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Política

“Crime organizado injeta dinheiro em candidaturas na fronteira”, diz secretário

Videira afirma que facções tentam se infiltrar nas eleições para ampliar poder político e territorial.

Por Vasconcelo Quadros, de Brasília | 12/05/2026 17:00
“Crime organizado injeta dinheiro em candidaturas na fronteira”, diz secretário
“O crime organizado se sofisticou e o combate precisa ser ainda mais inteligente”, afirma o secretário Antonio Carlos Videira durante entrevista exclusiva ao Campo Grande News.

Com uma fronteira por onde se estima que passaram cerca de 40% das 117,4 toneladas de cocaína apreendidas no Brasil em 2025, Mato Grosso do Sul se consolida como corredor de drogas destinadas ao exterior e ao mercado interno, realidade que coloca o Estado entre os principais alvos da ofensiva contra o crime organizado anunciada pelo governo federal nesta terça-feira (12).

RESUMO

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Mato Grosso do Sul concentra cerca de 40% das apreensões de cocaína do Brasil em 2025 e figura entre os principais alvos do programa federal de combate ao crime organizado. O secretário de Segurança Antonio Carlos Videira defende integração entre forças policiais, inteligência e educação como pilares do enfrentamento ao tráfico. Ele alerta que PCC e Comando Vermelho infiltram-se na economia formal e financiam campanhas eleitorais na região de fronteira.

O secretário de Justiça e Segurança Pública do Estado, Antonio Carlos Videira, reconhece o desafio, mas afirma que a resposta estatal deve combinar inteligência, integração entre forças de segurança em todos os níveis, orçamento para repressão e educação na base da pirâmide social como alternativa de prevenção ao consumo.

Nesta entrevista exclusiva ao Campo Grande News, o secretário diz sem rodeios que organizações criminosas como PCC e Comando Vermelho enxergam a fronteira como ponto estratégico para seus negócios, infiltram-se na economia formal e investem em campanhas eleitorais.

“Mato Grosso do Sul possui fronteiras importantes e as facções têm interesse em dominar cidades-gêmeas e áreas limítrofes para exercer influência política e econômica”, afirma. Videira alerta ainda que a maior parte das armas que abastecem facções e milícias no Rio de Janeiro e São Paulo, ao contrário do senso comum, entra por portos, e não pela fronteira seca. Veja a entrevista.

Que avaliação o senhor faz do programa Brasil Contra o Crime Organizado?

Primeiro, a gente destaca o volume de recursos e a ampliação orçamentária. O Fundo Nacional de Segurança sempre foi superavitário, mas faltava orçamento. Quando vemos uma ampliação que garante mais recursos para os estados, isso é muito importante, principalmente para estados de fronteira como Mato Grosso do Sul. Com investimentos, inteligência e integração entre forças estaduais, federais e municipais, você consegue mais efetividade no combate ao crime organizado.

O senhor considera que o eixo voltado às fronteiras é um dos mais importantes do programa?

Sem dúvida. É fundamental enfrentar o tráfico de armas e drogas, mas também conter o crime dentro do sistema penitenciário. Mato Grosso do Sul tem uma das maiores populações carcerárias do mundo proporcionalmente, muito em razão dos crimes transfronteiriços, como tráfico, contrabando e descaminho. Por isso, investimentos no sistema prisional, especialmente para impedir a comunicação de facções por celulares, são essenciais para a segurança pública.

Mato Grosso do Sul responde por cerca de 40% das apreensões de drogas do país. O que mais precisa ser feito para combater o tráfico de forma mais eficaz?

Quando você investe em tecnologia, inteligência e integração com o governo federal e com países vizinhos, como Paraguai e Bolívia, você fortalece o combate ao crime organizado. Isso precisa vir acompanhado de medidas dentro do sistema penitenciário, dificultando o acesso dos presos a meios de comunicação. Só assim teremos um programa eficiente.

