ACOMPANHE-NOS     Campo Grande News no Facebook Campo Grande News no X Campo Grande News no Instagram Campo Grande News no TikTok Campo Grande News no Youtube
SETEMBRO, TERÇA  01    CAMPO GRANDE 24º

Lado Rural

Software da UFMS usa inteligência artificial para analisar saúde do solo

Ferramenta gratuita combina fotos e observações de campo para fazer avaliação preliminar e auxiliar no manejo

Por Inara Silva | 01/09/2026 06:39
Software da UFMS usa inteligência artificial para analisar saúde do solo
Detalhe de torrão mostra pequenas raízes distribuídas entre as partículas do solo (Foto: Arquivo pessoal)

Fotografias feitas com o celular podem ajudar produtores rurais a obter uma avaliação preliminar das condições físicas e biológicas do solo. Essa é a proposta do SoilView Analysis, software gratuito desenvolvido a partir de uma pesquisa de pós-doutorado em Agronomia na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). A ferramenta combina a avaliação feita pelo usuário com a análise computacional de imagens, que utiliza técnicas de inteligência artificial e aprendizado de máquina, para gerar notas de zero a dez e um relatório sobre a área analisada.

RESUMO

Nossa ferramenta de IA resume a notícia para você!

Pesquisadores da UFMS desenvolveram o SoilView Analysis, software gratuito que utiliza fotografias de celular e aprendizado de máquina para realizar triagens da saúde física e biológica do solo. A ferramenta gera relatórios com notas de zero a dez, complementando análises químicas laboratoriais. O sistema baseia-se em um protocolo de seis fotos por ponto e observações do usuário sobre raízes e macrofauna. O acesso é feito via navegador, sem necessidade de cadastro ou instalação.

O programa nasceu de estudos do professor Rafael Rossi, realizados entre agosto de 2025 e agosto de 2026 na UFMS, em Chapadão do Sul. Docente em Campo Grande, Rossi teve como supervisor Cassiano Garcia Roque, que também participou do desenvolvimento do software.

Segundo Rossi, a proposta é complementar, e não substituir, as análises laboratoriais de fertilidade. Ele explica que esses exames fornecem informações fundamentais sobre a composição química, mas a saúde do solo também envolve características físicas e biológicas. “A gente só está agregando mais uma camada”, explica.

Software da UFMS usa inteligência artificial para analisar saúde do solo
Software gratuito desenvolvido usa inteligência artificial para analisar qualidade do solo. (Foto: Judson Marinho)

Seis fotos por ponto - Para fazer a avaliação, o usuário informa características e o tamanho da área, e o programa pode indicar quantos pontos devem ser analisados. Em cada um deles são feitas seis fotografias, sendo duas da superfície, duas da camada entre zero e 15 centímetros e outras duas entre 15 e 30 centímetros.

O pesquisador ressalta que as imagens precisam seguir um protocolo de distância, iluminação e enquadramento, sem filtros ou flash. Para fotografar as camadas inferiores, é necessário abrir uma pequena trincheira. A análise também deve ser realizada quando o solo não estiver excessivamente seco nem encharcado.

Além das fotos, o usuário responde a perguntas sobre o que observa no campo, como presença de raízes, sinais de macrofauna e dificuldade para fazer a escavação.

Software da UFMS usa inteligência artificial para analisar saúde do solo
Da esquerda para direita, os professores Cassiano Garcia Roque e Rafael Rossi. (Arquivo pessoal)

Rafael Rossi afirma que o SoilView utiliza a Inteligência Artificial, por meio de aprendizado de máquina, para analisar características visíveis nas fotografias, mas o resultado não é determinado apenas pelo computador. Nas variáveis que possuem componente computacional, a avaliação humana corresponde a 60% da nota e a análise do sistema, a 40%.

Ao final, são geradas notas de zero a 10 para as características avaliadas e um relatório padronizado em PDF. Entre os aspectos observados estão cobertura, erosão, raízes, poros, agregados, conjuntos de partículas relacionados à estrutura do solo, e sinais visíveis da presença de organismos.

"Isso é uma triagem inicial”, resume Rossi. A intenção é que as informações sejam utilizadas em conjunto com outros tipos de análise para auxiliar nas decisões sobre o manejo de lavouras e pastagens.

600 imagens - Segundo o pesquisador, para desenvolver o componente de inteligência artificial, o sistema foi desenvolvido com mais de 600 fotografias de diferentes solos brasileiros, especialmente do Centro-Oeste, incluindo Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal.

Ele diz que o aprendizado de máquina permite trabalhar no reconhecimento de características diversas e sinais de atividade biológica. O programa também possui um mecanismo de calibração para aperfeiçoar as avaliações conforme é utilizado.

Conforme Rossi, as fotografias dos usuários, porém, não ficam armazenadas no banco de aprendizagem. Também não é necessário informar e-mail ou telefone, criar cadastro ou instalar aplicativo. O acesso pode ser feito pelo navegador do celular ou computador.

Software da UFMS usa inteligência artificial para analisar saúde do solo
Minhocas aparecem entre torrões, raízes e resíduos vegetais em amostra de solo analisada em campo (Foto: Arquivo pessoal)

 Validação será ampliada - Embora já esteja disponível ao público, o SoilView ainda passará por uma etapa mais ampla de validação científica. Nos testes realizados durante seu desenvolvimento, Rossi afirma que os resultados apresentaram correlação estatística forte e positiva com métodos utilizados para avaliar estabilidade dos agregados e atividade biológica. “É um indicativo promissor, eu diria, no mínimo promissor”, pondera.

Uma nova pesquisa cadastrada na UFMS prevê comparar o software com outros métodos em 80 pontos submetidos a 8 formas de manejo, 4 em Chapadão do Sul e 4 em Campo Grande. Entre as áreas previstas estão pastagens, inclusive em processo de degradação, sistema agroflorestal, plantio direto e cultivo mínimo. Os resultados deverão subsidiar o primeiro artigo científico sobre a ferramenta, ainda não publicado.

Gratuito e sem cadastro - Lançado há menos de um mês, o SoilView já registrou mais de 100 análises, segundo Rossi. Como não coleta informações que permitam identificar os usuários, os pesquisadores não sabem quem realizou cada avaliação ou em quais propriedades a ferramenta foi utilizada.

O pesquisador esclarece que a gratuidade está relacionada à origem do projeto em uma universidade pública e à intenção de tornar a ferramenta acessível à sociedade. Além de produtores, ela pode ser utilizada por técnicos, pesquisadores e estudantes das ciências agrárias. A proposta, segundo o professor, é transformar parte da observação feita no campo em informações padronizadas e comparáveis, oferecendo mais elementos para o manejo do solo. “Às vezes a gente acha que está lidando com um solo saudável e, do ponto de vista biológico, não é bem assim”, afirma.

Como acessar - Interessados em saber mais sobre o software podem acessar o perfil do Laboratório de Pesquisas de Estatísticas Geográficas e Sustentabilidade da UFMS na internet ou a página do sistema.

Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.