Bactéria que teria contaminado produtos Ypê já causou surto em MS há 23 anos
Anvisa orienta descarte de itens de lotes com final 1 após detectar risco de infecção
O micro-organismo que teria contaminado um lote de produtos da marca Ypê, fazendo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) emitir alerta, é mais comum do que se imagina. A superbactéria provocou um surto de infecções em pacientes do HRMS (Hospital Regional de Mato Grosso do Sul) há 23 anos e, recentemente, causou deformidades no rosto de pacientes que passaram por procedimentos em uma clínica de estética.
RESUMO
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A Anvisa emitiu alerta sobre contaminação por Pseudomonas aeruginosa em produtos da marca Ypê, determinando recolhimento de 24 itens com lotes terminados em 1. A bactéria, resistente a antibióticos, pode causar infecções graves em pessoas imunossuprimidas. Em Campo Grande, a bactéria já causou deformações em pacientes de clínica estética e, em 2003, foi investigada em surto no Hospital Regional com ao menos 31 mortes.
No último dia 7 de maio, a Anvisa determinou o recolhimento de 24 itens da Ypê das prateleiras dos supermercados após identificar risco de contaminação pela bactéria Pseudomonas aeruginosa. A medida atingiu detergentes, sabões líquidos e desinfetantes produzidos pela Química Amparo, fabricante da marca, na cidade de Amparo, no interior paulista.
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Multirresistente a antibióticos e associada a mortes, a Pseudomonas aeruginosa não assustou algumas pessoas, que foram à internet para criticar a suspensão e politizaram a questão sanitária. Mas, segundo a Anvisa, a bactéria preocupa justamente por sobreviver em ambientes hostis e resistir a vários medicamentos, podendo causar infecções graves, principalmente em pessoas imunossuprimidas, hospitalizadas ou com feridas abertas.
No dia 8 de maio, a decisão que interrompia a fabricação e comercialização dos produtos foi temporariamente suspensa após a indústria apresentar recurso administrativo à Anvisa. Apesar disso, o órgão manteve o alerta sanitário e orientou consumidores a não utilizarem os produtos com lotes terminados em número 1, já que havia identificado falhas graves de produção na planta industrial da Química Amparo.
A própria Ypê informou que já havia iniciado, em novembro de 2025, um recall voluntário de alguns lotes de lava-roupas líquidos após identificar a presença da Pseudomonas aeruginosa em produtos específicos.
O biomédico Lucas Zanandrez, do canal “Olá, Ciência!”, no Youtube, explica que a Pseudomonas aeruginosa “é uma bactéria muito comum”. “É conhecida uma das mais resistentes, que sobrevive a superfícies com água sanitária, detergentes e outros produtos industriais de limpeza. Sobrevive em ambiente hospitalar. Então, não é brincadeira”.
Em vídeo no canal, ele esclareceu que o risco da contaminação doméstica levar a quadros graves é baixo, mas não por isso o alerta da Anvisa deve ser ignorado. “Não é uma bactéria que causa problemas graves para pessoas saudáveis, mas é uma bactéria oportunista, então pode ser um problema para pessoas hospitalizadas ou com imunidade baixa. Eu imagino o caso por exemplo o caso de uma mãe que tem uma lava-louças em casa e coloca um sabão da Ypê para lavar mamadeira do seu filho e ali a mamadeira sai infectada. Para um bebê, para uma pessoa que está tratando um câncer, que tem HIV, há risco”.
A agência informou que os consumidores devem procurar o SAC (Serviço de Atendimento ao Consumidor) da fabricante para orientações sobre recolhimento, troca, devolução, ressarcimento e demais medidas relacionadas aos produtos afetados.
Deformações – Em janeiro deste ano, casos de contaminação pela bactéria em Campo Grande foram parar na Justiça. Uma mulher de 41 anos denunciou nas redes sociais ter desenvolvido infecção após realizar aplicação de ácido hialurônico em procedimentos feitos entre setembro e outubro de 2025 numa clínica da Capital sul-mato-grossense.
Segundo a ação judicial, a paciente apresentou uma bolha na testa após a segunda sessão e precisou ser internada, passou por exames e recebeu medicação intravenosa após confirmação de contágio pela Pseudomonas aeruginosa.
A paciente afirma ainda que ficou afastada do trabalho por cerca de 30 dias, teve despesas médicas e ficou com sequelas estéticas. Outra cliente relatou ao Campo Grande News que também apresentou complicações após procedimento realizado pela mesma profissional, incluindo hematomas, dormência e perda de sensibilidade na região do rosto.
Por meio da assessoria jurídica, a clínica informou à reportagem que contesta as acusações da mulher que foi à Justiça e afirmou que toda a assistência necessária foi prestada às pacientes. Ainda não houve decisão judicial.
Mortes – A presença da bactéria em Mato Grosso do Sul remonta a 2003 e 2004. O surto da superbactéria foi registrado no Hospital Regional de Campo Grande. Na época, o MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) investigou ao menos 31 mortes de pacientes contaminados entre janeiro e setembro de 2003.
Relatório da Vigilância Sanitária Estadual apontou a presença da bactéria em lavatórios para mãos e em pia utilizada para preparo de medicamentos. Conforme documentos enviados à Promotoria, 61 pacientes haviam sido contaminados e metade morreu.
À época, a direção do hospital afirmou que a presença da bactéria não significava necessariamente a causa das mortes e declarou que não houve óbitos provocados por infecção hospitalar naquele ano. O caso foi arquivado em 2004 sem conclusão e punições.
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