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Games

Falta coragem à Sony e à milionária indústria de games

O mercado de games é atualmente o mais lucrativo do entretenimento

Por Fernando Fenero | 29/04/2021 06:15
Passagem de Days Gone disponível para Playstation 5 (Foto: Reprodução)
Passagem de Days Gone disponível para Playstation 5 (Foto: Reprodução)

Eu sei, pode ser um choque para quem não conhece a fundo a questão do cenário, mas se fatura mais com jogos do que na indústria da música ou cinema, e depois da pandemia esse abismo ficou ainda maior, afinal de contas, quantas pessoas não se trancaram dentro de suas casas agarradas em seus videogames conforme as recomendações mais seguras indicavam?

Mesmo assim, com toda lucratividade, a indústria vive um momento difícil e não é a primeira vez que vemos isso. Depois da quebra com a Atari no século passado, onde muita gente acreditou que videogames eram um péssimo negócio, a indústria se reinventou principalmente graças à Nintendo, que elevou o sarrafo da qualidade dos jogos e evitou aquela avalanche de lançamentos.

Mas décadas depois, os jogos precisam de muitos desenvolvedores. Se antes uma equipe de 12 pessoas conseguia criar os jogos para o Famicom em um pequeno escritório em Tóquio, hoje em dia é preciso de um trabalho em escala global envolvendo centenas de pessoas. Os jogos são muito maiores, com gameplay de muitas horas, dias de jogatina, e tudo isso sem bugs, com bons gráficos e de preferência regionalizado para cada país onde será lançado.

Então considerando tudo isso, eu posso garantir que um game que ganhou prêmios de melhor Desing Visual e Melhor Narrativa, considerado por muito tempo como o jogo mais aguardado no Playstation antes de seu lançamento, sendo um dos dez mais vendidos de 2019 (considerando jogos de TODAS as plataformas), que esse jogo, esse sucesso… consiga uma garantia de continuação, certo?

Errado.

Esse exemplo acima era de Days Gone, que até outro dia era exclusivo do Playstation 4 (agora está disponível para Playstation 5 e está vindo para PC), e que foi um jogo muito aguardado por ter sido anunciado em meio a febre de zumbis na cultura pop.

Esqueça os zumbis lentos de Resident Evil, esqueça a falta de compromisso com a realidade Left 4 Dead, aqui os zumbis são nominalmente frenéticos, e vão correr em hordas atrás do personagem principal. O roteiro foi muito elogiado e merecidamente, envolve conspiração global, motoclubes, fanatismo religioso, o fascismo incrustado na sociedade americana, e aquela certeza que o “homem é o lobo do homem”, Hobbes chegaria à mesma conclusão jogando Days Gone, nem sempre o zumbi é o maior inimigo.

O jogo termina com um final realmente emocionante, que deixou todos os fãs com aquela vontade maluca de jogar uma sequência, que não vai rolar. Tudo começa quando em dezembro de 2012 os diretores e roteiristas Jeff Ross e Jonh Garvin deixaram a BEND Studio, e recentemente deram entrevistas mal humoradas onde culpam até os jogadores por causa do cancelamento da continuação, mas o buraco é muito mais embaixo.

Fato é que os executivos da Sony colocaram todos os profissionais disponíveis do estúdio para trabalhar na continuação de seus títulos mais populares, estão trocando o certo pelo muito certo, tudo indica que a empresa japonesa não vai permitir o desenvolvimento de outros títulos apostando em novas propriedades intelectuais, para apostar fortemente naquilo que tem a certeza de que vai dar certo.

Quem perde com isso? Todo mundo.

Apesar dos desenvolvedores em suas entrevistas lançarem frases como “se você gosta de um jogo, compre ele com preço cheio”, o fato é que a empresa (como um todo, e não apenas a Sony) não tem alma e coração, ela quer grana para pagar os executivos e investidores, e com isso ela prejudica o mercado, que fica sem novos títulos e principalmente novas propriedades intelectuais.

Imagine só se franquias como Streets of Rage, Pokémon, Metroid, Mega Man e outras não tivessem suas continuações garantidas só porque a Nintendo ou a Sega quiseram investir em jogos do Mario e Sonic?

Com a convergência de mídias e a mudança no perfil de compra, estamos numa fase onde nunca se jogou tanto videogame, mas também nunca houve um mercado tão cheio de mais do mesmo, e o pior: sem indicativo nenhum de melhorias para os próximos anos.

Fica a pergunta: até quando vamos jogar os mesmos jogos?

Conheça o Video Game Data Base, o museu virtual brasileiro dos videogames. Pensou videogame, pensou VGDB.

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