, nos últimos 20 anos estamos assistindo a um descaso total do poder público em relação ao setor de eventos e ao esporte profissional. A cidade não oferece estrutura”, afirma.

Ele lembra que o crescimento da Capital não foi acompanhado por investimentos em espaços esportivos. “Quando Campo Grande tinha 500 mil habitantes, tínhamos um estádio. Hoje, com quase um milhão de pessoas, não temos um palco para jogar”, diz.

Para Marlon, a retomada do Morenão representa uma mudança de perspectiva. “O governador Eduardo Riedel e o secretário Marcelo Miranda demonstram uma visão de futuro, e a gente está apostando nisso. O futebol profissional não tem como sobreviver como está hoje”, pontua.

Segundo ele, a falta de estrutura impacta diretamente o desempenho dos clubes. “Os times são cobrados por resultados, mas fica difícil sem ter um estádio adequado. Campo Grande talvez seja uma das únicas capitais do país sem um espaço com capacidade para mais de 20 mil pessoas”, ressalta.

A expectativa agora é que o Morenão volte a cumprir esse papel. “Já passou do ponto. Estamos aguardando ansiosos por esse retorno, para dar ao torcedor uma condição mínima de ir ao estádio”, afirma.

Marlon também destaca que o problema vai além da Capital e afeta todo o Estado. “Os clubes do interior sentem isso. A capital precisa ser referência, e Campo Grande não é há pelo menos 20 anos”, diz.

Além do impacto esportivo, ele reforça o potencial da cidade para grandes eventos. “Temos uma logística privilegiada, estamos no centro do Brasil, a uma hora e meia de São Paulo de avião. Isso é muito favorável ao esporte profissional e também ao setor de eventos”, explica.

Por fim, ele defende que a reativação do Morenão pode impulsionar o futebol local. “Os clubes maiores preferem jogar aqui, mas precisamos de um palco à altura. Um estádio que seja um marco para Campo Grande e que ajude a embalar a torcida e fortalecer o nosso futebol”, conclui.

Sobre o Morenão - Depois de passar 4 anos fechados, sob completo abandono, a UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) deve repassar oficialmente na próxima terça-feira (31), às 14h, a concessão do Estádio Pedro Pedrossian, o Morenão.

De acordo com o presidente da FFMS (Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul), Estevão Petrallas, a cerimônia de assinatura do termo será realizada na Governadoria, com a presença da reitora da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), Camila Ítavo, e do governador Eduardo Riedel (PSDB-MS), além do secretário Marcelo Miranda, da Setesc (Secretaria de Estado de Turismo, Esporte e Cultura).

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