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Comportamento

Do papel à IA, Rose viu 30 anos de mudanças na profissão de secretária

Fichas, carbono e telefone fixo ficaram para trás com a chegada do WhatsApp e dos sistemas digitais

Por Clayton Neves | 30/09/2026 06:02
Do papel à IA, Rose viu 30 anos de mudanças na profissão de secretária
Aos 52 anos, Rosimere segue na profissão e acompanha de perto as novas tecnologias. (Foto: Paulo Francis)

Prestes a completar 30 anos de profissão, Rosimere de Jesus Castro, de 52 anos, viu a rotina de secretária mudar completamente com o passar do tempo. Das fichas de papel preenchidas à mão, ligações pelo telefone fixo e computador de tubo, ela chegou à era do WhatsApp, agendas digitais e inteligência artificial. Transformação que deixou o trabalho dela e de tantas colegas muito mais ágil, mas que também trouxe novos desafios.

A história de Rose com a área começou em 1997, quando conseguiu uma oportunidade em uma clínica de exames de Campo Grande. Indicada por uma amiga, ela entrou para trabalhar com a limpeza, mas foi boa de serviço e subiu de cargo.

“Eu cuidava da limpeza, mas também ficava de olho no movimento da recepção. Observava como as funcionárias atendiam os pacientes, preenchiam documentos e organizavam as coisas”, lembra.

Do papel à IA, Rose viu 30 anos de mudanças na profissão de secretária
Rose no início da carreira, quando ainda trabalhava com fichas e documentos de papel. (Foto: Arquivo Pessoal)

Quando surgiu uma vaga na recepção, o jeito comunicativo chamou a atenção dos colegas. “Eu sempre gostei do público. Por mais que eu seja tímida, que eu morra de vergonha, eu gosto de conversar. Acho que estou na área certa”, conta.

Rose ficou três anos na recepção da clínica. Depois, trabalhou na biblioteca de uma universidade, até receber um convite que mudou o rumo da carreira.

Uma médica com quem havia trabalhado antes entrou em contato porque precisava de uma nova secretária. Esse foi o começo de uma relação profissional que durou 22 anos. “Ela é médica ginecologista, obstetra e atendia gestantes de alto risco. Foi quando realmente virei secretária de médico”, explica.

Do papel à IA, Rose viu 30 anos de mudanças na profissão de secretária
Rose começou em uma época em que quase tudo era feito manualmente. (Foto: Arquivo Pessoal)

Quando tudo era no papel

Hoje, boa parte da rotina cabe dentro de um computador ou celular. Mas nem sempre foi assim. No início da carreira, Rose trabalhava com fichários e fichas individuais dos pacientes. Antes dos atendimentos, era preciso procurar cada documento e deixar tudo separado para o médico.

Os convênios também exigiam uma verdadeira operação manual. Ela lembra das carteirinhas em alto-relevo e das máquinas que usavam papel-carbono para registrar os dados. “Era tudo manual. Você tinha um arquivo de fichas, anotava tudinho e, quando o paciente ligava, ia lá buscar as informações”, lembra.

As guias também eram preenchidas à mão. Depois, vinham as assinaturas, os anexos e a organização dos documentos que precisavam ser entregues aos convênios. “Era muito papel, pilhas e pilhas de papel que você levava no convênio”, pontua.

Do papel à IA, Rose viu 30 anos de mudanças na profissão de secretária
Depois de quase 30 anos, Rose continua trabalhando com o que sempre gostou. (Foto: Paulo Francis)

Com o passar dos anos, os computadores foram tomando conta da rotina. Vieram os sistemas digitais, as agendas eletrônicas e os procedimentos feitos pela internet.

“Até os antigos cartões de visita a gente não tem visto muito. Hoje, quando um paciente precisa do telefone de outro profissional, de um laboratório ou de alguma orientação, eu envio tudo pelo celular”, destaca.

E se antes uma secretária conseguia atender um paciente presencialmente e outro pelo telefone fixo, hoje a quantidade de mensagens se multiplica em poucos minutos. “Hoje você está com um paciente aqui e tem 30 te mandando WhatsApp. Tem dia que eu chego aqui e meu WhatsApp tem até 80 mensagens para responder”, relata.

A modernização chegou até mesmo à inteligência artificial. No consultório onde ela trabalha atualmente, parte do primeiro contato com o paciente passa por mensagens automáticas que ajudam a coletar informações. “A Inteligência Artificial faz essa primeira triagem”, detalha.

Atualmente, Rose trabalha há quase cinco anos com um ortopedista e cirurgião de coluna. A rotina inclui organizar consultas, retornos, cirurgias e toda a equipe que participa dos procedimentos.

Do papel à IA, Rose viu 30 anos de mudanças na profissão de secretária
Rose com a equipe do novo trabalho, onde está há quase cinco anos. (Foto: Arquivo Pessoal)

Mas o trabalho começa antes mesmo de o paciente chegar ao médico. “Eu faço todo um questionário. Vou puxando as informações do paciente, perguntando o que ele sente e onde sente”, explica.

Para Rose, a secretária é a ponte entre o paciente e o médico, especialmente porque muitas pessoas chegam ao consultório fragilizadas pela dor ou pela preocupação com a saúde. "Eu sempre trato conforme eu gostaria que eu ou uma pessoa da minha família fosse tratada", explica.

Depois de quase três décadas na profissão, ela também avalia que a categoria ainda precisa de mais reconhecimento e valorização. Agora, Rosimere já começa a pensar na aposentadoria, que deve chegar pelos próximos anos. "Eu quero viver mais tranquila, mas acho que quero continuar trabalhando com gente. Eu não me vejo parada, quieta em casa", afirma.

Nesta quarta-feira (30), Dia das Secretárias, a profissional deixa um recado para as companheiras. “É nosso dia, então, parabéns para nós. Temos que comemorar, mas também, nos unir e lutar por valorização”, finaliza.


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