“Crime organizado injeta dinheiro em candidaturas na fronteira”, diz secretário
“Não existe solução simples para um problema tão complexo”, diz Videira ao defender investimentos em segurança, repressão qualificada e educação como barreira ao crime organizado. (Foto Max Arantes)

O senhor acredita que os recursos anunciados produzirão impacto direto nas operações de fronteira?

Já estão tendo. Mato Grosso do Sul vai receber mais de R$ 10 milhões para custeio de diárias operacionais em ações nas fronteiras, divisas e no combate a crimes ambientais e violência contra a mulher. Além disso, chegam equipamentos para bombeiros, polícias e perícia. Quando o governo federal compra em grande escala, reduz custo, padroniza produtos e acelera a entrega. Isso gera mais eficiência para a segurança pública.

O Estado também pretende acessar os financiamentos anunciados pelo governo federal?

Mato Grosso do Sul já vem investindo muito. Em junho, o governador vai entregar mais de R$ 110 milhões em viaturas, armas, munições e coletes balísticos para todos os municípios. Com apoio federal no custeio das operações, conseguimos direcionar recursos próprios para melhorar instalações e ampliar investimentos estratégicos, especialmente no sistema penitenciário.

Como o senhor vê hoje a atuação do PCC e do Comando Vermelho na fronteira de Mato Grosso do Sul?

O crime organizado tem interesse estratégico nas cidades de fronteira. Ele busca não apenas controlar rotas de tráfico, mas também exercer influência política e econômica nessas regiões. Mato Grosso do Sul possui fronteiras importantes e as facções têm interesse em dominar cidades-gêmeas e áreas limítrofes.

O senhor afirmou que as armas não entram apenas pelas fronteiras secas. Como funciona isso?

Existe uma ideia de que todas as armas entram pelas fronteiras com Paraguai e Bolívia, mas isso não é verdade. Uma parte significativa chega pelos portos brasileiros. Muitas armas vêm do Oriente Médio, da América do Norte e de outros países fabricantes. Elas entram por portos e aeroportos, além das fronteiras terrestres. Também precisamos controlar armas legais que acabam desviadas para o mercado ilegal.

Qual deve ser a prioridade no enfrentamento ao crime organizado?

Primeiro, integração entre União, estados e países vizinhos produtores de drogas. Depois, descapitalizar o crime organizado. Hoje as facções não vivem apenas do tráfico. Elas estão infiltradas em atividades legais, como distribuição de combustíveis, transporte clandestino, serviços de internet e até contratos públicos. É preciso atacar o dinheiro lavado e os negócios aparentemente lícitos financiados com recursos ilícitos.

O senhor vê risco de interferência do crime organizado nas eleições?

Sim. O próprio presidente Lula mencionou a presença do crime organizado em setores do sistema financeiro, do Judiciário e da política. O crime organizado financia campanhas e prepara lideranças políticas. Em regiões de fronteira isso é ainda mais sensível. As facções têm interesse em influenciar cidades estratégicas e injetam dinheiro em candidaturas para ampliar poder político e territorial.

Além da repressão, quais outras medidas podem ajudar no combate ao crime organizado?

É preciso também reduzir o consumo de drogas e fortalecer políticas públicas. Enquanto houver consumo, haverá produção e tráfico. Isso passa por educação, escola em tempo integral, esporte, cultura e ressocialização. O sistema penitenciário precisa punir, mas também recuperar. Hoje o Brasil ainda não consegue devolver à sociedade uma pessoa melhor do que entrou no sistema prisional. A prevenção pode ser feita pela educação.

Qual o impacto nacional dos investimentos no controle da fronteira de MS?

O que se faz em Mato Grosso do Sul tem reflexo no Brasil inteiro. Investir na segurança pública do Estado é reforçar o combate ao tráfico de drogas, armas e produtos ilícitos destinados principalmente aos grandes centros consumidores do país.