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Depois dos 50 anos, elas encaram balé e os sonhos deixados para trás

Após décadas longe do balé e do jazz, Luciana e Cecília decidiram recomeçar na meia-ponta

Por Amanda Ferreira | 30/09/2026 06:35
Depois dos 50 anos, elas encaram balé e os sonhos deixados para trás
Cecília Luna deixou a dança na vida adulta, mas, aos 64 anos, decidiu voltar para a sala de balé (Foto: Luiz Donizete)

Quarenta anos separaram Luciana Náglies do último passo de balé da adolescência e de sua volta a uma sala de dança. Aos 56 anos, a psicóloga achou que talvez jazz já não fosse para ela. Cecília Luna, de 64, também havia deixado as sapatilhas para trás durante a vida adulta. Hoje, as duas dividem aulas com mulheres de diferentes gerações em Campo Grande e descobriram que idade, pelo menos naquele salão, não determina quem pode acompanhar a coreografia.

RESUMO

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Aos 56 e 64 anos, Luciana Náglies e Cecília Luna voltaram à dança após décadas afastadas, em aulas de jazz e balé clássico da Cuidarte Dança e Arte, em Campo Grande. Criado pela psicóloga e arteterapeuta Dioneia Dias Rigo, que também retomou o balé aos 56, o espaço reúne mulheres de 20 a 75 anos. Elas relatam acolhimento, respeito aos limites do corpo e ausência de cobrança, além de benefícios emocionais que comparam a uma terapia.

Luciana começou a dançar ainda criança. Dos 9 aos 16 anos, fez balé, mas depois passou 4 décadas afastada. O reencontro aconteceu em um momento que ela descreve como delicado. Em outubro do ano passado, começou pelas aulas de flashback e, posteriormente, recebeu o convite para experimentar o jazz. A primeira reação foi de dúvida.

Depois dos 50 anos, elas encaram balé e os sonhos deixados para trás
Depois de 40 anos longe da dança, Luciana (a esquerda) encontrou nas aulas um reencontro com a paixão que começou ainda na infância (Foto: Luiz Donizete)

“Eu pensei assim: eu, 56 anos, no jazz, junto com meninas de outras faixas etárias? Jamais.  Mas é tudo de bom. Ali a gente se mistura e o que eu vejo é a conexão. O que importa é a conexão de todas”, conta.

Hoje, Luciana é a mais velha da turma de jazz, onde também há mulheres na faixa dos 20, 30 e 40 anos. A diferença de idade que inicialmente provocou insegurança acabou perdendo importância quando ela percebeu que conseguir ou não executar rapidamente uma coreografia não era o que definia sua permanência no grupo.

“Às vezes a gente começa uma coreografia e consegue terminar em 40 minutos. Outras vezes, consegue terminar em um mês. É muito legal ver esse progresso. E não importa a idade. O que importa é a gente querer e estar pronta para o novo.”

A psicóloga conta que não encontrou entre as colegas a cobrança que imaginava que poderia existir em relação ao corpo ou à idade. “Não tem cobrança. O que tem é a conexão entre a gente. Aqui a gente pode rir, brincar, aprender, se divertir, mas a gente dança também".

Depois dos 50 anos, elas encaram balé e os sonhos deixados para trás
Aos 56 anos, Luciana voltou à dança depois de quatro décadas afastada e hoje integra a turma de jazz (Foto: Luiz Donizete)

O jazz trouxe ainda um reencontro com a menina que havia feito balé décadas antes. Luciana lembra que, quando recebeu o convite para a modalidade, a primeira pergunta foi justamente como conseguiria voltar depois de tanto tempo. Bastou a primeira aula para a memória corporal e afetiva aparecer.

“Eu falava: ‘Como que eu, com 56 anos, vou voltar a dançar?’. Mas fui na primeira aula para ver como seria. Quando cheguei e pude reviver aquela minha fase dos 9 aos 16 anos, foi algo que me tocou profundamente. De lá para cá, não consegui faltar mais nenhuma aula”.

Uma lembrança aparentemente simples resume o significado dessa volta. Durante uma aula de jazz, alguém colocou uma música infantil no fim da atividade. Em poucos instantes, a coreografia deu lugar à brincadeira. Luciana se viu dançando e rindo com as colegas e associou aquele momento à própria infância.

“Na hora que nós vimos, a gente estava brincando e dando risada. É algo que te chama para a infância. Me trouxe à existência a Luciana que existia dentro de mim. Porque por 40 anos a Luciana escondeu aquele sonho que tinha com a dança. Hoje eu sonho, hoje eu me vejo, hoje eu danço sem cobrança. Se eu erro, dou risada de mim mesma. E está tudo bem.”

Para Luciana, que trabalha como psicóloga, a dança passou a ocupar um espaço de bem-estar na própria rotina. “Para mim, estar aqui é estar bem, é estar feliz. Se eu pudesse, estaria aqui todos os dias. Foi algo que me fez bem. Eu vejo como uma terapia".

