Avô partiu antes da formatura, mas “Doutorinha” realizou sonho dos dois
João foi presença constante na vida de Adrielly e seu maior incentivador na escolha pela Odontologia
João Paulo Valejo tinha uma promessa para cumprir. No dia da formatura da neta Adrielly, ele queria estar lá para pegar o canudo da “minha Doutorinha”, como carinhosamente chamava a neta. Em agosto, Adrielly finalmente se formou em Odontologia, ou melhor, cirurgiã-dentista, mas sem João ao seu lado.
RESUMO
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João Paulo Valejo, nascido em Miranda em 1956, faleceu em março de 2025, aos 68 anos, vítima de pneumonia, sem realizar seu sonho de ver a neta Adrielly se formar em Odontologia. Mesmo ausente, ela o homenageou colocando seu nome no jaleco. Padeiro, ex-militar e pai de quatro filhos, João foi lembrado pela família como exemplo de amor, resiliência e dedicação.
Não deu tempo de o avô ver o sonho, que também era dele. Ele partiu um ano antes, em março de 2025, aos 68 anos, vítima de pneumonia. João acompanhava tudo de perto. Fazia café da manhã para a neta, ia com ela ao médico e comemorava cada conquista. Quando ela decidiu estudar Odontologia, ficou ainda mais animado e dizia que estaria na formatura para dividir o palco com ela.
“A grande ligação que eu tinha com meu vô me faz sentir sua perda constantemente. Não me lembro de nenhum momento da minha vida em que ele não estivesse presente, desde a minha criação até os meus 23 anos, quando infelizmente o perdi”, conta Adrielly.
Mesmo sem a presença física, ela levou João para a formatura. E pretende continuar levando. A ideia é colocar o nome dele no jaleco e transformar tudo o que aprendeu com o avô em parte da profissão.
“Durante a graduação, meu vô me acompanhou em todos os momentos, sonhando com a minha formação. Infelizmente, me formei sem tê-lo ao meu lado e, agora, pretendo honrar seu nome".
A relação de João com Adrielly não era de um avô que aparecia só de vez em quando. Ele fazia questão de estar presente e ela acabou criando uma conexão ainda mais forte com o avô. João teve 12 netos e, para todos, fazia questão de demonstrar carinho.
O jeito dele também era impossível de ignorar. Quando passava um tempo sem ver alguém da família, ligava para cobrar.“Esqueceu que tem irmão? Ou esqueceu que tem pai? Esqueceu que tem avô?”, brincava. Era assim que João demonstrava saudade. Com piada, ligação e presença.
Para a irmã, Ana Cristina Cardoso Nantes, ele foi muito mais que um irmão mais velho. Foi uma espécie de segundo pai. “Ele foi uma referência, como homem, exemplo de responsabilidade, resiliência, amor e dedicação. Sempre me ligava para saber como eu estava”, lembra.
João nasceu em Miranda, em 3 de setembro de 1956. Quando tinha apenas 3 anos, perdeu o pai. O irmão mais velho, José, tinha 7 anos, e a irmã Maria Izabel era recém-nascida. A mãe precisou trabalhar para sustentar os filhos e João, ainda criança, entendeu que também precisaria ajudar. Aos 7 anos, começou a engraxar sapatos para colocar dinheiro dentro de casa.
Anos depois, quando Ana nasceu, João continuou ajudando a mãe. Na adolescência, começou a aprender a profissão que seguiria por boa parte da vida: a de padeiro. Trabalhou em Miranda, antes de entrar para o Exército. Depois de cumprir o período necessário e dar baixa, voltou para a padaria. Aos 21 anos, casou-se e teve 4 filhos, um casal de gêmeos.
Foi por causa de um tratamento médico do filho mais velho que a família veio para Campo Grande. João continuou trabalhando como padeiro e confeiteiro e, anos mais tarde, montou uma padaria com a irmã no bairro São Francisco. O negócio funcionou por cerca de 10 anos.
Mas a saúde acabou cobrando seu preço. João tinha diabetes e problemas de circulação por isso precisou se aposentar. Mesmo assim, continuou encontrando maneiras de estar perto de quem amava.
João sempre quis que os filhos servissem ao Exército, assim como ele. Os três foram dispensados, mas uma das filhas acabou entrando para a instituição como sargento na área de enfermagem. Para ele, foi motivo de orgulho.
Em breve, ele também seria bisavô pela primeira vez. João não chegou a conhecer o bisneto, nem conseguiu assistir à formatura da “Doutorinha”. Mas deixou para a família muito mais do que lembranças.
Para Ana, a principal herança é a forma como João viveu, com responsabilidade, amor, compromisso, dignidade e resiliência. E foi justamente isso que Adrielly levou para a vida profissional. “Aprendi com ele que para ter dignidade é preciso lutar e jamais desistir, ser resiliente e que, faça o que fizer, faça com amor e dê o seu melhor todos os dias.”
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