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Aos 64 anos, Cecília Luna retomou o balé clássico e diz respeitar os próprios limites sem abrir mão das coreografias (Foto: Luiz Donizete)

Na ponta do pé - A história de Cecília Luna tem semelhanças. Aos 64 anos e aposentada, ela também conheceu o balé clássico na infância, passou pelo jazz durante a juventude e abandonou a dança na fase adulta. Nesse intervalo, manteve outras atividades físicas, como musculação. Até encontrar uma reportagem sobre a abertura da Cuidarte Dança e Arte.

“Eu vi essa reportagem e fiquei alucinada. Falei: ‘Eu tenho que ir’. Procurei o endereço e fiquei apaixonada. Aqui é uma extensão da minha família”, relata.

Quase um ano depois, Cecília diz ter recuperado movimentos que estavam guardados havia décadas. “Eu recordei os passos todos da minha infância. Para mim, tudo é muito gratificante. É uma terapia fazer o balé. Na minha idade, venho aqui para sorrir, me divertir, me sentir bem e me sentir bela.”

Isso não significa ignorar os limites do próprio corpo. Cecília brinca que não pretende se aventurar nas pontas. “Na ponta ainda não. Na ponta nem dá. Para mim, acho que não é legal. Posso quebrar alguma coisinha aí”, diz, rindo da possibilidade. Fora isso, conta que acompanha as coreografias e já participou de uma apresentação interna.

Depois dos 50 anos, elas encaram balé e os sonhos deixados para trás
Dionéia Dias Rigo criou a Cuidarte após também retomar a dança aos 56 anos; hoje, as aulas reúnem mulheres de diferentes gerações (Foto: Luiz Donizete)

Para ela, um dos obstáculos para mulheres mais velhas começarem ou retomarem a dança está antes mesmo do primeiro passo: acreditar que não conseguirão acompanhar quem é mais jovem. Cecília diz ter encontrado justamente o contrário.

“As pessoas pensam muito: ‘Eu não vou dar conta, não vou acompanhar a coreografia’. Não. É tudo muito calmo e as professoras respeitam a nossa idade, respeitam os nossos limites".

A aposentada também rejeita a ideia de que é preciso ter determinado tipo físico para entrar em uma sala de balé. “Você pode vir, pode estar gordinha, magrinha, você dá conta. As professoras são bem maleáveis e flexíveis nesse ponto.” E Cecília já pensa em estender a relação familiar com a dança para outra geração. A neta tem 4 anos e ela espera o momento de levá-la também para o balé.

Por trás das 2 histórias está outra retomada. A professora Dioneia Dias Rigo também voltou à dança aos 56 anos, depois de um longo período afastada. Segundo ela, o reencontro aconteceu há cerca de um ano, quando encontrou sua primeira professora de balé. Dioneia havia dançado aproximadamente dos 15 aos 30 anos e relata que, naquele momento da vida, enfrentava depressão e ansiedade.

“Um ano atrás eu me reencontrei com minha primeira professora de balé e ela mostrou que a dança ainda estava ali. Eu tinha dançado dos 15 aos 30 anos, mais ou menos, e agora, com 56 anos, com esse ‘start’ que ela me deu, eu recomecei.”

Dioneia é psicóloga e arteterapeuta e conta que, conforme retomava as aulas, decidiu criar um espaço que reunisse conhecimentos dessas áreas e sua experiência com a dança. Assim nasceu a Cuidarte Dança e Arte. A proposta inicial era atender principalmente mulheres acima dos 50 anos, mas a própria procura mostrou que a faixa etária poderia ser bem mais ampla.

“O projeto começou pensando em 50+, mas logo eu vi que tinha um público de 20 a 75 anos. Hoje eu transito em todas as idades, mas o foco é viver o processo e aguardar que o resultado venha. Eu não estou aqui para formar bailarinos. Estou aqui para que a mulher se sinta feliz dançando".

Depois dos 50 anos, elas encaram balé e os sonhos deixados para trás
Entre jazz e balé, mulheres redescobrem na maturidade o prazer de ocupar novamente a sala de dança (Foto: Luiz Donizete)

Na sala, isso significa colocar lado a lado quem dançou na infância e ficou décadas longe, quem nunca fez uma aula e quem ainda carrega inseguranças sobre idade ou corpo. Atualmente, Dioneia oferece modalidades como flashback, jazz e balé clássico e planeja acrescentar uma nova atividade em novembro.

Para a professora, mais importante do que formar bailarinas tecnicamente perfeitas é abrir espaço para desejos que foram adiados durante a vida adulta. “Muitas estão realizando aquele sonho que ficou perdido no meio do caminho. Elas não se permitiam e hoje se permitem ser felizes, vir dançar”.

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